14 de dezembro de 2012

Uns braços, de Machado de Assis.


Inácio estremeceu, ouvindo os gritos do solicitador, recebeu o prato que este lhe apresentava e tratou de comer, debaixo de uma trovoada de nomes, malandro, cabeça de vento, estúpido, maluco.
- Onde anda que nunca ouve o que lhe digo? Hei de contar tudo a seu pai, para que lhe sacuda a preguiça do corpo com uma boa vara de marmelo, ou um pau; sim, ainda pode apanhar, não pense que não. Estúpido! maluco!
- Olhe que lá fora é isto mesmo que você vê aqui, continuou, voltando-se para D. Severina, senhora que vivia com ele maritalmente, há anos. Confunde-me os papéis todos, erra as casas, vai a um escrivão em vez de ir a outro, troca os advogados: é o diabo! É o tal sono pesado e contínuo. De manhã é o que se vê; primeiro que acorde é preciso quebrar-lhe os ossos... Deixe; amanhã hei de acordá-lo a pau de vassoura!
D. Severina tocou-lhe no pé, como pedindo que acabasse. Borges espeitorou ainda alguns impropérios, e ficou em paz com Deus e os homens.
Não digo que ficou em paz com os meninos, porque o nosso Inácio não era propriamente menino. Tinha quinze anos feitos e bem feitos. Cabeça inculta, mas bela, olhos de rapaz que sonha, que adivinha, que indaga, que quer saber e não acaba de saber nada. Tudo isso posto sobre um corpo não destituído de graça, ainda que mal vestido. O pai é barbeiro na Cidade Nova, e pô-lo de agente, escrevente, ou que quer que era, do solicitador Borges, com esperança de vê-lo no foro, porque lhe parecia que os procuradores de causas ganhavam muito. Passava-se isto na Rua da Lapa, em 1870.
Durante alguns minutos não se ouviu mais que o tinir dos talheres e o ruído da mastigação. Borges abarrotava-se de alface e vaca; interrompia-se para virgular a oração com um golpe de vinho e continuava logo calado.
Inácio ia comendo devagarinho, não ousando levantar os olhos do prato, nem para colocá-los onde eles estavam no momento em que o terrível Borges o descompôs. Verdade é que seria agora muito arriscado. Nunca ele pôs os olhos nos braços de D. Severina que se não esquecesse de si e de tudo.
Também a culpa era antes de D. Severina em trazê-los assim nus, constantemente. Usava mangas curtas em todos os vestidos de casa, meio palmo abaixo do ombro; dali em diante ficavam-lhe os braços à mostra. Na verdade, eram belos e cheios, em harmonia com a dona, que era antes grossa que fina, e não perdiam a cor nem a maciez por viverem ao ar; mas é justo explicar que ela os não trazia assim por faceira, senão porque já gastara todos os vestidos de mangas compridas. De pé, era muito vistosa; andando, tinha meneios engraçados; ele, entretanto, quase que só a via à mesa, onde, além dos braços, mal poderia mirar-lhe o busto. Não se pode dizer que era bonita; mas também não era feia. Nenhum adorno; o próprio penteado consta de mui pouco; alisou os cabelos, apanhou-os, atou-os e fixou-os no alto da cabeça com o pente de tartaruga que a mãe lhe deixou. Ao pescoço, um lenço escuro, nas orelhas, nada. Tudo isso com vinte e sete anos floridos e sólidos.

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Comentário do conto "Uns Braços", de Machado de Assis.


Inserido no volume Várias Histórias, no conto Uns braços Machado de Assis narra a história de Inácio, jovem de 15 anos que vai trabalhar como ajudante do ríspido solicitador (funcionário do Judiciário, algo entre procurador e advogado) Borges, morando na casa deste.
É lá que acaba se encantando com os braços de D. Severina, companheira do seu patrão. Deve-se lembrar que na época em que se passa a história, 1870, não era comum uma mulher exibir tal parte do corpo, a não ser em vestidos de baile. Mas, antes que se pense que ela era despudorada, deve-se lembrar que só o fazia por passar por certas dificuldades que tornava o seu vestuário falto de peças mais adequadas, ou seja, com mangas compridas.
Ainda assim, os breves momentos em que via a mulher e principalmente os braços dela eram, para Inácio, o grande alívio diante de um cotidiano tão massacrante. Até que um dia D. Severina percebe o interesse que desperta no moço. Demora a aceitar, pois considera-o apenas uma criança. Mas, quando vê o homem já na forma do menino, entra num sentimento conflitante, misto de vaidade e pudor. Por isso oscila entre tratar mal o rapaz e mostrar preocupação com o seu bem-estar.
Até que num domingo ocorre a cena mais importante da história. D. Severina encontra Inácio dormindo na rede. Dá-lhe um leve beijo na boca. A senhora não sabe que naquele exato instante o garoto sonhava com o beijo dela e ele não sabe que era beijado realmente enquanto estava mergulhado na fantasia do seu sono.
Pouco tempo depois, Borges dispensa o garoto de forma admiravelmente amistosa. O menino não vê mais D. Severina, guardando a sensação daquela tarde como algo que não ia ser superado em nenhum relacionamento de sua existência.
Note que nesse conto Machado mostra o dom que possui para narrativas memorialistas. Veja também o seu início abrupto, sendo o leitor jogado de chofre no meio da história (técnica chamada de in media res). Repare, por fim, que a temática da descoberta do amor é envolta em delicadeza e ternura.
Porém, dona Severina, na tentativa de recusa a esta clausura, não se conforma com esta posição, permitindo que, através de ações ambíguas e movimentos contraditórios que comentaremos posteriormente, revele-se a vontade de ser desejada por um outro homem e, por sua vez, a de desejá-lo também. Trata-se de um quadro de adultério pintado com suaves tintas por Machado de Assis, cuidadoso que é na estruturação de suas histórias, nunca ferindo as vistas dos leitores.
A contradição e a ambigüidade em Machado de Assis estão presentes, inicialmente, nos recursos lingüisticos e estilísticos adotados, ou seja, na forma que utiliza para expressar seu conteúdo. Então, de saída, percebemos a linguagem por ele usada possibilitando e incentivando movimentos contraditórios e ambivalentes dentro de sua narrativa.

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15 de outubro de 2012

Osman Lins- Pastoral



Sem aqueles óculos de vidro grosso, meu padrinho, morto, parece outro homem. É outro homem. Olhava-me por trás das lentes, dizendo coisas sobre minha mãe, quando me deu Canária de presente. O sermão exalava afronta e crueldade, saía devagar pelo nariz, seu andar também mas cauteloso e miúdo, andar de cágado. Sendo caso de morte, e eu afilhado, meu pai não viu outro jeito, senio trazer-me à cidade. Ali está, senta­do, a boca aberta, ouvindo os numerosos sinos de Goia­na, dobrando pelo compadre. Quando se distrai, fica de boca aberta; os olhos não repousam, sondam tudo com desconfiança. Estou ouvindo sua voz soante, embora esteja calado. Todas as horas da vida, sem cessar, escuto sua voz. Não é para ele, nem para meu padrinho, é para as seis mulheres de Goiana, estranhos bichos não existen­tes no sítio (duas sentadas no banco, o rosto sobre as mãos, a terceira de pé, ao sol, prendendo os cabelos, ou­tra de olhos no espaço, reclinada no sofá, sozinha, braços estendidos no espaldar, e duas desfolhando cravos sobre o morto, é para estas que eu desejaria ter seis olhos. Ali­çona é mulher? Usa vestido, é certo, semelhante às saias e blusas dessas moças. Mas é mulher? Banhando-se no rio, nua, lembra um tronco nodoso, cinza e verde, grosso, coberto de limo. Tem os cabelos pretos. Mesmo as­sim, vejo na sua cara de azinhavre, larga e retalhada de rugas, idades que me assustam. As dessas moças não fa­zem medo. Peles finas, mãos bem tratadas, os vestidos brancos ou estampados, as orelhas com brincos, os sapa­tos delgados. Como são bonitas! Poderiam talvez brincar comigo, rolar nas folhas, dormir na minha cama. Isto, que parece um coro de cigarras, seis cigarras cantando, é o perfume de minhas seis goianenses.
Aqui, ninguém me vê. Canária entrega-se, mansa, a to­dos os agrados. Tento morder, de olhos fechados, o fuso que ela tem na testa. Pensando no perfume das moças, afogo-me em seu cheiro de égua nova, ainda quente de sol. A claridade enreda-se nos troncos, o prazer vem su­bindo pelas pernas. Meu corpo aumenta, prolonga-se nos flancos brilhantes e dourados, na curva do espinhaço, na cabeça erguida. Nesta baixada, o sol desaparece antes. A luz esponjosa reflete-se nas nuvens, infiltra-se nos ramos das velhas laranjeiras sob as quais eu e a poldra es­tamos escondidos. Começou a noite e as primeiras estre­las logo poderão ser vistas entre as folhas. Por isto, e também por causa dos cabelos compridos, tapando-me as orelhas (passam-se meses, sem que ninguém se lembre de cortá-los), não posso ver meu perfil. Joaquim, bem longe, abate uma árvore; chegam a meus joelhos, amor­tecidos, os golpes de machado. Mais um dia, mais um dia para amadurecer Canária e conduzi-la ao cavalo que está de pé em algum pasto, cavalo de cactos, crinas de agave, rabo de carrapichos.

Comentário do conto Pastoral, de Osman Lins


Segundo o Pequeno Dicionário Brasileiro de Língua Portuguesa, Pastoral é uma forma de representação dramática, de argumento lendário que teve origem na Itália e preparou a criação da ópera. 

O conto Pastoral, de Osman Lins, afirma-se como uma narrativa reveladora da pressão que as normas comunitárias exercem sobre os mais fracos, os mais vulneráveis da comunidade. 
A história do menino - que se deixa matar lutando pela preservação do seu objeto de desejo,veicula, nas entrelinhas do enunciado, a denúncia do autoritarismo devastador da lei, representado pelo macho dominador, pela figura do pai. 
O relato do narrador-personagem Baltazar não mascara o tema edipiano de que trata, tampouco tenta ocultar o lado impactante de uma iniciação na vida sexual que se torna um espaço de abertura para a morte. 
É interessante a forma como é focalizado o incesto, mostrado por meio do "deslocamento", ou seja: na falta da mãe, o objeto do desejo do adolescente é deslocado para a égua Canária que, por sua vez, é também um objeto do desejo proibido pelas leis sociais. Esse deslocamento de uma proibição cultural - o incesto - para uma proibição aparentemente natural - a cópula entre espécies diferentes- remete, da mesma forma, para a área do interdito. 
Há também um aspecto moralizante no conto: Baltazar, o rebelde, é punido. Mas, a sua morte se transforma em lição moral. O discurso se compõe de forma a fazer da personagem um herói que se sacrifica por valores mais altos. 
Não deixa de ser interessante o triângulo amoroso: Baltazar - Canária - Cavalo, que equivale, metaforicamente, ao triângulo Baltazar - Mãe - Pai. 
A morte é um signo de revelação. O Padrinho morto parece outro homem. Baltazar morto descobre o quanto é criança, sem a crispação- gerada pelo medo, pela ansiedade - com que se protegia em vida. 
Como no conto Teorema de Herberto Helder, o narrador morto continua narrando, instaurando o fantástico na esfera do foco narrativo: 
"Estirado na mesa, sem velas, dedos cruzados. A pele de raposa cobrindo-me as virilhas..." 

Osman Lins transgrediu os limites de seu próprio sistema narrativo (primeira pessoa protagonista/visão com) ao conceder ao narrador-personagem os privilégios da onisciência. Este não pode ter uma visão externa de si mesmo, não pode, portanto, dar informações que transcendem os limites do seu estatuto. Ocorre que o "eu", em todas as composições do livro "Nove Novena", mais que o "eu" real é um "eu" ficcional. O autor utiliza-o abstratamente, insistindo em que não lhe atribui função testemunhal, ou confessional. Daí a faculdade dada ao personagem-narrador de se vê e se descrever, através de uma linguagem penetrada de uma realidade que não poderiam ser as suas. 
"Nove, Novena" é realizado com ampla e inovadora liberdade, é uma obra ousada. criativa e transgressiva das velhas normas que regem a arte de narrar.

Zenóbia Collares Moreira. 


25 de setembro de 2012

Urbano Tavares Rodrigues: Uma Grande Imoralidade


Ao cair de mais um dia inútil, o Dr. Teodósio sentia murchar-lhe ao peito a rebeldia. Chegava a casa, lavava-se com água quase a ferver, esfregava-se com alfazema, mas o marasmo endurecido do hospital persistia nele. Àquela hora, sabia que uma única servente tomava conta de quarenta camas, na sua enfermaria. Lembrava-se: não havia muito, já ali morrera estrangulado, por falta de vigilância um miúdo que, num acesso de febre, tentara saltar do leito e se enforcara no próprio lençol, que ficava sempre entalado de modo a evitar fugas. Revia-o de olho verde-escuro, garotão, quase bonito, mesmo com aquelas faces de fome endémica e a vermelhidão do sarampo.
Chovia sobre as acácias do jardim, mas a noite do hospital custava a adormecer por entre os membros das árvores, onde a chuva aliciante cantava o seu canto do esquecimento. Não: nem a mulher, nem a cigarrilha, nem o livro, nem o saco de água quente, nada o distraía daquela praga de sarampos, escarlatinas, papeiras, febres tifóides, anginas estafilocócicas, que, mesmo no quarto de seu repouso o afligia. "Sou novo", estão-se sempre a dizer: ainda tens de comer muito pão..., e outras vezes, se me exalto: Deixa correr, não é por tu gritares... Olha, de calar ninguém se arrepende, de falar...
Além disso, tinha um problema de consciência; estaria realmente à altura, ainda sem prática clínica nem conhecimento da terapêutica? Claro que conhecia todas as patologias, mas trezentos doentes à sua conta não era brincadeira. Impossível atendê-los convenientemente a todos, por mais que fizesse e quisesse.
E o material?! Os pratos de alumínio amolgados, que serviam para duas ou três pessoas, enxaguados à pressa ali mesmo, sem desinfecção, transmitindo bacilos com a velha franqueza patriarcal da nossa terra! Às vezes um tremor de raiva me sacudia. Mas não adiantava barafustar com desgraçados que apenas cumpriam ordens e que andavam também azedos a tilintar, ao pé dos quais ele era um reizinho, senhor de desencadear, ao menos, o trovão da descompostura que alivia. Não, não podia ser assim.
Faltavam fronhas para os travesseiros, não havia toalhas que bastassem; as mulheres nem sequer dispunham de panos higiênicos durante o período menstrual, o que fazia com que se limpassem à roupa da cama. Era por todo o lado uma sordidez de calafrios, quieta e acomodada; e, mesmo assim, entre o desprezo e as chagas, a esperança resistia.
-Então, doutor, quando é que tenho alta?
Mal sabia ela que, se as coisas não mudassem, aí pelo dia vinte, a alta era para o cemitério. E talvez não fosse, porque o Dr. Teodósio, aquele "parvo chapado", pagava os remédios do seu bolso, olé! Era um novo com vocação de novo, com a vocação do hospital, dias atrás do precipício: os velhos que querem sê-lo muito tempo começam a sê-lo cedo...
Revolvia-se na insônia, rememorando a conversa que tivera com o director do hospital, dias atrás. Porque não se podia admitir, de facto, que a partir do dia vinte ou vinte e cinco, quando muito, se verificasse aquela carência de medicamentos.

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Comentário do conto Uma Grande Imoralidade.


Urbano Tavares Rodrigues é um dos melhores contistas portugueses. Combativo e ousado em suas críticas aos desmandos e misérias que observava na sociedade da época salazarista, especialmente no que toca aos mais pobres e vítimas do abandono a que eram relegados pelo poder constituído. Lançando mão da ironia e do sarcasmo, armas usadas por Gil Vicente para exercer sua demolidora crítica mordaz contra as mazelas do clero e da sociedade de sua época, Urbano desconstrói a hipocrisia avassaladora dos representantes do governo cujo interesse em solucionar os graves problemas de saúde do povo não passa de mera encenação, de vergonhosa inspeção em nada interessada em ver, em examinar, em buscar a urgente solução que salvaria tantas vidas.
Uma Grande Imoralidade irrompe em sua obra como um grito de revolta contra a situação de flagelo em que se encontrava a saúde pública, especialmente nos hospitais do Estado. Conto de intencionalidade moralizante, altamente crítico e condenatório em relação ao poder constituído, afirma-se como uma denúncia veemente à situação caótica do sistema hospitalar português no período ditatorial.
A narrativa é conduzida por um narrador homodiegético - o Dr. Teodósio - um jovem e idealista médico recém saído da residência médica para trabalhar em um hospital público. Imbuído dos mais nobres ideais profissionais e humanitários, o inexperiente e abnegado médico vê-se confrontado com as péssimas condições de trabalho junto aos enfermos. Apesar do superávit anual do orçamento, falta tudo, desde o mais essencial ao absolutamente indispensável na enfermaria na qual teria que cuidar de trezentos pacientes, sem dispor dos medicamentos necessários a tratá-los.
O ponto alto da narrativa é a visita de um Subsecretário que viria inspecionar o hospital, como fizera em todos os estabelecimentos de saúde mantidos pelo governo "que eloqüentemente atestava o progresso, a paz,
a ordem e a tranqüilidade da nação", conforme era divulgado pelo discurso demagógico ditado pela hipocrisia e falso moralismo ditatorial.
A narrativa acelera-se com as interferências do Dr. Teodósio, insistindo em abrir os olhos do "notável homem público" para uma situação inteiramente contrária às que o "Ilustre visitante" costumava encontrar em suas inspeções, previamente anunciadas, justamente para que todas as mazelas dos serviços públicos fossem maquiladas, disfarçadas e sequer mencionadas.
O Dr. Teodósio com seu discurso denunciador, com a sua exagerada insistência em revelar o que a "Sua Excelência" não desejava saber, nem ver, só desejava sensibilizar o Subsecretário e obter mudanças radicais naquela miséria pública. Pelo seu empenho, apesar do agastamento do "Ilustre Visitante", parecia que a narrativa se encaminhava para um desfecho positivo que significaria a dignidade trazida de volta ao hospital. No entanto, o autor opta por um caminho diferente e surpreendente, construindo o conto a partir de uma estrutura "anedótica", ou seja: deixa o leitor ser levado por um caminho, torcendo para que o Dr. Teodósio conseguisse mudar a postura do Subsecretário para uma outra que mudasse a triste realidade do hospital, mas, de súbito, o que vemos é o representante do governo falar pela primeira vez, com veemência, parecendo que ia concordar com o Dr. Teodoro: "há aqui muita coisa que não se admite, muita coisa que choca profundamente: por exemplo, aquela enfermaria com cinco mulheres descompostas e três rapazes. Já quase homens. Isso tem que mudar: é uma grande imoralidade!"
Esse final altamente crítico e revelador da hipocrisia e do apego às aparências que sustentam os valores de um governo que nunca entendeu o que significa "imoralidade", além da conotação libidinosa. Segundo tais valores, imoral é mulheres descompostas e garotos de 10 anos estarem juntos. Não enxergam que imoral é estarem juntos em sua agonia, ardendo em febre, lutando contra a morte que os ameaça e que os levará por falta de remédios. As palavras do Subsecretário soa como uma piada, remete ao risível. E nada mais demolidor que a crítica pelo riso...


4 de setembro de 2012

Osman Lins, Os confundidos

- Estou cansada. Quase meia-noite.
- Continuo de férias, posso acordar tarde.
- Mas eu, não. Afinal, que importa? Suporto bem uma noite sem sono. Tenho passado outras.
- É uma alusão a mim?
- Talvez.
- Não fiz censuras, perguntas, não disse nada. Desde o jantar que estamos calados.
- Existe alguma coisa que fui condenada a ouvir hoje. Sinto isso no ar, nas mãos. Espero, ao menos, que o horror tenha início antes que clareie o dia. Amanhã é terça, dia de trabalho.
Um de nós levantou-se, ou irá ainda levantar-se, entreabrir a cortina, olhar a noite. O rumor dos veículos, continuado, ascenderá - ascendeu? – das avenidas, regirando na sala, sobre as aquarelas em seus finos caixilhos, sobre as poltronas de couro com almofadas vermelhas, em torno do abajur aceso. As estrelas vibrando, parecendo abaladas pelo rumor da cidade que não dorme. Estamos de mãos dadas, qual destas mãos arde? Olhamos a parede vazia.
-Hoje, sofri novamente um ataque. Prometi nunca mais tornar a fazer isso. Mas não posso cumprir, simplesmente não posso. Veio com a mesma força de sempre. É abalador.
- Então não há remédio.
- Deve haver.
- Tenho de viver até quando nesta danação? Vou esperar até o fim da vida?
- É preciso compaixão.
- Novamente as palavras. Inúteis como sempre.
- Não são inúteis.
- Estou farta. Tínhamos passado três semanas sem essa coisa odiosa. Dias perfeitos.
- Manhãs, tardes e noites nós estávamos juntos. Eu não podia duvidar... de mim.
- Bastou eu me afastar algumas horas, para recomeçar outra vez. Então tudo o que faço é o mesmo que olhar nos olhos de um cego?
- Quero explicar.
- Prefiro não ouvir.
- Tenho de ouvir.
- E por cima de tudo, ainda isto: uma ausência total de piedade. Admito que suspeite de mim, embora sem motivo. Mas por que confessar? É crueldade.
- Quero ser sincero.
- Desprezo até a náusea esse tipo de sinceridade. Enjoa-me. Sinceridade, como? Entrego-me. Confio. Sinto os abraços, beijos. E que existe por dentro dos afagos? Tenho os olhos fechados. Minha boca está na minha boca. E dois olhos sondam-me. Isto é ser sincero?
- Não suspeito de nada, quando nos amamos.
- Como posso saber? Como posso crer?
- Estou dizendo: não suspeito de nada. Alguma coisa, quando estamos juntos, me restitui a confiança. Acho que assim vai ser eternamente, que toda sombra acabou e que não voltará a existir, entre nós , maldade alguma. De repente, vejo-me sozinho. E recomeço.
- Por que não suspeitar quando estou presente? Posso estar aqui, comigo, nua e pensando noutro homem. Comparando em segredo o modo de abraçar-me. O jeito de ...
- Melhor não prosseguir. Se destruo isso, esta segurança, a derradeira, a única, me resta o que?
- Pouco se me dá. Para mim, nem essa, ao menos, existe. Principio também a duvidar de mim mesma, já não me conheço, não sei mais quem sou.
Quem, com gestos nervosos, abre a cigarreira dourada, bate com um golpe decidido e seco a tampa do isqueiro, depois de olhar a chama demoradamente? Um se levanta, anda, outro permanece sentado, depois este se ergue, atravessamos a sala, alguém volta a sentar-se, continuamos de pé, dorso contra dorso, juntos.
- Quando me vi sozinho, fui deitar-me. Comecei a pensar como estas semanas tinham-nos aproximado e que todos os mal-entendidos cessariam. Não havíamos tido apenas alguns momentos alegres e tranqüilos. Todos esses dias foram de alegria e paz. Revi-me na praia, minha despreocupação no mar, o corpo, as coxas, recordei o calor das nossas peles depois do meio-dia. Lamentei as desconfianças antigas e pensei que depois de oito ano conquistáramos alguma coisa buscada durante todo esse tempo. Então fui ao banheiro e vi: estava seco.
- Tomei banho. Foi talvez o tempo que está quente.
- Sim.
- E passei a flanela na banheira.
- Nunca fiz isso.
- É o que sempre faço.
- Digo que o tempo estava quente. E logo em seguida, que a banheira está seca por causa da flanela que passei. Por que as duas versões? São estas mentiras que destroem.
- Não estou mentindo.
- Estou!
- Uma coisa não tem de excluir a outra. Tudo isso é absurdo.
- A toalha também estava seca. Disse a mim mesmo que não tinha importância. Mas neste momento, já começara a lembrar-me das recomendações que me fizera. Para não sair, aproveitar as últimas tardes de férias, ficar em casa preparando o trabalho sobre a correspondência de lawrence
- Foi um erro. Com determinadas pessoas, é impossível não errar. Erra-se sempre.
- Há parte de nós mesmos que não devem ser reveladas nunca. Mas é preciso que eu seja absolutamente sincero. Como lawrence. Ele era sincero.
- Não sou lawrence.
- O que senti, o que sinto, é igual ao que me sucedia quando era menino e ficava sozinho. Excitava-me com que? Retrato de mulheres? Histórias licenciosas? Com a solidão. Insensivelmente, irresistivelmente, eu buscava em mim o prazer, um prazer aflito e imaturo. Para em seguida cair em depressão; e começar tudo, assim que me visse outra vez só no quarto ou no banheiro. A solidão, para mim, era o mesmo que uma mulher nua. Agora, ela é como a presença de um rival.
- Não existe rival.
- Quando estamos juntos, é também assim que penso. Não há outro, nem ouve nunca, ambos nos amamos. Mas se me vejo só!
- Tenho prazer em despertar compaixão.
- Mereço compaixão.
Dirigi-me ao quarto de dormir, permaneço na sala, com vagarosos gestos ponho o négligé, afago o rosto, a barba começa a apontar, volto para junto de mim, são leves meus passos, continuo sentado, não me levantei.
- É melhor acabar com tudo. Estou cansada.
- Pensei que a insistência para que eu passasse a tarde em casa era um ardil.
- Não insisti.
- um ardil para que eu não saísse e não telefonasse. Por que não me banhara se havia tempo? Desejava ganhar alguns minutos, meia hora que fosse, chegar um pouco mais cedo a algum encontro ajustado há quinze dias, ou talvez combinado no hotel, num momento de ausência, talvez no cabeleireiro, ou na manicure, como se pode saber? Devo dizer que não telefonei.
- Não acredito. Houve um momento em que foram me chamar. Quando atendi, haviam desligado.
- Quem imagino que foi?
- Não faço idéia.
- Quem foi?
- Não sei. Sinceramente, não sei.
- Não telefonei. Mas vasculhei, uma por uma, todas as suas bolsas. Dizia a mim mesmo que estava fazendo uma insensatez, que poderia encontrar algum papel do qual não fosse culpada, mas que parecesse acusador e que isto me destruiria, e que afinal seria inútil, pois não tenho coragem de deixá-la.
- Encontrou alguma coisa?
- Isto: um nome de homem. Este endereço. Quero saber quem é.
- Não me lembro
- Empalideci.
- Quem não ficaria pálido? De cólera!
- Cólera por que, se eu é que sou o ofendido?
- Sou eu a ofendida.
- Quem é este?
- Ignoro. Talvez algum fabricante de calçados. Talvez seja algum cabeleireiro, recomendado por companheiras da repartição. A letra é minha. Mas não me lembro de haver escrito esse endereço. Talvez afinal um homem a quem eu ame e que me ofereça um pouco de paz. Que não me torture e que não se torture os dias todos da vida. Com esta fome de posse, de propriedade. Com estes laços, estas armadilhas, estas navalhas de suspeita. Eu queria morrer!
- Quem é o homem?
- Pelo amor de deus! Não existe homem algum, homem nenhum, outro homem. Nenhum.
- E este nome? Preciso saber.
- Todo mundo encontra em seus papéis, de vez em quando, notas que não sabe para que tomou.
- Fazendo um esforço, termina-se por recordar.
- Uma vez que o louco é irredutível, não pode escapar à loucura e agir como os sãos, estes condescendem em agir como se fossem doidos. Não por deliberação. Insensivelmente e porque não podem ser de outro modo. É o mal de conviver com loucos. Pois esta é a miséria: estou fazendo o esforço que me peço, tentando recordar. Preciso sair disto. Preciso, de uma vez por todas, sair disto.
- Então por que não saio?
Levanto-me, os olhos pesam de sono, vou ao mictório, levo um tempo enorme comprimindo o botão niquelado, ouvindo o jato violento da água, sentindo prazer nisso, deito-me. Giro em torno do leito posto no meio do quarto. Giro, interminável giro, e este caminhar é o mesmo que beber, devagar, um vinho insinuante.
- Estou pensando em quando fiz uma operação nos rins. Por que, sempre que há cenas assim, eles me doem? Fizeram-me um enxerto nos rins, com tecido cortado nos meus intestinos. E esperaram. Haviam feito o que tinham de fazer. O resto não lhes competia, não podiam forçar o tecido a viver em sua nova função.
- Aonde eu quero chegar?

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Comentário do conto "Os Confundidos", de Osman Lins

A fábula do conto resume-se, praticamente, numa cena de ciúmes. O diálogo gira, assim, em torno da hipotética, porém não confirmada, infidelidade da mulher. A confusão instaurada entre ambos impossibilita, no entanto, que cheguem a um entendimento esclarecedor da verdade buscada por ambos. Confusão esta decorrente justamente da mistura dos discursos e das perspectivas dos dois interlocutores, pois, enredados no próprio emaranhado das suas falas indiferenciadas, tanto o homem, quanto a mulher passam a se confundir.
A sistemática recusa, por parte dos “amantes” confundidos, na condição de sujeitos da enunciação, de fazer uso da segunda pessoa em seus discursos, desvirtua completamente o diálogo e transforma-o num monólogo ininteligível. Eles não mais se entendem, porque roubaram-se, reciprocamente, as individualidades, tiraram, um ao outro, a marca do pessoal.
A distância entre os dois “eus” desaparece. De tão próximos, eles não mais se enxergam como seres distintos: perderam a noção do “eu” e do “outro”. Desta situação resulta a diluição das suas identidades individuais. Cada um é si próprio e também o outro em um caminho que parece sem volta – “Quero sair disto, não foi de modo algum para este sofrimento que meu corpo reagiu à morte. Mas como, se perdi a identidade e não sei mais quem sou? Somos como dois corpos enterrados juntos, corroídos pela terra, os ossos misturados. Não sei mais quem eu sou.”
Aliás, em matéria de condensação de sentidos, "Os confundidos" vão às últimas conseqüências. Por permutação e confusão, as terminações verbais ora separam em dois, ora os fundem num só "eu", ele a acusá-la de infidelidade, ela a defender-se do seu ciúme doentio. Esses amantes a girarem obsessivamente um em torno do outro são passíveis de várias e igualmente ambíguas leituras como figurações da fusão amorosa.

Zenóbia Collares Moreira


24 de julho de 2012

A Floresta em sua Casa, de Maria Judite de Carvalho

Pintava a lindas cores como um velho artista do passado, que se chamava Douanier Rousseau; simplesmente, os seus bichos não eram ingênuos nem agressivos, mas perigosos. Não terríveis, não assustadores: perigosos, embora um pouco engraçados também. Espreitavam ou estavam alerta ou resfolegavam ao de leve (era como se resfolegassem) ao preparar o salto. Havia sempre folhagem a dissimulá-los, a mantê-los numa quase ilegalidade graciosa, bonitas flores bojudas, de carne rosada, a tornar por assim dizer impossível, a ridicularizar, a sua ferocidade.
Não se via o tigre a atacar o búfalo, mordendo-o já, começando a dilacerá-lo. Não. O tigre, quando tigre havia, estava meio escondido por uma das tais flores, maior do que a sua cabeça. E sentia-se que ele já avistara a presa, que a espiava, que só estava à espera da altura mais conveniente, para agir. Era um jovem leão ágil, esse a que o pintor dava os últimos retoques. Um jovem leão já sabedor, a olhar bem de frente para quem o olhava. Tinha uma grande juba redonda e escura de que só se via metade, e um corpo amarelado que à primeira vista parecia exíguo. Exíguo porque atrás de si havia um tronco de árvore em cuja largura caberiam sete leões e que servia de pano de fundo a uma amálgama de lianas, de longas folhas gordas, carnosas, de arbustos que se erguiam do chão ou que tombavam de cima, em cascata. A juba estava semi-escondida por uma dessas folhas, grande e lobada, quase vermelha, quase animal.
«Era assim a floresta?» perguntavam com um arrepio breve e muita admiração as pessoas que visitavam o atelier do pintor. Ele abria os braços, punha-se a rir. Como havia de saber? Há séculos que os desertos e as grandes florestas e os densos bosques pintalgados de sol tinham desaparecido da face de um pequeno mundo superpovoado, porque a terra era pouca para edificar e para cultivar. Por isso se cultivavam também os oceanos. Nas antigas florestas da Amazónia havia deslumbrantes cidades de vidro, aeroportos imensos, belas auto-estradas. O mesmo nas de África e da Ásia, o mesmo nas do resto do mundo. E os animais, os poucos que tinham sobrevivido ao arrancar das raízes, encontravam-se em três ou quatro pequenos jardins de aclimatação.
Aquelas estranhas florestas eram, no entanto, as que ele imaginava. Velhas, luxuriantes florestas de há séculos, com uma vida que vinha do princípio das coisas. Florestas com túrgidas flores que nasciam, cresciam e morriam em poucas horas, que, por assim dizer, renasciam e onde o perigo espreitava por detrás de cada folha.
Os seus quadros eram muito procurados porque eram decorativos, tinham belas cores e nunca acabavam de ser vistos. Ali, estava o leão, mas, olhando melhor, procurando, avistavam-se as três corças, todas encolhidas, como que receosas, a cobra a rastejar, e mais além, confundindo-se com as lianas, a aranha carangueja. Havia também ângulos dos quais se podiam ver animaizinhos escondidos, aqui e além. Um, dois, cinco, mais?
Era um herdeiro de Rousseau e um charadista. Mas as charadas tinham desaparecido com os almanaques. Um pintor portanto original, criador, muito apreciado. «Tenha a floresta em casa» era o seu slogan publicitário. E as pessoas gostavam de ter em casa um pedaço dessa floresta, era refrescante. A maioria delas nunca tinha visto um leão nem um tigre a não ser nos livros de zoologia, porque os jardins onde havia animais eram poucos e os próprios animais tendiam a desaparecer, como se o mundo actual já não lhes pertencesse. As fêmeas procriavam com dificuldade, algumas espécies estavam praticamente extintas, outras tinham mesmo desaparecido por completo. Assim, já não havia elefantes, nem ursos nem leopardos.

Comentário do conto A Floresta em sua casa.

O conto “A floresta em sua casa”, integra o livro “Os Idólatras”, de Maria Judite de Carvalho que reúne as narrativas da autora classificadas como pertencentes ao gênero Fantástico, conforme a teoria de Tzvetan Todorov (Introduction à la littérature fantastique, Paris: Seuil, 1973). Esse autor considera três condições necessárias para a definição do fantástico:
1) Que o texto obrigue o leitor a considerar o mundo das personagens como um mundo de pessoas vivas, e a hesitar entre uma explicação natural e outra sobrenatural dos acontecimentos evocados.
2) Que a hesitação possa ser compartilhada com uma personagem, ficando o papel daquele confiado a este e tornando-se a hesitação, uma vez representada, um dos temas da obra.
3) Que o leitor adote certa atitude em relação ao texto, recusando-lhe uma interpretação alegórica ou poética.
A narração heterodiegética (na terceira pessoa) torna mais difícil a manutenção do efeito fantástico, como será visto na análise do conto.
AS PERSONAGENS do conto são o Pintor e duas crianças, Giles e Alex. Giles, 5 anos, é considerado imaginativo pela família. Alex, 10 anos, é quem descobre os sucessivos desaparecimentos dos animais da tela. O Pintor é “um charadista”.
O TEMPO da ação é o Futuro, no qual Rousseau (1844-1910) é um velho artista do passado, no qual não há mais florestas, nem desertos, nem os animais que habitavam o mundo. Estes foram destruídos pela cultura há séculos.
O ESPAÇO caracteriza-se pela ambigüidade e pela duplicidade: o espaço da tela pintada e o espaço da casa onde a família habita.
O pintor inventa paisagens tropicais (como Dourmier Rousseau fazia), que nunca vira, e as vende para as pessoas que não conhecem a natureza real, destruída pela cultura.

O conto se desenvolve em duas partes:
1)Uma situação inicial que trata do pintor e suas pinturas, com minúcias descritivas e alusivas à destruição da natureza (§ 1 – 47).
2) A história propriamente dita (§ 48-128).

Na primeira parte, a personagem principal é o Pintor, interagindo com “as pessoas” e oferecendo-lhes seus quadros-charadas, que elas compram, mas não tentam decifrar. Na segunda parte, afasta-se o Pintor (o criador) e permanece a “criatura” (o quadro). As pessoas são limitadas a uma família: os pais (que compram o quadro, mas não se interessam por ele); os filhos (que querem decifrá-lo com muito interesse em fazê-lo).

10 de junho de 2012

Lygia Fagundes Telles. conto "Antes do Baile Verde".


O rancho azul e branco desfilava com seus passistas vestidos à Luís XV e sua porta-estandarte de peruca prateada em forma de pirâmide, os cachos desabados na testa, a cauda do vestido de cetim arrastando-se enxovalhada pelo asfalto. O negro do bumbo fez uma profunda reverência diante das duas mulheres debruçadas na janela e prosseguiu com seu chapéu de três bicos, fazendo rodar a capa encharcada de suor.
-Ele gostou de você- disse a jovem voltando-se para a mulher que ainda aplaudia. -O cumprimento foi na sua direção, viu que chique?
A preta deu uma risadinha.
-Meu homem é mil vezes mais bonito, pelo menos na minha opinião. E já deve estar chegando, ficou de me pegar às dez na esquina. Se me atraso, ele começa a encher a caveira e pronto, não sai mais nada.
A jovem tomou-a pelo braço e arrastou-a até a mesa-de-cabeceira. O quarto estava resolvido como se um ladrão tivesse passado por ali e despejado caixas e gavetas.
- Estou atrasadíssima, Lu! Essa fantasia é fogo...Tenha paciência, mas você vai me ajudar um pouquinho.
- Mas você ainda não acabou?
Sentando-se na cama, a jovem abriu sobre os joelhos o saiote verde. Usava biquíni e meias rendadas também verdes.
- Acabei o quê, falta pregar tudo issi ainda, olha aí... Fui inventar um raio de pierrete dificílima!
A preta aproximou-se, alisando -se,com as mãos o quimono de seda brilhante. Espetado na carapinha trazia um crisântemo de papel-crepom vermelho. Sentou-se ao lado da moça.
O Raimundo já deve estar chegando, ele fica uma onça se me atraso. A gente vai ver os ranchos, hoje quero ver todos.
- Tem tempo, sossega - atalhou a jovem.Afastou os cabelos que lhe caíam nos olhos. Levantou o abajur que tombou na mesinha. - Não sei como fui me atrasar desse jeito.
- Mas não posso perder o desfile, viu, Tatisa? Tudo, menos perder o desfile!
- E quem está dizendo que você vai perder?
A mulher enfiou o dedo no pote de cola e baixou-o de leve nas lantejoulas do pires. Em seguida, levou o dedo até o saiote e ali deixou as lantejoulas formando uma constelação desordenada. Colheu uma lantejoula que escapara e delicadamente tocou com ela cola. Depositou-a no saiote, fixando-a com pequenos movimentos circulares.
- Mas tiver que pregar as lantejoulas em todo o saiote...
- Já começou a queixação? Achei que dava tempo e agora não posso largar a coisa pela metade, vê se entende! Você ajudando vai num instante, já me pintei, olha aí, que tal minha cara? Você nem disse nada, sua bruxa! Hein?... Que tal?
Ficou bonito, Tatisa. Com o cabelo assim verde você está parecendo uma alcachofra, tão gozado. Não gosto é desse verde na unha, fica esquisito.
Num movimento brusco, a jovem levantou a cabeça para respirar melhor. Passou o dorso da mão na face afogueada.

Comentário do conto "Antes do Baile Verde", de Lygia Fagundes Telles

Em “Antes do baile verde”, Lygia Fagundes Telles traça o perfil moral da ingratidão, do egoísmo e da mesquinharia humana. O narrador não é muito pródigo em informações, limitando-se ao estritamente essencial. Ao fim e ao cabo, a narrativa ocupa apenas o espaço temporal de um dia, e desenrola-se no interior de um apartamento, no qual três pessoas convivem: um idoso enfermo, sua filha (Tatisa) e uma criada (Lu). A filha – Tatisa – é uma mulher frívola, superficial e egoísta que só pensa em si mesma. Sem a mínima capacidade de assumir seus erros, ela transfere sua culpa, que se insinua e a incomoda, para outras pessoas ou circunstâncias, numa evidente inquietação para justificar seus atos não só para a criada como para si mesma.

“Aquele médico miserável. Tudo culpa daquela bicha. Eu bem disse que não podia ficar com ele aqui em casa, eu disse que não sei tratar de doente, não tenho jeito, não posso! Se você fosse boazinha, você me ajudava, mas você não passa de uma egoísta, uma chata que não quer saber de nada. Sua egoísta.”

Mesmo diante da cena em que vê uma lágrima descendo na face do moribundo Tatisa reluta em desistir de sair para o baile. Na verdade, Tatisa sente-se invadida por dois sentimentos antagônicos: a angústia causada pelo sentimento de culpa (relacionada ao seu descaso com o pai) e o receio (da reação que teria o namorado caso ela se atrasasse). Todavia, entre aban-donar o pai moribundo e aborrecer o namorado, a insensível filha não tem dúvidas em prefe-rir não provocar desentendimento com este a dar assistência ao pai.

O conto não tem um desfecho. Trata-se de uma narrativa aberta, ou seja, sem um desenlace criado pela autora que, como tal, permite ao leitor tornar-se um participante na criação lite-rária, elaborando o final de acordo com o seu próprio ponto de vista.



1 de maio de 2012

Dalton Trevisan Uma Vela para Dario


Dario vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que dobrou a esquina, dimi-nuiu o passo até parar, encostando-se à parede de uma casa. Por ela escorregando, sentou-se na calçada, ainda úmida de chuva, e descansou na pedra o cachimbo.
Dois ou três passantes rodearam-no e indagaram se não se sentia bem. Dario abriu a boca, moveu os lábios, não se ouviu resposta. O senhor gordo, de branco, sugeriu que devia sofrer de ataque.
Ele reclinou-se mais um pouco, estendido agora na calçada, e o cachimbo tinha apagado. O rapaz de bigode pediu aos outros que se afastassem e o deixassem respirar. Abriu-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe retiraram os sapatos, Dario roncou feio e bolhas de espuma surgiram no canto da boca.
Cada pessoa que chegava erguia-se na ponta dos pés, embora não o pudesse ver. Os morado-res da rua conversavam de uma porta à outra, as crianças foram despertadas e de pijama acu-diram à janela. O senhor gordo repetia que Dario sentara-se na calçada, soprando ainda a fu-maça do cachimbo e encostando o guarda-chuva na parede. Mas não se via guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.
A velhinha de cabeça grisalha gritou que ele estava morrendo. Um grupo o arrastou para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protestou o motorista: quem pagaria a corrida? Concordaram chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado á parede - não tinha os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.
Alguém informou da farmácia na outra rua. Não carregaram Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito pesado. Foi largado na porta de uma peixaria. En-xame de moscas lhe cobriu o rosto, sem que fizesse um gesto para espantá-las.
Ocupado o café próximo pelas pessoas que vieram apreciar o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozavam as delicias da noite. Dario ficou torto como o deixaram, no degrau da peixa-ria, sem o relógio de pulso.
Um terceiro sugeriu que lhe examinassem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficaram sabendo do nome, idade; sinal de nascença. O endereço na carteira era de outra cidade.
Registrou-se correria de mais de duzentos curiosos que, a essa hora, ocupavam toda a rua e as calçadas: era a polícia. O carro negro investiu a multidão. Várias pessoas tropeçaram no corpo de Dario, que foi pisoteado dezessete vezes.
O guarda aproximou-se do cadáver e não pôde identificá-lo — os bolsos vazios. Restava a ali-ança de ouro na mão esquerda, que ele próprio quando vivo - só podia destacar umedecida com sabonete. Ficou decidido que o caso era com o rabecão.
A última boca repetiu — Ele morreu, ele morreu. A gente começou a se dispersar. Dario levara duas horas para morrer, ninguém acreditou que estivesse no fim. Agora, aos que podiam vê-lo, tinha todo o ar de um defunto.
Um senhor piedoso despiu o paletó de Dario para lhe sustentar a cabeça. Cruzou as suas mãos no peito. Não pôde fechar os olhos nem a boca, onde a espuma tinha desaparecido. Apenas um homem morto e a multidão se espalhou, as mesas do café ficaram vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.
Um menino de cor e descalço veio com uma vela, que acendeu ao lado do cadáver. Parecia morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.
Fecharam-se uma a uma as janelas e, três horas depois, lá estava Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó, e o dedo sem a aliança. A vela tinha queimado até a metade e apagou-se às primeiras gotas da chuva, que voltava a cair.

Texto extraído do livro "Vinte Contos Menores",  Editora Record – Rio de Janeiro, 1979, pág. 20.


30 de abril de 2012

Comentário do conto "Uma Vela para Dario".

Uma vela para Dario”, de Dalton Trevisan – foi extraído do livro “Cemitério de Elefantes” (1964).

É a estória de Dario, um cidadão comum que passa mal na rua e agoniza. Vem por uma esquina e encosta-se numa parede. Alguns passantes perguntam se não está bem, mas Dario já não tem forças para responder. As pessoas que passam se acercam da cena e um senhor gordo repete que Dario caíra e deixara cair seu guarda chuva e seu cachimbo, que já não mais estão ali. Arrastam-no para um táxi, mas ninguém quer pagar a corrida. Cogita-se em chamar uma ambulância e Dario já não tem seus sapatos nem o alfinete de pérola na gravata. Dario continua à mercê daqueles que o cercam e alguém fala da farmácia, mas é no outro quarteirão e pelo seu peso, as pessoas desistem de levá-lo. É abandonado em frente a uma peixaria. Aparece mais um que se prontifica a ajudá-lo sugerindo que lhe examinem os papéis. Ele é revistado e ficam sabendo quem ele é, mas ninguém resolve nada. Chega a polícia e a cena é cercada de uma multidão de curiosos. Dario é pisoteado e o guarda não pode identificar o seu cadáver. Ainda lhe resta a aliança de ouro que Dario só conseguia tirar molhando com sabonete. Fecha-se a estória sem que a esperança de humanidade seja possível.
Claro que as pessoas se aproximam e tentam ajudá-lo, algumas levadas pela curiosidade mórbida, outras para roubar seus pertences e outras apenas porque apreciam o incidente – o autor mostra as várias tentativas que alguns fizeram de tomar alguma providência que de nada adiantaram, foram em vão, pois, na verdade, nenhum dentre os presentes chegou a assumir o problema. Houve apenas “pseudo-ajudas”, ajudas que não resolveriam o caso, ajudas paliativas, gestos infrutíferos, mínimos, quiçá para evitar eventuais culpas.
Esse é um dos contos mais famosos de Dalton Trevisan, e representa a degradação da morte em um ambiente urbano. A multidão assiste durante horas a sua agonia, movida pela curiosidade, sem um traço de piedade. É um anônimo, assim como a multidão que o cerca, sem esboçar o mínimo gesto de solidariedade, de compaixão ou respeito humano. Dario é completamente saqueado, desrespeitado e abandonado. Só o gesto do menino ameniza a miséria e a desumanidade do desfecho. “Um menino de cor e descalço vem com uma vela, que acende ao lado do cadáver” (...)
Uma vela para Dario é uma crônica que pode ser classificada como atemporal, cujo enredo imita o cotidiano, ao relatar um fato que possivelmente aconteceu e acontece nas grandes cidades brasileiras. Trevisan ilustra a sociedade atual que, na injunção de seus problemas sociais, econômicos e culturais, passa a tratar com “naturalidade” desconcertante acontecimentos que deveriam ser motivo de solidariedade por parte dos cidadãos civilizados. Ao se observar o texto, encontra-se, em cada momento da narrativa, a tônica da solidariedade. (ou da falta dela). Dario morre lentamente sem que ninguém faça nada para salvá-lo – é a realidade “nua e crua” das cidades, que vem comprovar as pseudo-ajudas dadas até então e ao se desfazer o conflito - Dario morre e fica sem os seus pertences – ratifica o sentido mais geral do texto que é a falta de solidariedade humana. Mas o autor, demonstrando que ainda acredita no próximo, insere no desfecho um personagem infantil que, numa leitura superficial, leva o leitor a pensar nas características da infância, como a inocência e a possível não contaminação de seus atos pela dureza de sentimentos demonstrada pelos outros personagens - as pessoas voltam a sua rotina, um menino de cor acende uma vela que se apaga com as primeiras gotas de chuva.


8 de abril de 2012

Eça de Queirós: No Moinho

D. Maria da Piedade era considerada em toda a vila como "uma senhora modelo". O velho Nunes, diretor do correio, sempre que se falava nela, dizia, acariciando com autoridade os quatro pêlos da calva:
— É uma santa! É o que ela é!
A vila tinha quase orgulho na sua beleza delicada e tocante; era uma loura, de perfil fino, a pele ebúrnea, e os olhos escuros de um tom de violeta, a que as pestanas longas escureciam mais o brilho sombrio e doce. Morava ao fim da estrada, numa casa azul de três sacadas; e era, para a gente que às tardes ia fazer o giro até ao moinho, um encanto sempre novo vê-la por trás da vidraça, entre as cortinas de cassa, curvada sobre a sua costura, vestida de preto, recolhida e séria. Poucas vezes saia. O marido, mais velho que ela, era um inválido, sempre de cama, inutilizado por uma doença de espinha; havia anos que não descia à rua; avistavam-no às vezes também à janela murcho e trôpego, agarrado à bengala, encolhido na robe-de-chambre, com uma face macilenta, a barba desleixada e com um barretinho de seda enterrado melancòlicamente até ao cachaço. Os filhos, duas rapariguitas e um rapaz, eram também doentes, crescendo pouco e com dificuldade, cheios de tumores nas orelhas, chorões e tristonhos. A casa, interiormente, parecia lúgubre. Andava-se nas pontas dos pés, porque o senhor, na excitação nervosa que lhe davam as insónias, irritava-se com o menor rumor; havia sobre as cómodas alguma garrafa da botica, alguma malga com papas de linhaça; as mesmas flores com que ela, no seu arranjo e no seu gosto de frescura, ornava as mesas, depressa murchavam naquela ar abafado de febre, nunca renovado por causa das correntes de ar; e era uma tristeza ver sempre algum dos pequenos ou de emplastro sobre a orelha, ou a um canto do canapé, embrulhado em cobertores com uma amarelidão de hospital.
Maria da Piedade vivia assim, desde os vinte anos. Mesmo em solteira em casa dos pais, a sua existência fora triste. A mãe era uma criatura desagradável e azeda; o pai, que se empenha pelas tavernas e pelas batotas, já velho, sempre bêbedo, os dias
que aparecia em casa passava-os à lareira, num silêncio sombrio, cachimbando e escarrando para as cinzas. Todas as semanas desancava a mulher. E quando João Coutinho pediu Maria em casamento, apesar de doente já, ela aceitou, sem hesitação, quase com reconhecimento, para salvar o casebre da penhora, não ouvir mais os gritos da mãe, que a faziam tremer, rezar, em cima no seu quarto, onde a chuva entrava pelo telhado. Não amava o marido, decerto; e mesmo na vila tinha-se lamentado que aquele lindo rosto de Virgem Maria, aquela figura de fada, fosse pertencer ao Joãozinho Coutinho, que desde rapaz fora sempre entrevado. O Coutinho, por morte do pai, ficara rico; e ela, acostumada por fim àquele marido rabugento, que passava o dia arrastando-se sombriamente da sala para a alcova, ter-se-ia resignado, na sua natureza de enfermeira e de consoladora, se os filhos ao menos tivessem nascido sãos e robustos. Mas aquela família que vinha com o sangue viciado, aquelas existências
hesitantes, que depois pareciam apodrecer-lhe nas mãos, apesar dos seus cuidados inquietos, acabrunhavam-na. Às vezes só, picando a sua costura, corriam-lhe as lágrimas pela face: uma fadiga da vida invadia-a, como uma névoa que lhe escurecia a alma.

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Comentário do conto "O Moinho", de Eça de Queirós.


Vale observar como o último parágrafo do conto expressa o repúdio de Eça de Queirós ao Romantismo e ao adultério da mulher, manifestados na pontuação, pelo excesso de vírgulas, frases e períodos curtos e adjetivação pesada. Esse conjunto de elementos expressivos dá conta do aceleramento do discurso. As palavras e frases parecem sair de supetão do fundo da cólera e da execração do narrador em relação à Maria da Piedade após a sua degradação:

“A Santa tornava-se Vênus.
E o romanticismo mórbido tinha penetrado naquele ser, e desmoralizara-o tão profundamente, que chegou ao momento em que bastaria que um homem lhe tocasse, para ela lhe cair nos braços: - e foi o que sucedeu enfim, com o primeiro que a namorou, daí a dois anos. Era o praticante da botica. “No fim, Maria da Piedade acaba por se tornar uma mulher adúltera, com um “praticante da botica”, deixando de cuidar da casa, do marido nem dos filhos. “Por causa dele escandalizou toda a vila. E agora, deixa a casa numa desordem, os filhos sujos e ramelosos, em farrapos, sem comer até altas horas, o marido a gemer abandonado na sua alcova, toda a trapagem dos emplastros por cima das cadeiras, tudo num desamparo torpe - para andar atrás do homem, um maganão odioso e sebento, de cara balofa e gordalhufa, luneta preta com grossa fita passada atrás da orelha e bonezinho de seda posto à catita. Vem de noite às entrevistas de chinelo de ourelo: cheira a suor: e pede-lhe dinheiro emprestado para sustentar uma Joana, criatura obesa, a quem chamam na vila a bola de unto.”

O narrador preocupa-se em ressaltar, no início do conto as qualidades e virtudes de Maria da Piedade, através da opinião pública a respeito da personagem principal“... era considerada em toda a vila como "uma senhora modelo" [...] “para todos na vila ela era uma santa, uma mulher virtuosa e perfeita. [...] “algumas senhoras da vila afirmavam que ela era beata.” [...]O farmacêutico afirmava: — É uma santa! É o que ela é!

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9 de fevereiro de 2012

Clarice Lispector. Feliz Aniversário

A família foi pouco a pouco chegando. Os que vieram de Olaria estavam muito bem vestidos porque a visita significava ao mesmo tempo um passeio a Copacabana. A nora de Olaria apareceu de azul-marinho, com enfeite de paetês e um drapeado disfarçando a barriga sem cinta. O marido não veio por razões óbvias: não queria ver os irmãos. Mas mandara sua mulher para que nem todos os laços fossem cortados — e esta vinha com o seu melhor vestido para mostrar que não precisava de nenhum deles, acompanhada dos três filhos: duas meninas já de peito nascendo, infantilizadas em babados cor-de-rosa e anáguas engomadas, e o menino acovardado pelo terno novo e pela gravata.Tendo Zilda — a filha com quem a aniversariante morava — disposto cadeiras unidas ao longo das paredes, como numa festa em que se vai dançar, a nora de Olaria, depois de cumprimentar com cara fechada aos de casa, aboletou-se numa das cadeiras e emudeceu, a boca em bico, mantendo sua posição de ultrajada. “Vim para não deixar de vir”, dissera ela a Zilda, e em seguida sentara-se ofendida. As duas mocinhas de cor-de-rosa e o menino, amarelos e de cabelo penteado, não sabiam bem que atitude tomar e ficaram de pé ao lado da mãe, impressionados com seu vestido azul-marinho e com os paetês.
Depois veio a nora de Ipanema com dois netos e a babá. O marido viria depois. E como Zilda — a única mulher entre os seis irmãos homens e a única que, estava decidido já havia anos, tinha espaço e tempo para alojar a aniversariante — e como Zilda estava na cozinha a ultimar com a empregada os croquetes e sanduíches, ficaram: a nora de Olaria empertigada com seus filhos de coração inquieto ao lado; a nora de Ipanema na fila oposta das cadeiras fingindo ocupar-se com o bebê para não encarar a concunhada de Olaria; a babá ociosa e uniformizada, com a boca aberta.
E à cabeceira da mesa grande a aniversariante que fazia hoje oitenta e nove anos.
Zilda, a dona da casa, arrumara a mesa cedo, enchera-a de guardanapos de papel colorido e copos de papelão alusivos à data, espalhara balões sungados pelo teto em alguns dos quais estava escrito “Happy Birthday!”, em outros “Feliz Aniversário!” No centro havia disposto o enorme bolo açucarado. Para adiantar o expediente, enfeitara a mesa logo depois do almoço, encostara as cadeiras à parede, mandara os meninos brincar no vizinho para não desarrumar a mesa.
E, para adiantar o expediente, vestira a aniversariante logo depois do almoço. Pusera-lhe desde então a presilha em torno do pescoço e o broche, borrifara-lhe um pouco de água-de-colônia para disfarçar aquele seu cheiro de guardado — sentara-a à mesa. E desde as duas horas a aniversariante estava sentada à cabeceira da longa mesa vazia, tesa na sala silenciosa.
De vez em quando consciente dos guardanapos coloridos. Olhando curiosa um ou outro balão estremecer aos carros que passavam. E de vez em quando aquela angústia muda: quando acompanhava, fascinada e impotente, o vôo da mosca em torno do bolo.
Até que às quatro horas entrara a nora de Olaria e depois a de Ipanema.
Quando a nora de Ipanema pensou que não suportaria nem um segundo mais a situação de estar sentada defronte da concunhada de Olaria — que cheia das ofensas passadas não via um motivo para desfitar desafiadora a nora de Ipanema — entraram enfim José e a família. E mal eles se beijavam, a sala começou a ficar cheia de gente que ruidosa se cumprimentava como se todos tivessem esperado embaixo o momento de, em afobação de atraso, subir os três lances de escada, falando, arrastando crianças surpreendidas, enchendo a sala — e inaugurando a festa.
Os músculos do rosto da aniversariante não a interpretavam mais, de modo que ninguém podia saber se ela estava alegre. Estava era posta á cabeceira. Tratava-se de uma velha grande, magra, imponente e morena. Parecia oca.
— Oitenta e nove anos, sim senhor! disse José, filho mais velho agora que Jonga tinha morrido. — Oitenta e nove anos, sim senhora! disse esfregando as mãos em admiração pública e como sinal imperceptível para todos.
Todos se interromperam atentos e olharam a aniversariante de um modo mais oficial. Alguns abanaram a cabeça em admiração como a um recorde. Cada ano vencido pela aniversariante era uma vaga etapa da família toda. Sim senhor! disseram alguns sorrindo timidamente.
— Oitenta e nove anos!, ecoou Manoel que era sócio de José. É um brotinho!, disse espirituoso e nervoso, e todos riram, menos sua esposa.
A velha não se manifestava.

Comentário do conto Feliz Aniversário, de C. Lispector


Feliz aniversário, conto de Clarice Lispector está incluído em na obra Laços de família, de 1960. Um dos mais brutais e perturbadores relatos escritos pela autora.
Clarice Lispector tem a maestria de revelar as transformações dos sujeitos de modo profundo, denso, transcendente, epifânico. Suas obras colocam à mostra os grandes conflitos do ser humano, explorando com muita sutileza as regiões mais profundas e inexprimíveis da alma, aliando razão e sensibilidade por meio de uma linguagem extremamente poética.
Em Feliz aniversário, a infelicidade é a matéria secreta que perturba e lateja na felicidade de uma festinha de aniversário de D. Anita, uma senhora que completa oitenta e nove anos, e seus familiares reúnem-se para comemorar a data. Zilda, a filha com quem a aniversariante mora, organiza a casa para receber a família, prepara tudo com antecedência para que nenhum imprevisto aconteça. Pouco a pouco os convidados vão chegando; os filhos, as noras, os netos, quase todos ali fingem comemorar o aniversário. A família, vinda do subúrbio, mas também de Ipanema, chega aos poucos a Copacabana para a festa de D. Anita, a quase nonagenária. Cadeiras dispostas ao longo das paredes, uma mesa típica de festa de família, guardanapos coloridos, balões, groselhas e alusões ao "Happy Birthday".
Logo depois do almoço, a aniversariante é encarcerada em seu vestido de festa, com presilha, broche e um odor forte de água de colônia.
A filha Zilda é um personagem manipulado pelo dever de realizar uma festa de aniversário para sua mãe, que completa oitenta e nove anos, arruma a casa, ocupa-se com os preparativos e convida os familiares para a comemoração. Nota-se que, no nível do parecer, a comemoração simula-se prazerosa, mas a manipulação de Zilda não se dá pelo querer-fazer, ou seja, realizar a festa de aniversário da mãe, mas sim pelo dever-fazer. Assim, no nível do ser, ao focalizar o ponto de vista de Zilda, o narrador revela-nos o quanto ela se sente revoltada por ter de arcar com essa tarefa solitariamente:
No lugar de uma comemoração prazerosa, nota-se que não só Zilda, mas todos os parentes, os familiares estão apenas cumprindo tarefas (todos também manipulados pelo dever). Um outro exemplo é a “nora de Olaria” que cumprimenta com cara fechada os da casa.
O papel que Zilda sente-se no dever de realizar é manter, no nível do parecer, a impressão de que estão vivos os laços de família, e a festa de aniversário é a figura do texto que manifesta essa confraternização, que, no nível do ser, se configura como mentirosa – “parece, mas não é”. Assim, a festa, que deveria ser um momento de união e confraternização, não acontece como confraternização, mas como uma comemoração convencional. Nesse sentido, o enunciador parece levar-nos a uma sanção negativa frente à forma de agir da família, e a aniversariante, lúcida e nada ingênua, decepciona-se com os familiares, consegue perceber o papel que cada um está representando, percebe o jogo entre os dois níveis da modalização veridictória; a do parecer, em que há um falso envolvimento dos convidados para a comemoração, e do ser, em que todos estão cumprindo tarefas, não sendo possível, assim, um verdadeiro envolvimento emocional entre eles.
Em contraste com todas as manifestações de carinho, admiração, afeto que recebe, a velha se conserva em silêncio. Silêncio enigmático e ameaçador. A barulheira de filhos e netos não a perturba. Vista de fora, é só uma velha feliz, que se aproxima dos noventa, ainda inteira, cercada dos descendentes queridos que celebram sua longevidade, protegida entre os seus.

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No fundo, a velha despreza os seres opacos, azedos, infelizes que gerou. Sujeitos treinados só para macaquear a felicidade, enquanto sofrem por dentro sem nem mesmo perceber que sofrem. Seres que não suportam o pensamento, que lidam mal com os sentimentos e para quem a vida nada mais é que a sustentação de um script.
O narrador nos põe em contato constantemente com o estado de decepção e de angústia de D. Anita, cujo papel actancial é o de personagem sancionador da família, o que se figurativiza no texto por meio de seu monólogo interior, em que se revela o julgamento negativo que imprime à família durante a festa.
“A velha não se manifestava.” (C.L., 1998, p.57),
“ E de súbito a velha pegou na faca. E sem hesitação, como se hesitando um momento ela toda caísse para a frente, deu a primeira talhada com punho de assassina.” (C.L., 1998, p.59),
“Todos aqueles seus filhos e netos e bisnetos que não passavam de carne de seu joelho, pensou de repente como se cuspisse.”(C.L., 1998, p.60).
“ Olhou-os com sua cólera de velha. Pareciam ratos se acotovelando, a sua família. Incoercível, virou a cabeça e com força insuspeita cuspiu no chão”. (C.L., 1998, p.60-61).
O ato de “cuspir no chão, é a figura que manifesta, no nível discursivo, o fato de os laços de família não se sustentarem mais, extremamente fragilizados no momento em que se encontram . Com essa atitude, por outro lado, a velha senhora provoca a raiva da filha Zilda, que teme a sanção negativa dos irmãos.
“- Mamãe! Gritou mortificada a dona da casa...., sabia que os desgraçados se entreolhavam vitoriosos como se coubesse a ela dar educação à velha, e não faltaria muito para dizerem que ela já não dava mais banho na mãe, jamais compreenderiam o sacrifício que ela fazia.” (C.L., 1998, p. 61).
A família mostra-se perdida diante da polêmica da ruptura que a velha senhora empreende, pois , com sua cólera, faz cair as máscaras da falsidade que adornam o rosto de seus componentes.
O narrador demonstra, por meio da figura “peso”, que todos ali estavam também ansiosos para irem embora.
As reações violentas da velha interrompem antecipadamente a festa. O ritual ainda se estende um pouco mais, os atores insistem e se esforçam para se ater ao script dos aniversários e sustentar uma felicidade que já foi escandalosamente denunciada. Felicidade que, como um bolo mal batido, desandou. Os filhos, que quase nunca se vêem ou se falam, apressam-se nas despedidas. Um deles presenteia a velha com um doloroso e irônico "até o ano que vem".
Cantam os parabéns, “festejam”, logo em seguida se despedem e vão embora.
Percebe-se, então, que a festa de aniversário se processa apenas no nível do parecer. O título do conto Feliz aniversário sugere a leitura irônica dos “laços de família” que, na visão do enunciador, se tornam fragilizados, pois a confraternização familiar não acontece verdadeiramente.
A velha senhora de Clarice Lispector, desperta a simpatia pela coragem e pelo olhar crítico que despeja sobre os sentimentos burocráticos de sua família, e ainda pelo modo como se contém até que, não cabendo mais em si, transforma todas as palavras que lhe entravam na mente numa grosseira cusparada, despertando, também por isso, e pelos sentimentos duros, e pela sua burocracia interior (ao fim do relato, tudo o que se pergunta é se haverá jantar...), a repulsa. Ou, pelo menos, provoca no leitor uma série de sentimentos ambíguos e incompatíveis entre si.
A riqueza do conto está justamente aí: ele não só não oferece, mas também não permite qualquer tipo de solução. Em vez de fechar o caminho do leitor, com uma moral, uma lição, uma teoria, uma tese, ele o rasga, o amplia, o liberta. História breve e de aparência simples, ela conduz a sentimentos paradoxais que, ao fim, só resta suportar.
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Fontes: Luciana Sciarretta, Universidade de Ribeirão Preto – UNAERP | Revista Idiossincrasia)

5 de fevereiro de 2012

Moacyr Scliar. No retiro da figueira.


Sempre achei que era bom demais. O lugar, principalmente. O lugar era... era maravilhoso. Bem como dizia o prospecto: maravilhoso. Arborizado, tranqüilo, um dos últimos locais – dizia o anúncio – onde você pode ouvir um bem-te-vi cantar. Verdade: na primeira vez que fomos lá ouvimos o bem-te-vi. E também constatamos que as casas eram sólidas e bonitas, exatamente como o prospecto as descrevia: estilo moderno, sólidas e bonitas. Vimos os gramados, os parques, os pôneis, o pequeno lago. Vimos o campo de aviação. Vimos a majestosa figueira que dava nome ao condomínio: Retiro da Figueira.
Mas o que mais agradou à minha mulher foi a segurança. Durante todo o trajeto de volta à cidade – e eram uns bons cinqüenta minutos – ela falou, entusiasmada, da cerca eletrificada, das torres de vigia, dos holofotes, do sistema de alarmes – e sobretudo dos guardas. Oito guardas, homens fortes, decididos – mas amáveis, educados. Aliás, quem nos recebeu naquela visita, e na seguinte, foi o chefe deles, um senhor tão inteligente e culto que logo pensei: “ah, mas ele deve ser formado em alguma universidade”. De fato: no decorrer da conversa ele mencionou – mas de maneira casual – que era formado em Direito. O que só fez aumentar o entusiasmo de minha mulher.
Ela andava muito assustada ultimamente. Os assaltos violentos se sucediam na vizinhança; trancas e porteiros eletrônicos já não detinham os criminosos. Todos os dias sabíamos de alguém roubado e espancado; e quando uma amiga nossa foi violentada por dois marginais, minha mulher decidiu – tínhamos de mudar de bairro. Tínhamos de procurar um lugar seguro.
Foi então que enfiaram o prospecto colorido sob nossa porta. Às vezes penso que se morássemos num edifício mais seguro o portador daquela mensagem publicitária nunca teria chegado a nós, e, talvez... Mas isto agora são apenas suposições. De qualquer modo, minha mulher ficou encantada com o Retiro da Figueira. Meus filhos estavam vidrados nos pôneis. E eu acabava de ser promovido na firma. As coisas todas se encadearam, e o que começou com um prospecto sendo enfiado sob a porta transformou-se – como dizia o texto – num novo estilo de vida.
Não fomos os primeiros a comprar casa no Retiro da Figueira. Pelo contrário; entre nossa primeira visita e a segunda – uma semana após – a maior parte das trinta residências já tinha sido vendida. O chefe dos guardas me apresentou a alguns dos compradores. Gostei deles: gente como eu, diretores de empresa, profissionais liberais, dois fazendeiros. Todos tinham vindo pelo prospecto. E quase todos tinham se decidido pelo lugar por causa da segurança.

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Naquela semana descobri que o prospecto tinha sido enviado apenas a uma quantidade limitada de pessoas. Na minha firma, por exemplo, só eu o tinha recebido. Minha mulher atribuiu o fato a uma seleção cuidadosa de futuros moradores – e viu nisso mais um motivo de satisfação. Quanto a mim, estava achando tudo muito bom. Bom demais.
Mudamo-nos. A vida lá era realmente um encanto. Os bem-te-vis eram pontuais: às sete da manhã começavam seu afinado concerto. Os pôneis eram mansos, as aléias ensaibradas estavam sempre limpas. A brisa agitava as árvores do parque – cento e doze, bem como dizia o prospecto. Por outro lado, o sistema de alarmes era impecável. Os guardas compareciam periodicamente à nossa casa para ver se estava tudo bem – sempre gentis, sempre sorridentes. O chefe deles era uma pessoa particularmente interessada: organizava festas e torneios, preocupava-se com nosso bem-estar. Fez uma lista dos parentes e amigos dos moradores – para qualquer emergência, explicou, com um sorriso tranqüilizador. O primeiro mês decorreu – tal como prometido no prospecto – num clima de sonho. De sonho, mesmo.
Uma manhã de domingo, muito cedo – lembro-me que os bem-te-vis ainda não tinham começado a cantar – soou a sirene de alarme. Nunca tinha tocado antes, de modo que ficamos um pouco assustados – um pouco, não muito. Mas sabíamos o que fazer: nos dirigimos, em ordem, ao salão de festas, perto do lago. Quase todos ainda de roupão ou pijama.
O chefe dos guardas estava lá, ladeado por seus homens, todos armados de fuzis. Fez-nos sentar, ofereceu café. Depois, sempre pedindo desculpas pelo transtorno, explicou o motivo da reunião: é que havia marginais nos matos ao redor do Retiro e ele, avisado pela polícia, decidira pedir que não saíssemos naquele domingo. – Afinal – disse, em tom de gracejo – está um belo domingo, os pôneis estão aí mesmo, as quadras de tênis...
Era mesmo um homem muito simpático. Ninguém chegou a ficar verdadeiramente contrariado. Contrariados ficaram alguns no dia seguinte, quando a sirene tornou a soar de madrugada. Reunimo-nos de novo no salão de festas, uns resmungando que era segunda-feira, dia de trabalho. Sempre sorrindo, o chefe dos guardas pediu desculpas novamente e disse que infelizmente não poderíamos sair – os marginais continuavam nos matos, soltos. Gente perigosa; entre eles, dois assassinos foragidos. À pergunta de um irado cirurgião o chefe dos guardas respondeu que, mesmo de carro, não poderíamos sair; os bandidos poderiam bloquear a estreita estrada do Retiro.
– E vocês, por que não nos acompanham? – perguntou o cirurgião
– E quem vai cuidar da família de vocês? – disse o chefe dos guardas, sempre sorrindo.
Ficamos retidos naquele dia e no seguinte. Foi aí que a polícia cercou o local: dezenas de viaturas com homens armados, alguns com máscaras contra gases. De nossas janelas nós os víamos e reconhecíamos: o chefe dos guardas estava com a razão.
Passávamos o tempo jogando cartas, passeando ou simplesmente não fazendo nada. Alguns estavam até gostando. Eu não. Pode parecer presunção dizer isto agora, mas eu não estava gostando nada daquilo.
Foi no quarto dia que o avião desceu no campo de pouso. Um jatinho. Corremos para lá. Um homem desceu e entregou uma maleta ao chefe dos guardas. Depois olhou para nós – amedrontado, pareceu-me – e saiu pelo portão da entrada, quase correndo.
O chefe dos guardas fez sinal para que não nos aproximássemos. Entrou no avião. Deixou a porta aberta, e assim pudemos ver que examinava o conteúdo da maleta. Fechou-a, chegou à porta e fez um sinal. Os guardas vieram correndo, entraram todos no jatinho. A porta se fechou, o avião decolou e sumiu. Nunca mais vimos o chefe e seus homens. Mas estou certo que estão gozando o dinheiro pago por nosso resgate. Uma quantia suficiente para construir dez condomínios iguais ao nosso – que eu, diga-se de passagem, sempre achei que era bom demais.


20 de janeiro de 2012

Comentário do conto No Retiro da Figueira, de Moacyr Scliar

No Retiro da Figueira, de Moacyr Scliar, temos um narrador-personagem que narra a malfadada experiência da sua família e de outras famílias que acalentaram o sonho de residirem em um condomínio fechado que tem o mesmo nome do título ao conto.
O medo da violência e a conseqüente insegurança das famílias que vivem nos grandes centros urbanos, encontram a solução na possibilidade de mudarem-se para um condomínio seguro, anunciado através de um prospecto publicitário. Tal prospecto, eivado de sedutoras descrições do espaço atiçou as expectativas de vida tranqüila: imagens de casas sólidas e bonitas, gramados, parques, pôneis, lago, campo de aviação, árvores, pássaros e um sistema de segurança desenvolvido com alta tecnologia. Um verdadeiro paraíso.
Vale salientar que este prospecto é de suma importância, na medida em que foi através dele que as pessoas tomaram conhecimento da existência do Retiro da Figueira e se interessam em ir até o seu endereço para conhecerem as instalações, com vistas a adquirirem, imediatamente, uma residência, pois em poucos dias todas as unidades estariam vendidas. Na chegada ao local, os candidatos a compradores e, em seguida, moradores do imóvel, comprovavam a fidelidade das imagens do prospecto, além de constatarem a gentileza e a solicitude dos guardas.
Instalaram-se na nova residência e, ao longo de mais de um mês, fruíram as maravilhas anunciadas no prospecto. Tudo estava sendo como o prometido. Todavia, a partir deste período de vida paradisíaca, começam as vicissitudes dos moradores do condomínio. A primeira decepção veio com a sirene de alarme disparando a tocar e os condôminos sendo mandados para o salão de festas, destinado para a concentração de todos em caso de emergência, onde durante quatro dias, ficaram confinados.
Ao cabo dos quatro dias, um avião pousou no campo de aviação e dele desceu um homem com uma maleta que entrega aos guardas. Em seguida, eles partem junto com o avião e com o dinheiro pago pelo resgate dos moradores seqüestrados do Retiro da Figueira. Assim, de felizes habitantes de um paraíso, todos passam, arbitrariamente, à condição de vítimas de uma armadilha e reféns, confirmando a desconfiança inicial do narrador. Assim, o que parecia a solução dos problemas vai se tornando o problema maior.
Os indícios que alimentariam, no desfecho, o grande acontecimento insólito gradativamente vão se manifestando: os prospectos foram enviados a pessoas selecionadas, as pessoas eram sempre sorridentes e prestativas. Até que no fim da narrativa as famílias não saem do condomínio, por ordens de segurança. Só então, eles descobrem que caíram numa armadilha, foram seqüestrados e estão presos no Retiro da Figueira que, por ironia da sorte, proporcionou a todos exatamente o que tanto temiam no grande centro urbano em que viviam.
“Nunca mais vimos o chefe e seus homens. Mas estou certo que estão gozando o dinheiro pago pelo nosso resgate. Uma quantia suficiente para construir dez condomínios iguais aos nosso – que eu, diga-se de passagem, sempre achei que era bom demais.

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Zenóbia Collares Moreira Cunha

6 de janeiro de 2012

Clarice Lispector: A Bela e a Fera ou A Ferida Grande Demais.

Bem, então saiu do salão de beleza pelo elevador do Copacabana Palace Hotel. O chofer ñ estava lá. Olhou o relógio: eram quatro horas da tarde. E de repente lembrou-se: tinha dito a ‘seu’ José para vir buscá-la às cinco, ñ calculando que não faria as unhas dos pés e das mãos, só massagem. Que devia fazer ? Tomar um táxi? Mas tinha consigo uma nota de quinhentos cruzeiros e o homem do táxi não teria troco. Trouxera dinheiro porque o marido lhe dissera q nunca se deve andar sem nenhum dinheiro. Ocorreu-lhe voltar ao salão de beleza e pedir dinheiro. Mas – mas era uma tarde de maio e o ar fresco era uma flor aberta com o seu perfume. Assim achou que era maravilhoso e inusitado ficar de pé na rua – ao vento que mexia com os seus cabelos. Não se lembrava quando fora a última vez que estava sozinha consigo mesma. Talvez nunca. Sempre era ela – com outros, e nesses outros ela se refletia e os outros se refletiam nela. Nada era – era puro, pensou sem se entender.
Quando se viu no espelho – a pele trigueira pelos banhos de sol fazia ressaltar as flores douradas perto do rosto nos cabelos negros -, conteve-se para ñ exclamar um ‘ah!’ – pois ela era cinquenta milhões de unidades de gente linda. Nunca houve – em todo o passado do mundo – alguém q fosse como ela. E depois, em três trilhões de trilhões de ano – ñ haveria uma moça exatamente como ela.
‘Eu sou uma chama acesa! E rebrilho e rebrilho toda essa escuridão!’
Este momento era único – e ela teria durante toda a vida milhares de momentos únicos. Até suou frio na testa, por tanto lhe ser dado e por ela avidamente tomado.
‘A beleza pode levar à espécie de loucura q é a paixão.’ Pensou: ‘estou casada, tenho três filhos, estou segura.’
Ela tinha um nome a preservar: era Carla de Sousa e Santos. Eram importantes o ‘de’ e o ‘e’: marcavam classe e quatrocentos anos de carioca. Vivia nas manadas de mulheres e homens q, sim, q ‘podiam’. Podiam o q? Ora, simplesmente podiam. E ainda por cima, viscosos pois q o ‘podia’ deles era bem oleado nas máquinas q corriam sem barulho de metal ferrugento. Ela, q era uma potência. Uma geração de energia elétrica. Ela, q para descansar usava os vinhedos do seu sítio. Possuía tradições podres, mas de pé. E como ñ havia nenhum novo critério para sustentar as vagas e grandes esperanças, a pesada tradição ainda vigorava. Tradição de quê? De nada, se se quisesse apurar. Tinha a seu favor apenas o fato de q os habitantes tinham uma longa linhagem atrás de si, o q, apesar de plebéia, bastava para lhes dar uma certa pose de dignidade.

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Comentário do conto A Bela e a Fera ou A Ferida Grande Demais.


O conto de Clarice trata da descoberta da pobreza por essa mulher confinada e protegida por um bom negócio matrimonial, mas reduzida a mecânicos atos quotidianos de auto-anulação, infeliz e culpada. A descoberta da pobreza dá-se junto com a autodescoberta como consumidora e parasita social, o que, de modo fulminante, desvenda o sem sentido da sua vida e da vida dos homens numa cidade grande que expõe talvez mais duramente os contrastes de uma sociedade injusta. O conto em que isso está mais visível é um conto inacabado mas que, independente da forma final que iriam ter seus fragmentos, já como Clarice o deixou, revela talvez por isso mesmo, porque ainda não arranjado em obra, essa vertente temática que, a partir daí , podemos reconhecer, meio disfarçada, em outros momentos dos contos e, mesmo, dos romances. Trata-se do conto póstumo A Bela e a Fera.
A bela, Carla de Souza e Santos, "quatrocentos anos de carioca", sai do espaço defendido do cabeleireiro chic do Copacabana Palace Hotel aonde fora protegida em seu carro oleado, que corria "sem barulho de metal ferrugento", conduzido por chofer particular. Com ele deveria voltar diretamente à casa para, depois, dirigir-se a outro espaço defendido - o de uma festa grã-fina. O conto, narrado por fragmentos aparentemente desconexos, nos deixa entrever que, na vida da jovem senhora que o casamento fizera mudar de classe, a cidade do Rio de Janeiro é outra. É uma espécie de cidade-fortaleza onde habitam os viçosos, os que podem tudo, até mesmo viver uma vida inteira sem dar-se conta da existência da cidade real, em que trabalhadores convivem lado a lado com marginais e mendigos.
Assim seria a vida de Carla, se não tivesse havido um imprevisto: o desencontro com o chofer, por ela ter saído do salão de beleza antes da hora combinada, agravado pelo fato de não contar com dinheiro trocado para o táxi. Essas são, aliás, as razões pretensamente objetivas que Carla se dá para subitamente sair porta afora da sua cidade defendida e descobrir a outra, a que começa na avenida Copacabana, onde há "pessoas de toda espécie". Mas o texto sugere também que essa saída é uma espécie de busca, de reencontro consigo mesma pelo encontro do outro de classe. Podendo "voltar ao salão de beleza e pedir dinheiro", desiste, porque a tentação da rua foi mais forte: "era uma tarde de maio e o ar fresco era uma flor aberta com o seu perfume. Assim achou que era maravilhoso e inusitado ficar de pé na rua - ao vento que mexia com os seus cabelos. Não se lembrava quando fora a última vez que estivera sozinha consigo mesma. Talvez nunca. Sempre era ela - com outros - refletia e os outros refletiam-se nela. Nada era... era puro, pensou sem se entender". Quando Carla sai à rua, o olhar míope da mulher confinada de que nos falava Gilda de Mello e Souza quando da publicação de A maçã no escuro, descortina visões e pensamentos inusitados, fazendo-nos enxergar e ouvir o mundo que berra pela boca desdentada de um mendigo, como berrava pela boca do cego mascando chiclete, em Amor.
A visão do mendigo que vive de uma ferida na perna confronta Carla consigo mesma e com a sua própria ferida na alma: a alienação da mulher que se vendeu: Agora entendia que se casara da primeira vez e estava em leilão: quem dá mais? quem dá mais? (...). Então está vendida. Sim, casara-se pela primeira vez com o homem que "dava mais". (...) Vendera-se. E o segundo marido? Seu casamento (está) findando, ele com duas amantes fora a mulher e a mulher suportava tudo porque um rompimento seria um escândalo: seu nome era por demais citado nas colunas sociais. (...) Aliás, ela aceitara este segundo porque lhe dava grande prestígio. Vendera-se às colunas sociais? Sim. Descobrira isso agora. Descobrir isso é descobrir também que não se é uma self-made woman pelo simples fato de estar casada com um self-made man.
O casamento por dinheiro apagara tudo isso, mas apagara também uma parte dela mesma que o encontro com o mendigo na Avenida Copacabana ameaça trazer de volta com força e perigosamente. A alienação da mulher rica se expressa na festa permanente, sem nem ter o que festejar. E, na festa, os homens falam de negócios e as mulheres exibem a beleza fabricada a peso de ouro nos salões da Avenida Atlântica. Essa alienação é simétrica à do mendigo, expressa na cachaça que o ajuda a suportar a quotidiana exibição da sua mercadoria: a ferida na perna de que sobrevive. Festa e cachaça, obsessões respectivas em que um e outro costumam afogar uma falta comum - a falta de amor - e a pré-ciência de um destinno, apesar de tudo também comum: o da morte certa. Tudo isso é explicitado por este conto ainda de discurso transparente, talvez porque inacabado, anterior ao trabalho de polimento e de despojamento, das máscaras e dos mistérios de Clarice em suas versões finais.
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Resumo da análise do conto, realizada por Ligia Chiappini, no estudo intitulado: “Mulheres. Galinhas e Mendigos: Clarice Lispector, contos em confronto.”