29 de novembro de 2010

Comentário do conto A Galinha, de V. Ferreira


O que lemos no conto de Virgílio Ferreira é uma história que, apesar de instaurar um clima de tragédia, é narrada de forma engraçada e perpassada de ironia. A trama narrativa acontece em uma pequena aldeia que serve de cenário para uma ensandecida querela entre duas mulheres, causada pela simples aquisição de uma inofensiva galinha de barro numa feira. Todavia as conseqüências da acalorada discussão rica em troca de desaforos e de acusações, absurdamente, assumirão proporções alarmantes, descontroladas e trágicas.
A narrativa vergiliana se afirma como uma crítica mordaz à sociedade, veiculada por uma história de cunho moralizante, que se desenvolve como uma alegoria do comportamento humano. Uma insignificante galinha exemplifica o quanto um motivo sem importância, fútil e sem gravidade pode fazer vir à tona todo os ódios, rancores, desejos de revanchismos e de ajustes de contas, além de outros sentimentos mesquinhos como a avareza, a inveja e a cobiça, adormecidos nos habitantes de pequenas comunidades, prontos para explodir.
Apesar da tragicidade macabra da história, na qual muitos são mortos e outros tantos são feridos, o espírito cômico e a sutileza irônica vergilianos permeiam toda a narrativa. 
A “Tia”, invejosa, mesquinha e desaforada, funciona como agente desencadeador da polêmica e da escandalosa confusão que leva a aldeia a uma situação caótica, derivada do escândalo promovido pela “Tia”, em torna das duas galinhas. O conflito, iniciado pelas quatro personagens diretamente envolvidas na querela (o pai, a mãe, o tio e a tia do narrador-personagem), logo se estendem aos demais habitantes da aldeia, na medida em que provocam o ressurgimento de antigas animosidades, ódios, invejas que passam a comandar as cobranças e os ajustes de contas reprimidos e adiados por cada um. É inevitável o efeito dominó de cada batalha sangrenta que se repete, dizimando os habitantes do lugar.
O veio cômico e a sutil dose de humor negro, típico do estilo vergiliano, dão um toque de leveza à tragicidade que invade a aldeia, tornada o palco da explosiva violência, causadora das brigas e das mortes resultantes do tal ajuste de contas, narrado de forma leve e risível.
Não obstante a comicidade do relato, o conto cumpre a sua intencionalidade de fazer crítica social, ao revelar a existência de sentimentos sórdidos que se mascaram como ações aparentemente bem intencionadas, apontando para a possibilidade da presença de tais sentimentos em qualquer pessoa, considerando que fazem parte da natureza humana.
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Zenóbia Collares Moreira Cunha



Um comentário:

Mé Vieira disse...

Obrigada por postar. Eu tive um trabalho na escola sobre esse conto, me ajudou muito!