24 de novembro de 2010

"Adeus", conto de Virgílio Ferreira.

Não lhe pedi que viesse. Pedi-lhe só que às dez da noite, e pela primeira vez, a sua lembrança me esperasse ao caminho. Cheguei cedo e sentei-me. Quando soasse a hora, eu queria senti-la ao pé de mim, não bem no seu corpo, não bem nas suas palavras, mas apenas naquele sossego azul que tornava o mundo perfeito. No momento combinado, eu havia de respirar o sonho de quando não sabia que era sonho.
Tudo isto está errado. Vejo-lhe daqui o erro fechado e exato como um cubo de pedra. Mas sei que lá dentro não há erros de fora. Por isso, espero. Não lhe pediria que viesse. Também não tinha pedido à lua e a lua veio, precisamente, quando pensei que era bom haver lua. Não fiquei pois surpreendido, quando, à hora marcada, no caminho que vai à fonte, Marta apareceu tão leve como a sua lembrança. Percebi então que as mimosas recendiam através da noite sem medos. E que havia em roda pinheiros e veios de água e que eu estava ali no meio de tudo.
Agora mais de perto de mim, ela trazia um cântaro no braço. Mas não parara na fonte e subira o carreiro até onde, do fundo da sua casa, devia despedir-se para sempre do meu destino. Quando saiu da sombra e me viu, parou. A lua cobriu-a de noivado, a cauda do véu derramava-se por toda a terra que tínhamos pisado juntos. Assim queda, em pé diante de mim, eu senti-a verdadeira como tudo o que era verdade à nossa volta.
-Paulo!
O caminho da serra corre ali aos nossos pés. Olho a sua mancha branca, direita por entre os pinhais, até ao alto da colina. Depois é tudo a vaguidão da noite, não o escuro de passos audazes, nem a lucidez bastante dos passos exatos, mas apenas uma luz velada, boa para todos os caminhos de quem não escuta as razões do caminhar.
Então ela pousou o cântaro e o restolho rangeu quando se sentou. Eu tinha a certeza de que ela iria falar de qualquer coisa misteriosa e longínqua, qualquer coisa já morta, mas onde pudéssemos, dali donde estávamos, ver-nos ainda vivos, sem pensamentos no depois em que agora podíamos pensar. Tinha a certeza de que ela me levaria para um presente sem memória do passado, nem receio de um passado no futuro. Eu estava ali de mãos abertas e olhos dóceis, encostado a um tronco de pinheiro. Então ela contou dos patos que criara nessa Primavera, das manhãs altas de sol, do pão que vira semear. E eu gostei, naquela hora harmoniosa, de que ela falasse nos patos, no pão e nas manhãs.
Agora, todo o campo e toda a serra abriam num místico perfume à lua e à criação. Não fugíamos propriamente à dor do momento; apenas escavávamos com os dedos o chão da nossa angústia, para tocarmos o que o vento cobrira. Depois ficamos de novo em silêncio. Tínhamos mil coisas a dizer, mas todas elas ficavam tão perto, que podiam estrangular-nos, se quisessem. Era conveniente dizer delas não o corpo rigoroso de unhas e dentes, não os pés de botas cardadas, mas apenas o bafo ligeiro ou os olhos que à distância não fossem senão olhos de olhar. Por isso, ela me perguntou, quase assustada, quase supersticiosa de turvar os rios e os lagos de lua, coalhados aos nossos pés:
-Paulo! Por que escolheste esta vida?
A aldeia estava no fundo, quieta, sem respirar, os cães uivavam das eiras para o céu. Ao longe, na serra em frente, um comboio silvou pela noite fora. Ouvia-se perfeitamente o martelar das ferragens e o apito. E eu pensei: “Vai chover. Amanhã ou depois chove. Quando se ouve o comboio chove sempre”.
-Por que escolheste esta vida?
Agora a pergunta era tão clara, que eu não achei uma sombra para me esconder. De outras vezes, outra gente me perguntara o mesmo. E nunca soube responder. Falavam-me de fora, de outro mundo, com uma linguagem diferente. E assim, as nossas idéias jogavam à cabra-cega. Eu próprio, quando queria entender-me, espreitando-me donde me não suspeitasse, não tinha razões talhadas à medida do meu sonho. Os princípios do senso da justiça talvez tivessem envelhecido e não pudessem acompanhar o meu anseio. Só metido dentro de mim eu me todo e sem razões. Hei - de um dia tombar e arrefecer. Talvez então seja possível a outros meterem em leis o que gelou do meu esforço. Até lá, é difícil. Qualquer coisa me está forçando os limites, mesmo da regra que julgo dar-me. Um vento largo ergueu-se não sei donde e arrebatou-me. Lembra-me bem como tudo aconteceu. Mas, quando penso no que eu fui, não me parece que tenha acontecido nada de extraordinário. É como se eu tivesse tivesse já nascido para isso. Meu pai às vezes dizia: “hoje vou ter sorte”; ou: “hoje vai-me acontecer uma desgraça”. O mais difícil era convencer-se de que seria assim. Porque depois, durante o dia, só tinha de andar atento para achar a desgraça ou a sorte que profetizara. Mas nunca fui capaz de saber que arranjos da vida o faziam acreditar assim na cor do seu destino diário. Havia sol ou chuva no céu, nem sempre o comer estava pronto a horas, às vezes o filho mais novo chorava sem razões adultas, ou qualquer coisa parecida. Mas é degradante pensar que fato desses decidisse das certezas de meu pai.
-Como explicar-te porque parti?
Tenho pés para andar e olhos para ver. Posso sentar-me ou posso fechar os olhos e dizer que não há sol nem estradas. Mas eu sei que há estradas e sol e que os olhos vêem e os pés andam. Por mais que eu queira, quando sei por dentro que uma coisa está certa. E ainda que os outros saibam que está errada, isso não me ajuda.
-Não me ajuda nada, Marta.
Mas como convencê-la? As razões são tanto o que somos, que só nascendo outra vez as poderemos renegar. Talvez Marta o acreditasse enfim, porque, sentada, enlaçou as mãos à frente dos joelhos unidos e calou-se de vez. Já não tínhamos que dizer, mas o eco das nossas vozes e o vapor quente da nossa presença embaciavam-nos a vontade. Um fluido estranho dissolvia-nos, e não era fácil assim acharmos o que nos tornava distintos. A lua vogava agora pela água alta do céu. Marta foi a primeira a erguer-se. Então eu ergui-me também e apertei-lhe as mãos devagar:
-Adeus!
Caminhei pela vereda branca, lavado numa pureza desconhecida, anterior à minha humanidade, e onde, no entanto, eu me sentia todo inteiro. Quando cheguei ao topo da colina, olhei ainda atrás a ausência de Marta. Mas, lentamente, surpreso e todavia calmo, fui descobrindo Marta em pessoa, em pé, no meio do caminho, vestida de lua, esperando decerto como eu que toda a serra e toda aldeia e tudo o que nos fora prometido ficasse enfim tão deferente como quando ainda não tínhamos nascido.

(Vergílio Ferreira. Contos: Lisboa, (4ª edição) - Bertrand Editora - 1991)


COMENTÁRIO
Vergílio Ferreira, natural da Serra da Estrela, nasceu em 28 de janeiro de 1916 e faleceu em Lisboa em 1996. Como autor de contos e de romances, tornou-se um dos maiores escritores portugueses do século XX. Sua obra literária desenvolveu-se dentro dos princípios estéticos do neo-realismo (primeira fase) e do existencialismo que não abandonaria mais. Na vertente existencialista de sua obra, o escritor questiona a condição existencial do homem envolvido em suas tragédias, em suas buscas e opções, traduzindo a inexorável e inevitável solidão humana.
Contos é uma coletânea publicada pela primeira vez em 1976, que reuniu contos desde 1945 (“O Cerco”), até 1975 (“O Morto”), com inclusões posteriores na edição de 1991. São contos que têm entre si um espaço de quase cinqüenta anos, desde o fim da Segunda Guerra Mundial até ao fim do Salazarismo.
Em “Adeus” Vergilio Ferreira praticamente desconstrói o modelo tradicional do conto, aproximando da uma prosa poética. Apenas duas personagens participam, sendo uma delas – Marta - apenas presentificada pela memória do protagonista, Paulo, em um reencontro virtual de despedida com a mesma, como sugere o primeiro parágrafo do texto.
Se o romancista é extraordinário, o contista é um mestre na arte de construir suas histórias. No conto “Adeus” somos surpreendidos pela leveza de uma linguagem sedutoramente expressiva, densa, impregnada de sentimento e de doce emoção. A narrativa, verdadeira prosa poética, é de um lirismo refinadíssimo, intenso que, em várias passagem, abre um campo de infinita beleza, especialmente pela plasticidade da linguagem e pela habilidade no uso da metáfora. Nada fica claro no texto, fica apenas subentendido, sugerido, no plano das suposições.
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Comentário de  Zenóbia Collares Moreira Cunha

7 comentários:

trocologoexisto disse...

Obrigada pelo ocnto, obrigada por me apresnetar ao autor.
Gláucia

Zenobia Collares Moreira disse...

Gláucia

Obrigada pelo comentário. Seja bem vinda ao blog. Um abraço fraterno.

Anônimo disse...

Adorei. Na verdade gosto muito de ler. Mas contos é a primeira vez.Simplismente lindo.

Tiago disse...

Eu gostei muito deste conto, mas acho que não fica nada claro no final, e não percebi ao certo o que fazia Paulo da vida, alguém me pode ajudar a entender ?

Anônimo disse...

eu n percebi o final e, afinal marta foi ao encontro ou nao? alguem me ajuda? :s

Anônimo disse...

Eu queria era o resumo para apresentar á stora, o conto nao quero para nada

Gonçalo Matos disse...

É um conto complexo e o final ainda estou para entender