Bem, então saiu do salão de beleza pelo elevador do Copacabana Palace Hotel. O chofer ñ estava lá. Olhou o relógio: eram quatro horas da tarde. E de repente lembrou-se: tinha dito a ‘seu’ José para vir buscá-la às cinco, ñ calculando que não faria as unhas dos pés e das mãos, só massagem. Que devia fazer ? Tomar um táxi? Mas tinha consigo uma nota de quinhentos cruzeiros e o homem do táxi não teria troco. Trouxera dinheiro porque o marido lhe dissera q nunca se deve andar sem nenhum dinheiro. Ocorreu-lhe voltar ao salão de beleza e pedir dinheiro. Mas – mas era uma tarde de maio e o ar fresco era uma flor aberta com o seu perfume. Assim achou que era maravilhoso e inusitado ficar de pé na rua – ao vento que mexia com os seus cabelos. Não se lembrava quando fora a última vez que estava sozinha consigo mesma. Talvez nunca. Sempre era ela – com outros, e nesses outros ela se refletia e os outros se refletiam nela. Nada era – era puro, pensou sem se entender.
Quando se viu no espelho – a pele trigueira pelos banhos de sol fazia ressaltar as flores douradas perto do rosto nos cabelos negros -, conteve-se para ñ exclamar um ‘ah!’ – pois ela era cinquenta milhões de unidades de gente linda. Nunca houve – em todo o passado do mundo – alguém q fosse como ela. E depois, em três trilhões de trilhões de ano – ñ haveria uma moça exatamente como ela.
‘Eu sou uma chama acesa! E rebrilho e rebrilho toda essa escuridão!’
Este momento era único – e ela teria durante toda a vida milhares de momentos únicos. Até suou frio na testa, por tanto lhe ser dado e por ela avidamente tomado.
‘A beleza pode levar à espécie de loucura q é a paixão.’ Pensou: ‘estou casada, tenho três filhos, estou segura.’
Ela tinha um nome a preservar: era Carla de Sousa e Santos. Eram importantes o ‘de’ e o ‘e’: marcavam classe e quatrocentos anos de carioca. Vivia nas manadas de mulheres e homens q, sim, q ‘podiam’. Podiam o q? Ora, simplesmente podiam. E ainda por cima, viscosos pois q o ‘podia’ deles era bem oleado nas máquinas q corriam sem barulho de metal ferrugento. Ela, q era uma potência. Uma geração de energia elétrica. Ela, q para descansar usava os vinhedos do seu sítio. Possuía tradições podres, mas de pé. E como ñ havia nenhum novo critério para sustentar as vagas e grandes esperanças, a pesada tradição ainda vigorava. Tradição de quê? De nada, se se quisesse apurar. Tinha a seu favor apenas o fato de q os habitantes tinham uma longa linhagem atrás de si, o q, apesar de plebéia, bastava para lhes dar uma certa pose de dignidade.
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