7 de setembro de 2011

Comentário do conto "Uma esplanada sobre o mar".


O conto, Uma esplanada sobre o mar, é um dos melhores e mais poéticos de Virgílio Ferreira e, também, um dos que mais se abrem a uma reflexão acerca do eterno drama da incomunicabilidade humana. No caso específico deste conto, tal problema tem a sua gênese nas diferenças fundamentais na forma como cada um dos dois únicos personagens, um casal de namorados, encara a realidade, a vida, o que tem e o que não tem importância e, principalmente, na forma como cada um percebe as coisas que o rodeiam.
A incomunicabilidade entre o rapaz e a moça, que tentam se entender, é evidenciada pela dificuldade em sustentarem um diálogo, dificultado pelas diferenças fundamentais que caracterizam a natureza de cada um e, consequentemente, levam-nos a falarem uma linguagem em tudo oposta a do outro.
Ela é superficial e tem uma percepção limitada, não aprendeu a “VER”, com “olhos de ver”, apenas “olha” o mundo que a rodeia, com um olhar que não ultrapassa a realidade imediata. Ele tem uma percepção abrangente e profunda que o torna capaz de “VER” bem além do se consegue com um simples “olhar”, distinguindo os dois planos da realidade – a objetiva e a subjetiva-, ultrapassando o meramente visível. Assim, no conto, é bem significativa a dicotomia olhar/ver, dois verbos que, apesar de indicarem ações semelhantes, têm significados distintos.
Nestes termos, podemos “OLHAR” sem, no entanto, conseguirmos realmente “VER”. O ato de olhar é superficial, o ver é profundo. Daí, a impossibilidade dos dois jovens de sustentarem um diálogo que signifique um autêntico encontro de consciências que se percebem e se entendem com profundidade. Ele, sabendo que tem pouco tempo de vida, não se desespera. Ao contrário disso, passa a ver o mundo com outros olhos, passa a dar uma importância maior às pequenas coisas da vida, da natureza, de tudo quanto sabe que em pouco tempo irá perder. A revelação do seu médico sobre a sua inevitável morte dentro de, no máximo, três meses, desperta-o para a beleza da vida, leva-o a perceber coisas que antes não percebia ou para as quais não dava importância.
Durante as tentativas frustradas de diálogo entre eles, a expressão que se repete é “coisa importante”. Todavia, a expressão não tem o mesmo valor para o rapaz e para a moça. Ele tem uma visão alargada e profunda, sobre o que é, realmente, importante, enquanto ela tem uma visão limitada e superficial sobre a mesma coisa. O fato de não encararem a importância das coisas com a mesma intensidade provoca distanciamento, incompreensão e dúvidas, que resultam no agravamento da ausência de comunicação entre eles.
O rapaz tem uma atitude constante de observação e de reflexão. Enfim, o fato de saber que a sua vida está se esvaindo, impulsiona-o a ver o mundo como se o visse pela primeira vez, como se tudo fosse uma novidade não percebida antes, mais bela, mais luminosa e mais viva. Ele expressa para a jovem as razões que o levam a adotar esta forma de ver e sentir. Ela não o compreende e fica em dúvida acerca das reflexões do namorado, interpretando sua atitude, inclusive o convite para se encontrarem na esplanada por ter algo importante para revelar, como uma forma de ir ganhando tempo para ter coragem de dizer que quer terminar o namoro.
Se, por um lado, ela não compreende as reflexões dele, por outro lado, ele não responde diretamente às suas perguntas, aumentando a sua ansiedade e as suas dúvidas. Somente no final o rapaz revela que está com os dias contados.“Estava uma tarde cheia de sol. As águas brilhavam até ao limite do horizonte, um barco à vela ia passando pela estrada de lume. O ar estava quente. E a brisa do mar quase não chegava ali”. Com essas palavras, a narrativa é encerrada, remetendo para a simbologia do mar, do sol e do barco, elementos várias vezes referidos no decurso da ação.
Segundo a definição do Dicionário dos símbolos, de Jean Chevalier: “a barca é o símbolo da viagem, de uma travessia efetuada seja pelos vivos, seja pelos mortos”. No conto, o barco representa a travessia do rapaz da vida para a morte. A posição do sol é de declínio no horizonte. É o ocaso, significando a morte metafórica do sol. Há uma referência à estrada de lume que vai até o horizonte, apontando para um caminho de luz para o pôr-do-sol, para o infinito, para o fim da vida, enfim: para a morte. As simbologias do sol e do barco mostram, poeticamente, de que forma os elementos da natureza – o mar e o sol – se identificam com a situação vivida pelo rapaz.

Zenóbia Collares Moreira Cunha 

27 de julho de 2011

José Gomes Ferreira : A Reportagem do Medo



Quero lá saber de Lisboa de pedra histórica, com ortigas nos pátios, nespereiras nos balcões e palácios de bafio como museus de silêncio podre.
Nas cidades – e nos rios – interessa-me menos o leito pedregoso do que a corrente de pessoas vivas a rolarem Poe essas calçadas de manhã até à noite, cada qual pegada à sua sombra: esta a chorar porque lhe apareceu morto o canário na gaiola; aquele com olhos de letra a vencer amanhã; outra com o filho moribundo embrulhado no xaile roto; outra, ainda desventurosa porque lhe fugiu uma malha da meia, e todos com a morte marcada para depois de amanhã.
Descobrir as tragédias e as farsas dessa multidão diária que cobre de carne humana e de tumulto os rossios, as janelas, as igrejas, os elétricos, os cafés e as tabernas, eis uma das mais deleitosas ocupações do meu destino de espectador das ruas, espectador sui generis aliás, pois não me limito a assistir à vida do camarote do meu segundo andar, mas a saltar, de vez em quando, a pés juntos, para o palco e a representar também algumas “rábulas”.
Rábulas, por sinal, nem sempre felizes, como a que o Fado me distribuiu no último dramazinho colectivo levado inconscientemente à cena por todos nós (título: A parada dos lívidos ou Ó medricas, compra um cão) e em que interpretei, e continuo a interpretar com heroísmo p papel de 1º Pálido.
Por infortúnio, só muito tarde, talvez meses depois da primeira representação, tomei consciência da linda figura que andava a fazer por essas travessas e avenidas.
Ao princípio, confesso, o papel não me desagradou.
Nada de grave, aparentemente. Prudência, apenas. Um evitar mole de sarilhos. A aceitação quotidiana de pequenas injustiças à minha roda. (Oh, só as pequeninas injustiças sem importância. Lá as grandes, não. Nisso de grandes injustiças sou simplesmente feroz, acreditem.)
E assim, pouco a pouco, resvalei até este cômodo estado de admitir sem indignação todas as mesquinhas infâmias do dia-a-dia que, em tempos anteriores, segundo garantem os poucos cavaleiros andantes sobreviventes, provocavam, por via de regra, embates, socos e mãos de polícias a apartar.
Hoje não. Ainda esta manhã vi um brutamontes, com olheiras de tanguista e ombros de moço de recados, atirar um encontrão a uma velhota para lhe roubar o lugar no eléctrico, e ninguém soltou pio.
A pobre senhora, meio tonta, alheada do que se passava em redor, escancarou os olhos numa fixidez de assombro diante do burburinho do mundo.
Pois da plataforma apinhada de homens válidos, como eu, não saiu um único protesto.
Alguns empalideceram. Oh, sim, alguns ficaram brancos de cal e cravaram unhas enfurecidas nas palmas das mãos.
Mas o grito não se ouviu.
Bico calado. Ausência completa de dons-quixotes. Todos a pensarem nas vidinhas, nos destinos exíguos ao molde da alma de cada um.
Que lhes importavam o atropelo, a prepotência, o pontapé nas canelas do vizinho, o insulto, a calúnia, o apalpão impotente, o abuso do mais forte, as rasteiras e os pinhões nos velhos?
Alguns – coitados -, os derradeiros quixotes pusilânimes, empalideceram. Outros tornaram-se verdes, a expelir as clássicas labaredas de ira pelos olhos.
Mas todos acabaram por engolir o grito e passar adiante...
Porque os portugueses de hoje, infelizmente, passam sempre adiante.
Vejam, vejam: agora mesmo, no meio da rua, aquela mulher, esfericamente gorda, desatou a espancar o filho de 6 anos e olhos enormes do tamanho de todas as lágrimas dos homens.
Porquê? Ninguém percebeu.
Bateu-lhe, pronto. Talvez para se vingar de qualquer pensamento humilhante. Talvez – quem sabe? – apenas para desenvolver os músculos dos braços.
Bateu-lhe. Pregou-lhe uma coça. Fez a ginástica do desespero. Rasgou-lhe os lábios com unhas maternais. Humilhou-o diante do sol. Esbofeteou-o.
E eu como reagi?
Claro, o meu primeiro instinto foi este: dar um pulo, fincar-lhe as mãos no pescoço e intimá-la a pedir perdão ao filho, ali mesmo, de joelhos.
Mas com grande espanto meu – cheio de comícios por dentro e de impassibilidade por fora – prossegui friamente o meu caminho, a fumar um cigarro abstrato, com a voz de D. Quixote entalada na garganta.
Há dias, o mesmo vexame.
Uma multidão de palermas desnecessários escarnecia dum doido, e eu passei adiante, sem sequer esboçar a raiva de me insurgir.
Como de costume, tornei-me muito pequenino, meti-me dentro do meu coração parvo, e o pobre maluco lá continuou a deixar-se esquartejar pelas feras.
Vocês conhecem-no, com certeza.
É um homem alto e gordo, de cara redonda, cabeleira à poeta, olhos infantis, fraque sebento, que aos domingos aparece por essas encruzilhadas a dirigir, com as mãos e um apito, o trânsito dos carros.
A história da sua vida... até apetece fazer literatura. E, no entanto, pode relatar-se em meia dúzia de palavras irônicas.
Um dia, um automóvel qualquer atropelou-lhe o filho, e ele, muito naturalmente, endoideceu.
De facto, que queriam que ele fizesse senão endoidecer?
Em lugar de sofrer em voz alta, de representar mais uma vez a comédia da dor humana aos soluços sobre o cadáver do filho, numa tentativa inútil de ressurreição, pôs-se a rir de mansinho. E comprou um fraque. E deixou crescer o cabelo. E veio para a rua vestido de polícia sinaleiro voluntário. E, por fim, começou a freqüentar os jardins públicos para tomar conta dos garotelhos, defende-los dos automóveis e dançar, com grande agitação desarticulada, o giroflé-giroflá.
Nos primeiros tempos, as mães, mal o divisavam, advertiam os meninos por precaução:
-Ó José! Ó Raul! Ó António! Venham para o pé da mamã!
Mas agora já lhe entregam os filhos, confiantes. Até lhe sorriem. E os fedelhos, por sua vez, agarram-se ao pobre bobo, despenteiam-no, desfazem-lhe o laço da gravata, como se se tratasse dum espantalho público, enviado para os jardins pela Câmara Municipal com o intuito de divertir as crianças – e não dum homem verdadeiro com coração de carne e dor autêntica na alma.
Pois eu vi a multidão alarve achincalhar este homem – e não me revoltei.
Vi, “claramente visto”, um rapaz com cara de estupidez inchada pregar-lhe um pontapé nas abas – e não tirei as mãos dos bolsos.
Não protestei. E tu também não. Nem tu que és sócio da Liga dos Direitos do Homem. Nem mesmo tu, da Sociedade Protectora dos Animais. Ninguém protestou.
Sorrimos todos, pingamos todos, sofremos todos teoricamente, e passamos adiante, curvos de vergonha da nossa raça de dons-quixotes covardes e sem emenda.
Sim, e sem emenda, porque ainda ontem... ah! Ontem...
Digam-me uma coisa: porque não fui às ventas daquele miserável que, por mera reinação, derrubou, com uma palmada imprevista, a caixa de charutos cheia de sinas que um miúdo estava a tentar impingir aos transeuntes, ali na esquina da Avenida?
O catraio, sujo de miséria, ergueu a voz, a barafustar num choro fundo contra a injustiça do universo. Várias pessoas rodearam-no logo. Homens e mulheres. Damas de seios altos. Senhores de chapéus de chuva enrolados. E os tais eternos lívidos com as unhas enterradas na carne.
Mas não. Ainda não foi dessa vez que se ouviu o grito.
Só o choramingar vão do garoto a procurar reunir os papeluchos das sinas, dispersos pelo vento...

*
*   *         
Subi lentamente a Avenida e parei na ponte dum dos lagos, a olhar para os peixes. Em baixo, na água, a minha imagem...
Desfi-la com cuspo.
Há momentos em que os homens não têm direito às suas imagens!

(De O mundo dos outros, Portugália Ed.)



COMENTÁRIO


Poeta e ficcionista já falecido, José Gomes Ferreira é o escritor do homem social. Ele tem uma consciência social e uma atitude humana vigorosamente assumidas. Como filiado ao Partido Comunista e participante do Neorealismo portugueses, critica vigorosamente a sociedade burguesa à qual pertence, dentro dela própria, fazendo a sua desconstrução, a sua crítica e o desmascaramento das suas mazelas.
Em “A Reportagem do Medo” o autor discorre sobre fatos do cotidiano em uma cidade grande, no caso Lisboa. O narrador, inicia o relato numa posição privilegiada: do alto de uma janela do 2º andar de um prédio. Dali, observa a rua e tudo vê com aguçada consciência crítica e auto-crítica (notar que o narrador é impiedoso consigo próprio por se saber um omisso).
A narrativa tem um narrador homodiegético (narrador e personagem testemunha dos fatos narrados) que execra severamente a decadência dos valores sociais e humanos da sociedade burguesa sua contemporânea. A presença do narratário é marcante no texto: ouvintes, testemunhas dos fatos narrados, leitores virtuais da “reportagem”, trazidos à narrativa como testemunhas daquilo que decerto para eles não é novidade: a derrocada dos valores sociais dos habitantes da cidade.
O texto começa fazendo um paralelo entre duas realidades: Portugal do passado e Portugal do presente. Todavia, o olhar do narrador para o passado não significa uma valorização dos seus aspectos históricos, mas sim os que dizem respeito à mudança nas atitudes e nos comportamentos humanos, verificados no transcorrer do tempo, extinguindo o cavalheirismo, a gentileza, a boa educação, o respeito pelo outro e a probidade que existiam no Portugal do passado.  No lugar desses valores sociais e humanos, o que impera no Portugal contemporâneo ao autor são outros atributos bem opostos aos que eram cultivados outrora: a opressora covardia, a brutalidade e a irreverência dos mais fortes sobre os mais fracos (os oprimidos e impotentes) e os que, motivados pelo medo, se colocam como meros espectadores das injustiças e atos de selvageria que testemunha, sem esboçar o mínimo gesto para defender aqueles que sofrem a ação da força bruta. Estes são os eternos omissos, dentre os quais o narrador, ele próprio, se coloca.
  O contexto social é retratado como um conjunto de injustiças, violências, covardias, omissões e, especialmente, de intenso medo. É como se as pessoas houvessem perdido todo o sentido de atos como a coragem, a bondade, a solidariedade, a ética e a noção do respeito pelos seus semelhantes.
Trata-se, portanto, de um texto típico do Neo-Realismo, caracterizado pelos posicionamentos críticos do autor em relação à sociedade portuguesa do seu tempo.


1 de julho de 2011

Osman Lins: O Vitral.



Desde muito, ela sabia que o aniversário, este ano, seria num domingo. Mas só quando faltavam quatro ou seis semanas, começara a ver na coincidência uma promessa de alegrias incomuns e convidara o esposo a tirarem um retrato. Acreditava que este haveria de apreender seu júbilo, do mesmo modo que o da Primeira Comunhão retivera para sempre os cânticos.
- Ora... Temos tantos... - respondera o homem. - Se tivéssemos filhos... Aí, bem. Mas nós dois! Para que retratos? Dois velhos!
A mão esquerda, erguida, com o indicador e o médio afastados, parecia fazer da solidão uma coisa tangível - e ela se reconhecera com tristeza no dedo menor, mais fino e recurvo. 
Prendera grampos aos cabelos negros, lisos, partidos ao meio, e levantara-se.
- Está bem. Você não quer... (A voz nasalada, contida, era um velho sinal de desgosto).
- Suas tolices, Matilde... Quando é isso?
Como se a idéia a envergonhasse, ela inclinara a cabeça:
- Em setembro - dissera. - No dia vinte e quatro. Cai num domingo e eu...
- Ah! Uma comemoração - interrompera o esposo. 
- Vinte anos de casamento... Um retrato ameno e primaveril. Como nós.
Na véspera do aniversário, ao deitar-se, ela ainda lembrara essas palavras purificara-se da ironia e as repetira em segredo, sentindo-se reconduzida ao estado de espírito que lhe advinha na infância, em noites semelhantes: um oscilar entre a espera de alegrias e o receio de não as obter.
Agora, ali estava o domingo, claro e tépido, com réstias de sol no mosaico, no leito, nas paredes, mas não com as alegrias sonhadas, sem o que tudo o mais se tornava inexpressivo.
- Se você não quiser, eu não faço questão do retrato - disse ela. Foi tolice.
- O fotógrafo já deve estar esperando. Por que não muda o penteado? Ainda há tempo.
- Não. Vou assim mesmo.Abriu a porta, saíram. 
Flutuavam raras nuvens brancas; as folhas das aglaias tinham um brilho fosco. Ela deu o braço ao marido e sentiu, com espanto, uma anunciação de alegrias no ar, como se algo em seu íntimo aguardasse aquele gesto.
Seguiram. Soprou um vento brusco, uma janela se abriu, o sol flamejou nos vidros. Uma voz forte de mulher principiou a cantar, extinguiu-se, a música de um acordeão despontou indecisa, cresceu. E quando o sino da Matriz começou a vibrar, com uma paz inabalável e sóbria, ela verificou exultante que o retrato não ficaria vazio: a insubstancial riqueza daqueles minutos o animaria para sempre.
- Manhã linda! - murmurou. - Hoje eu queria ser menina.
- Você é.
A afirmativa podia ser uma censura, mas foi como um descobrimento que Matilde a aceitou. Seu coração bateu forte, ela sentiu-se capaz de rir muito, de extensas caminhadas, e lamentou que o marido, circunspecto, mudo, estivesse alheio à sua exultação. Guardaria, assim, através dos anos, uma alegria solitária, da qual Antônio para sempre estaria ausente. Mas quem poderia assegurar, refletiu, que ele era, não um participante de seu júbilo, mas a causa mesma de tudo o que naquele instante sentia; e que sem ele o mundo e suas belezas não teriam sentido?
Estas perguntas tinham o peso de afirmativas e ela exclamou que se sentia feliz
.- Aproveite - aconselhou ele. - Isso passa.- 
Passa. Mas qualquer coisa disto ficará no retrato. Eu sei.
As duas sombras, juntas, resvalavam no muro e na calçada, sobre a qual ressoavam seus passos.
- Não é possível guardar a mínima alegria - disse ele. - Em coisa alguma. Nenhum vitral retém a claridade.
Cinco meninas apareceram na esquina, os vestidos de cambraia parecendo-lhes comunicar sua leveza, ruidosas, perseguindo-se, entregues à infância e ao domingo que fluíam com força através delas. Atravessaram a rua, abriram um portão, desapareceram.
Ela apertou o braço do marido e sorriu, a sentir que um júbilo quase angustioso jorrava de seu íntimo. Compreendera que tudo aquilo era inapreensível: enganara-se ou subestimara o instante ao julgar que poderia guardá-lo. "Que este momento me possua, me ilumine e desapareça” - pensava. – “Eu o vivi. Eu o estou vivendo".
Sentia que a luz do sol a trespassava, como a um vitral.

COMENTÁRIO

O Vitral, conto do livro “Os Gestos” de Osman Lins, é uma das mais sedutoras narrativas do escritor pernambucano, já falecido. Extremamente lírico, focaliza aspectos da interioridade humana que, de modo geral, escapam à percepção das pessoas, mas foram extraordinariamente percebidas pela especial sensibilidade deste autor. Para isso, Osman Lins lança mão da focalização interna da personagem feminina – Matilde – analisando seus pensamentos e os seus gestos, captando os significados e os sentimentos que estes exprimem.
O próprio perfil de Matilde, uma senhora de idade avançada, é traçado com pinceladas singelas que realçam sua alma poética e seu espírito romântico, bem esboçados em seu desejo de fazer uma foto mágica que operasse o milagre de captar, de “apreender seu júbilo, do mesmo modo que o da Primeira Comunhão retivera para sempre os cânticos”. 
Apesar da descrença do prosaico marido na possibilidade de se fixar sentimentos numa foto, Matilde vive a sua inefável fantasia, “sente-se imensamente feliz” em sua crença de “que a foto vai reter um pouco dessa felicidade”. 
Como ocorre em outros contos de “Os Gestos”, Osman Lins faz em “O Vitral” uma abordagem singela e profundamente lírica da condição humana, bem evidente na forma como revela os sentimentos, as relações afetivas, os desejos e as fragilidades das pessoas em sua caminhada existencial. 
A crença otimista de Matilde contrasta com o ceticismo, quase amargo do marido “circunspecto, mudo, alheio à sua exultação. Guardaria, assim, através dos anos, uma alegria solitária, da qual Antônio para sempre estaria ausente”.cumplicidade dele em relação às suas expectativas. Ao contrário disso, ela sentia “que um júbilo quase angustioso jorrava de seu íntimo”. Indagava-se sobre o papel daquele homem em sua história, refletindo. 
De braços dados com o marido, Matilde segue com os seus pensamentos invadidos por uma visão poética de tudo que a rodeia ou que vem do âmago de sua alma: “Compreendera que tudo aquilo era inapreensível: enganara-se ou subestimara o instante ao julgar que poderia guardá-lo. "Que este momento me possua, me ilumine e desapareça” - pensava. – “Eu o vivi. Eu o estou vivendo". “Sentia que a luz do sol a trespassava, como a um vitral”.
O parágrafo final assinala um momento de grande poeticidade no qual Matilde entra em sintonia com a natureza e sente-se plena e iluminada pela luz do sol que a atravessa como se ela fosse um vitral.
Ao conto termina prodigalizando a beleza da celebração da vida que emana do interior de Matilde, da luminosidade esplendorosa do seu espírito sensível e aberto para a busca da felicidade, da plenitude.
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Zenóbia Collares Moreira
                          
                                              

15 de junho de 2011

Machado de Assis: "O Relógio de Ouro".

Agora contarei a história do relógio de ouro. Era um grande cronômetro, inteiramente novo, preso a uma elegante cadeia. Luís Negreiros tinha muita razão em ficar boquiaberto quando viu o relógio em casa, um relógio que não era dele, nem podia ser de sua mulher. Seria ilusão dos seus olhos? Não era; o relógio ali estava sobre uma mesa da alcova, a olhar para ele, talvez tão espantado, como ele, do lugar e da situação. 
Clarinha não estava na alcova quando Luís Negreiros ali entrou. Deixou-se ficar na sala, a folhear um romance, sem corresponder muito nem pouco ao ósculo com que o marido a cumprimentou logo à entrada. Era uma bonita moça esta Clarinha, ainda que um tanto pálida, ou por isso mesmo. Era pequena e delgada; de longe parecia uma criança; de perto, quem lhe examinasse os olhos, veria bem que era mulher como poucas. Estava molemente reclinada no sofá, com o livro aberto, e os 
olhos no livro, os olhos apenas, porque o pensamento, não tenho certeza se estava no livro, se em outra parte. Em todo o caso parecia alheia ao marido e ao relógio. 
Luís Negreiros lançou mão do relógio com uma expressão que eu não me atrevo a descrever. Nem o relógio, nem a corrente eram dele; também não eram de pessoas suas conhecidas. Tratava-se de uma charada. Luís Negreiros gostava de charadas, e passava por ser decifrador intrépido; mas gostava de charadas nas folhinhas ou nos jornais. Charadas palpáveis ou cronométricas, e sobretudo sem conceito, não as apreciava Luís Negreiros. 
Por este motivo, e outros que são óbvios, compreenderá o leitor que o esposo de Clarinha se atirasse sobre uma cadeira, puxasse raivosamente os cabelos, batesse com o pé no chão, e lançasse o relógio e a corrente para cima da mesa. Terminada esta primeira manifestação de furor, Luís Negreiros pegou de novo nos fatais objetos, e de novo os examinou. Ficou na mesma. Cruzou os braços durante algum tempo e refletiu sobre o caso, interrogou todas as suas recordações, e concluiu no fim de tudo que, sem uma explicação de Clarinha, qualquer procedimento fora baldado ou precipitado. 
Foi ter com ela. Clarinha acabava justamente de ler uma página e voltava a folha com o ar indiferente e tranqüilo de quem não pensa em decifrar charadas de cronômetro. Luís Negreiros encarou-a; seus olhos pareciam dous reluzentes punhais. 
— Que tens? perguntou a moça com a voz doce e meiga que toda a gente concordava em lhe achar. 
Luís Negreiros não respondeu à interrogação da mulher; olhou algum tempo para ela; depois deu duas voltas na sala, passando a mão pelos cabelos, por modo que a moça de novo lhe perguntou: 
— Que tens? Luís Negreiros parou defronte dela. 
— Que é isto? disse ele tirando do bolso o fatal relógio e apresentando-lho diante dos olhos. Que é isto? repetiu ele com voz de trovão. 
Clarinha mordeu os beiços e não respondeu. Luís Negreiros esteve algum tempo com o relógio na mão e os olhos na mulher, a qual tinha os seus olhos no livro. O silêncio era profundo. Luís Negreiros foi o primeiro que o rompeu, atirando estrepitosamente o relógio ao chão, e dizendo em seguida à esposa:
— Vamos, de quem é aquele relógio? 
Clarinha ergueu lentamente os olhos para ele, abaixou-os depois, e murmurou: — Não sei. 
Luís Negreiros fez um gesto como de quem queria esganá-la; conteve-se. A mulher levantou-se, apanhou o relógio e pô-lo sobre uma mesa pequena. Não se pôde conter Luís Negreiros. Caminhou para ela, e, segurando-lhe nos pulsos com força, lhe disse: — Não me responderás, demônio? Não me explicarás esse enigma? 
Clarinha fez um gesto de dor, e Luís Negreiros imediatamente lhe soltou os pulsos que estavam arrochados. Noutras circunstâncias é provável que Luís Negreiros lhe caísse aos pés e pedisse perdão de a haver machucado. Naquela, nem se lembrou disso; deixou-a no meio da sala e entrou a passear de novo, sempre agitado, parando de quando em quando, como se meditasse algum desfecho trágico. Clarinha saiu da sala. Pouco depois veio um escravo dizer que o jantar estava na mesa. 
— Onde está a senhora? 
— Não sei, não senhor. 
Luís Negreiros foi procurar a mulher; achou-a numa saleta de costura, sentada numa cadeira baixa, com a cabeça nas mãos a soluçar. Ao ruído que ele fez na ocasião de fechar a porta atrás de si, Clarinha levantou a cabeça, e Luís Negreiros pôde ver-lhe as faces úmidas de lágrimas. Esta situação foi ainda pior para ele que a da sala. Luís Negreiros não podia ver chorar uma mulher, sobretudo a dele. Ia enxugar-lhe as lágrimas com um beijo, mas reprimiu o gesto, e caminhou frio para ela; puxou uma cadeira e sentou-se em frente de Clarinha. 
— Estou tranqüilo, como vês, disse ele, responde-me ao que te perguntei com a franqueza que sempre usaste comigo. Eu não te acuso nem suspeito nada de ti. Quisera simplesmente saber como foi parar ali aquele relógio. Foi teu pai que o esqueceu cá? 
— Não. 
— Mas então... 
— Oh! não me perguntes nada! exclamou Clarinha; ignoro como esse relógio se acha ali... Não sei de quem é... deixa-me. 
— É demais! urrou Luís Negreiros, levantando-se e atirando a cadeira ao chão. 
Clarinha estremeceu, e deixou-se ficar aonde estava. A situação tornava-se cada vez mais grave; Luís Negreiros passeava cada vez mais agitado, revolvendo os olhos nas órbitas, e parecendo prestes a atirar-se sobre a infeliz esposa. Esta, com os cotovelos no regaço e a cabeça nas mãos, tinha os olhos encravados na parede. Correu assim cerca de um quarto de hora. Luís Negreiros ia de novo interrogar a esposa, quando ouviu a voz do sogro, que subia as escadas gritando: 
— Ó seu Luís! ó seu malandrim! 
— Aí vem teu pai! disse Luís Negreiros; logo me pagarás. Saiu da sala de costura e foi receber o sogro, que já estava no meio da sala, fazendo vira-voltas com o chapéu de sol, com grande risco das jarras e do candelabro.
— Vocês estavam dormindo? perguntou o Sr. Meireles tirando o chapéu e limpando a testa com um grande lenço encarnado. 
— Não, senhor, estávamos conversando... 
— Conversando?... repetiu Meireles. E acrescentou consigo: "Estavam de arrufos... é o que há de ser". 
— Vamos justamente jantar, disse Luís Negreiros. Janta conosco?
— Não vim cá para outra coisa, acudiu Meireles; janto hoje e amanhã também. Não me convidaste, mas é o mesmo. 
— Não o convidei?... 
— Sim, não fazes anos amanhã? — Ah! é verdade... Não havia razão aparente para que, depois destas palavras ditas com um tom lúgubre, Luís Negreiros repetisse, mas desta vez com um tom descomunalmente alegre: — Ah! é verdade!... 
 Meireles, que já ia pôr o chapéu num cabide do corredor, voltou-se espantado para o genro, em cujo rosto leu a mais franca, súbita e inexplicável alegria. — Está maluco! disse baixinho Meireles. 
 — Vamos jantar, bradou o genro, indo logo para dentro, enquanto Meireles seguindo pelo corredor ia ter à sala de jantar. Luís Negreiros foi ter com a mulher na sala de costura, e achou-a de pé, compondo os cabelos diante de um espelho: — Obrigado, disse. 
A moça olhou para ele admirada. 
— Obrigado, repetiu Luís Negreiros; obrigado e perdoa-me. Dizendo isto, procurou Luís Negreiros abraçá-la; mas a moça, com um gesto nobre, repeliu o afago do marido e foi para a sala de jantar. 
 — Tem razão! murmurou Luís Negreiros. Daí a pouco achavam-se todos três à mesa do jantar, e foi servida a sopa, que Meireles achou, como era natural, de gelo. Ia já fazer um discurso a respeito da incúria dos criados, quando Luís Negreiros confessou que toda a culpa era dele, porque o jantar estava há muito na mesa. A declaração apenas mudou o assunto do discurso, que versou então sobre a terrível coisa que era um jantar requentado, — qui ne valut jamais rien. 
 Meireles era um homem alegre, pilhérico, talvez frívolo demais para a idade, mas em todo o caso interessante pessoa. Luís Negreiros gostava muito dele, e via correspondida essa afeição de parente e de amigo, tanto mais sincera quanto que Meireles só tarde e de má vontade lhe dera a filha. 
Durou o namoro cerca de quatro anos, gastando o pai de Clarinha mais de dous em meditar e resolver o assunto do casamento. Afinal deu a sua decisão, levado antes das lágrimas da filha que dos predicados do genro, dizia ele. A causa da longa hesitação eram os costumes pouco austeros de Luís Negreiros, não os que ele tinha durante o namoro, mas os que tivera antes e os que poderia vir a ter depois. 
Meireles confessava ingenuamente que fora marido pouco exemplar, e achava que por isso mesmo devia dar à filha melhor esposo do que ele. Luís Negreiros desmentiu as apreensões do sogro; o leão impetuoso dos outros dias, tornou-se um pacato cordeiro. A amizade nasceu franca entre o sogro e o genro, e Clarinha passou a ser uma das mais invejadas moças da cidade. E era tanto maior o mérito de Luís Negreiros quanto que não lhe faltavam tentações. O diabo metia-se às vezes na pele de um amigo e ia convidá-lo a uma recordação dos antigos tempos. Mas Luís Negreiros dizia que se recolhera a bom porto e não queria arriscar-se outra vez às tormentas do alto mar. 
 Clarinha amava ternamente o marido, e era a mais dócil e afável criatura que por aqueles tempos respirava o ar fluminense. Nunca entre ambos se dera o menor arrufo; a limpidez do céu conjugal era sempre a mesma e parecia vir a ser duradoura. Que mau destino lhe soprou ali a primeira nuvem? 
Durante o jantar Clarinha não disse palavra, — ou poucas dissera, ainda assim as mais breves e em tom seco. 
"Estão de arrufo, não há dúvida, pensou Meireles ao ver a pertinaz mudez da filha. 
"Ou a arrufada é só ela, porque ele parece-me lépido." 
 Luís Negreiros efetivamente desfazia-se todo em agrados, mimos e cortesias com a mulher, que nem sequer olhava em cheio para ele. 
O marido já dava o sogro a todos os diabos, desejoso de ficar a sós com a esposa, para a explicação última, que reconciliaria os ânimos. Clarinha não parecia desejá-lo; comeu pouco e duas ou três vezes soltou-se-lhe do peito um suspiro. Já se vê que o jantar, por maiores que fossem os esforços, não podia ser como nos outros dias. Meireles sobretudo achava-se acanhado. Não era que receasse algum grande acontecimento em casa; sua idéia é que sem arrufos não se aprecia a felicidade, como sem tempestade não se aprecia o bom tempo. Contudo, a tristeza da filha sempre lhe punha água na fervura. 
 Quando veio o café, Meireles propôs que fossem todos três ao teatro; Luís Negreiros aceitou a idéia com entusiasmo. Clarinha recusou secamente. 
 — Não te entendo hoje, Clarinha, disse o pai com um modo impaciente. Teu marido está alegre e tu pareces-me abatida e preocupada. Que tens? 
 Clarinha não respondeu; Luís Negreiros, sem saber o que havia de dizer, tomou a resolução de fazer bolinhas de miolo de pão. Meireles levantou os ombros. 
 — Vocês lá se entendem, disse ele. Se amanhã, apesar de ser o dia que é, vocês estiverem do mesmo modo, prometo-lhes que nem a sombra me verão. 
 — Oh! há de vir, ia dizendo Luís Negreiros, mas foi interrompido pela mulher, que desatou a chorar. O jantar acabou assim triste e aborrecido. Meireles pediu ao genro que lhe explicasse o que aquilo era, e este prometeu que lhe diria tudo em ocasião oportuna. 
 Pouco depois saía o pai de Clarinha protestando de novo que, se no dia seguinte os achasse do mesmo modo, nunca mais voltaria a casa deles, e que se havia coisa pior que um jantar frio ou requentado, era um jantar mal digerido. Este axioma valia o de Boileau, mas ninguém lhe prestou atenção. 
 Clarinha fora para o quarto; o marido, apenas se despediu do sogro, foi ter com ela. Achou-a sentada na cama, com a cabeça sobre uma almofada, e soluçando. Luís Negreiros ajoelhou-se diante dela e pegou-lhe numa das mãos. 
 — Clarinha, disse ele, perdoa-me tudo. Já tenho a explicação do relógio; se teu pai não me fala em vir jantar amanhã, eu não era capaz de adivinhar que o relógio era um presente de anos que tu me fazias. 
 Não me atrevo a descrever o soberbo gesto de indignação com que a moça se pôs de pé quando ouviu estas palavras do marido. Luís Negreiros olhou para ela sem compreender nada. A moça não disse uma nem duas; saiu do quarto, e deixou o infeliz consorte mais admirado que nunca. 
 "Mas que enigma é este? perguntava a si mesmo Luís Negreiros. Se não era um mimo de anos, que explicação pode ter o tal relógio?" 
 A situação era a mesma que antes do jantar. Luís Negreiros assentou de descobrir tudo naquela noite. Achou, entretanto, que era conveniente refletir maduramente no caso e assentar numa resolução que fosse decisiva. Com este propósito recolheu-se ao seu gabinete, e ali recordou tudo o que se havia passado desde que chegara a casa. Pesou friamente todas as razões, todos os incidentes, e buscou reproduzir na memória a expressão do rosto da moça, em toda aquela tarde. O gesto de indignação e a repulsa quando ele a foi abraçar na sala de costura, eram a favor dela; mas o movimento com que mordera os lábios no momento em que ele lhe apresentou o relógio, as lágrimas que lhe rebentaram à mesa, e mais que tudo o silêncio que ela conservava a respeito da procedência do fatal objeto, tudo isso falava contra a moça. 
 Luís Negreiros, depois de muito cogitar, inclinou-se à mais triste e deplorável das hipóteses. Uma idéia má começou a enterrar-se-lhe no espírito, à maneira de verruma, e tão fundo penetrou, que se apoderou dele em poucos instantes. Luís Negreiros era homem assomado quando a ocasião o pedia. Proferiu duas ou três ameaças, saiu do gabinete e foi ter com a mulher. 
 Clarinha recolhera-se de novo ao quarto. A porta estava apenas cerrada. Eram nove horas da noite. Uma pequena lamparina alumiava escassamente o aposento. A moça estava outra vez assentada na cama, mas já não chorava; tinha os olhos fitos no chão. Nem os levantou quando sentiu entrar o marido. Houve um momento de silêncio. Luís Negreiros foi o primeiro que falou.
 — Clarinha, disse ele, este momento é solene. Responde-me ao que te pergunto desde esta tarde? 
 A moça não respondeu. 
 — Reflete bem, Clarinha, continuou o marido. Podes arriscar a tua vida. 
 A moça levantou os ombros. Uma nuvem passou pelos olhos de Luís Negreiros. O infeliz marido lançou as mãos ao colo da esposa e rugiu: 
 — Responde, demônio, ou morres! 
 Clarinha soltou um grito. — Espera! disse ela. 
 Luís Negreiros recuou. 
— Mata-me, disse ela, mas lê isto primeiro. Quando esta carta foi ao teu escritório já te não achou lá: foi o que o portador me disse. Luís Negreiros recebeu a carta, chegou-se à lamparina e leu estupefato estas linhas:

"Meu nhonhô. Sei que amanhã fazes anos; mando-te esta lembrança Tua Iaiá." 


A SEGUIR, O COMENTÁRIO DO CONTO.