28 de outubro de 2010

José C. Pires: Uma simples flor em teus cabelos claros

«Mas a meio caminho voltou para trás, direita ao mar. Paulo ficou de pé no areal, a vê-la correr: primeiro chapinhando na escuma rasa e depois contra as ondas, às arrancadas, saltando e sacudindo os braços, como se o corpo, toda ela, risse. Uma vaga mais forte desfez-se ao correr da praia, cobriu na areia os sinais das aves marinhas, arrastou alforrecas abandonadas pela maré. Eram muitas, tantas como Paulo não vira atéentão, çadase sem vida ao longo do areal. O vento áspero curtira-lhes os corpos, passara sobre elas, carregado de areia e de salitre,varrendo a costa contra as dunas, sem deixar por ali vestígios de pegada ou restos de alga seca que lhe resistissem.» 
«Marcaste o despertador?»
«Hã?»
«O despertador, Quim. Para que horas o puseste?»
«...E tudo à volta era névoa, fumo do mar rolando ao lume das águas e depois invadindo mansamente a costa deserta. Havia esse sudário fresco, quase matinal, embora, cravado no céu verde-ácido,  despontasse já o brilho frio da primeira estrela do anoitecer...»
 «Desculpa, mas não estou descansada. Importas-te de me passar o despertador?»
«O despertador?»
«Sim, o despertador. Com certeza que não queres que eu me levante para o ir buscar. És de força,caramba.» 
«Pronto. Estás satisfeita?» 
«Obrigada. Agora lê à vontade, que não te torno a incomodar. Eu não dizia? Afinal não lhe tinhas dado corda... Que horas são no teu relógio? Deixa, não faz mal. Eu regulo-o pelo meu.» 
«-Mais um mergulho - pedia a rapariga.  A dois passos dele sorria-lhe e puxava-o pelo braço; - Só mais um, Paulo. Não imaginas como a água está estupenda. Palavra, amor. Estupenda, estupenda, estupenda. 
Uma alegria tranquila iluminava-lhe o corpo. A neblina bailava em torno dela, mas era como se a não tocasse. Bem ao contrário: era como se, com a sua frescura velada, apenas despertasse a morna suavidade que se libertava da pele da rapariga. 
- Não, agora já começa a arrefecer - disse Paulo. 
- Vamo-nos vestir? 
Estavam de mãos dadas, vizinhos do mar e, na verdade, quase sem o verem. Havia a memória das águas na pele cintilanteda jovem ou no eco discreto das ondas através da névoa; ou ainda no rastro de uma vaga mais forte que se prolongava, terra adentro, e vinha morrer aos pés deles num distante fio de espuma. E isso era o mar, todo o oceano. Mar só presença. Traço de água a brilhar por instantes num rasgão do nevoeiro. Paulo apertou mansamente a mão da companheira; 
- Embora? 
- Embora - respondeu ela. E os dois, numa arrancada, correram pelo areal, saltando poças de água, alforrecas mortas e tudo o mais, até tombarem de cansaço.» 
«Quim... » «Outra vez?» «Desculpa, era só para baixares o candeeiro. Que maçada, estou a ver que tenho de tomar outro comprimido.» 
«Lê um bocado, experimenta.» 
«Não vale de nada, filho. Tenho a impressão de que estes comprimidos já não fazem efeito. Talvez mudando de droga... É isso, preciso de mudar de droga.» 
«- Tão bom, Paulo. Não está tão bom? 
- Está óptimo. Está um tempo espantoso. Maria continuava sentada na areia. Com os braços envolvendo as 
pernas e apertando as faces contra os joelhos, fitava o nada, a brancura que havia entre ela e o mar, e 
os olhos iam-se-lhe carregando de brilho. 
- Tão bom - repetia.  
- Sim, mas temos que ir. Com o cair da tarde a névoa desmanchava-se pouco a pouco. Ficava unicamente a cobrir o mar, a separá-lo de terra como uma muralha apagada, e, de surpresa, as dunas e o pinhal da costa  surgiam numa claridade humilde e entristecida. 
Já de pé, Paulo avistava ao longe a janela iluminada do restaurante. 
- O homem deve estar à nossa espera 
- disse ele. - Ainda não tens apetite? - E tu, tens? - Uma fome de tubarão. - Então também eu tenho, Paulo. 
- Ora essa? - Tenho, pois. Hoje sinto tudo o que tu sentes. Palavra. 
«Se isto tem algum jeito. Qualquer dia já não há comprimidos que me cheguem, meu Deus.» «Faço ideia, com essa mania de emagrecer... » 
«Não, filho. O emagrecer não é para aqui chamado. Se não consigo dormir, é por outras razões. Olha, talvez seja por andar para aqui sozinha a moer arrelias, sem ter com quem desabafar. Isso, agora viras-me as costas. Nem calculas a inveja que me fazes.»
 «Pois.» 
«Mas sim, fazes-me uma inveja danada. Contigo não há complicações que te toquem. Voltas as costas e ficas positivamente nas calmas. Invejo-te, Quim. Não calculas como eu te invejo. Não acreditas?» 
«Acredito, que remédio tenho eu?» 
«Que remédio tenho eu... É espantoso. No fim de contas ainda ficas por mártir. E eu? Qual é o meu remédio, já pensaste? Envelhecer estupidamente. Aí tens o meu remédio.» 
«Partiram às gargalhadas. À medida que se afastavam do mar, a areia, sempre mais seca e solta, retardava-lhes o passo e, é curioso, sentiam as noite abater-se sobre eles. Sentiam-na vir, muito rápida, e entretanto distinguiam cada vez melhor, as piteiras encravadas nas dunas, a princípio pequenas como galhos secos e logo depois maiores do que lhes tinham parecido à chegada. E ainda as manchas esfarrapadas dos chorões rastejando pelas ribas arenosas, o restaurante ermo, as traves; de madeira roídas pela maresia e, cá fora, as cadeiras de verga, que o vento tombara, soterradas  na areia. 
- O mar nunca aqui chega - tinha dito o dono da casa. - Quando é das águas vivas, berra lá fora como um danado. Mas aqui, Senhor. Aqui não tem ele licença de chegar.» 
«A verdade é que são quase duas horas e amanhã não sei como vai ser para me levantar. Escuta...» 
«Que é?»          
«Não estás a ouvir passos?» 
«Passos?» 
«Sim. Parecia mesmo gente lá dentro, na sala. Se soubesses os sustos que apanho quando estou com insónias. A Nanda lá nisso é um exagero, eu nunca seria capaz de te acordar...mas, enfim, ela lá sabe. O que é certo é que se entendem à maravilha um com o outro. E isso, Quim, apesar de ser a tal tipa, que tu dizes. Também, ainda estou para ter uma amiga que na tua boca não seja uma tipa ou uma galinha.»
[...]
“A rapariga pôs-se séria de repente.”  Ele tem gestos nervosos:
– É estranho, mas não sei como te hei-de dizer...
– Oh, não digas, Paulo.
Só nesse momento a pôde ver com clareza. Estava a sorrir, o nariz tremendo ao de leve.
– Não é preciso – murmurava ela então. 
– Eu também tenho pensado nisso muitas vezes. Talvez, sei lá, talvez eu mesma to dissesse. 
[...]
“Acabaste, Quim?”
“Sim, acabei.”
“E é bom, o livro?”
“É uma história de dois jovens apaixonados. Dois tipos novos.”
“Contas-ma Quim? É capaz de contar a história à sua mulherzinha?”
“Ora, quase não tem que contar. É um rapaz que está na praia com uma rapariga.”
“E depois? Conta, não sejas chato.”
“Depois vão tomar banho. Á noitinha, quando o sol está mesmo a desaparecer”.
“À noitinha? Tu não estás bom da cabeça, Quim.”
“Verdade. À noitinha.”
“Mas isso é só nos filmes dos milionários, lá nos mares do sul. Só aí é que há banhos à noite. Ou nas piscinas, quando está tudo bêbedo.” 
“Não, estes não estavam bêbedos nem eram milionários.”
“Eram malucos. Ou então faziam isso para armar. Não me queres convencer que acreditas numa coisa dessas.”
“Claro que acredito. Porque não?”
“Pobre Quim. O meu Quim deu agora em maluquinho. Deu em maluquinho, não deu?”
“Quieta, Lisa.”
“Deu em maluquinho, pois. Mas eu sou a mulherzinha dele e vou guardá-lo muito bem guardado para que não fuja para a praia como os maluquinhos. Não é?”
“Quieta, Lisa.”
Arrumou o livro na mesa-de-cabeceira e apagou a luz.
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José Cardoso Pires,  Jogos de Azar,  Lisboa, 
Publicações Dom Quixote, 1999 (7ª ed.). 

Comentário do conto de José Cardoso Pires.

José Cardoso Pires figura entre os mais talentosos ficcionistas da literatura portuguesa. Seus romances e contos trazem a marca da sua experiência pessoal, condensam em cada página as suas inquietações, a imagem que se faz do homem e da vida. Trata-se de uma obra que não se inscreve, definitivamente, em nenhum grupo ou gênero literário português. A partir da publicação do seu  livro de estréia “Os Caminheiros e Outros Contos” (1949), até o último, “Lisboa, Livro de Bordo ” (1997), o escritor experimentou várias tendências literárias, inclusive o neo-realismo, o qual procurou seguir por um tempo mais prolongado. José Cardoso Pires morreu em Lisboa, em 26 de outubro de 1998. Em vida, foi galardoado com vários prêmios, dentre os quais o Prêmio Pessoa de 1997. O conto “Uma simples flor nos teus cabelos” é considerado um dentre os melhores do autor.
Neste conto,  o leitor é confrontado com a presença de duas seqüências narrativas que se alternam, conferindo um toque de originalidade à trama. Uma das narrativas faz parte de um livro que a personagem masculina lê. É protagonizada pelo casal Paulo e Maria, e se alterna com a história principal, vivida pelo casal Quim e Lisa. Portanto, são abertos dois espaços na narrativa: um, transcrito em itálico e narrado com certo toque de romantismo e poeticidade, é caracterizado pela amplitude do espaço de uma bela praia, iluminada pela luz do fim da tarde. Este espaço idílico abriga um casal enamorado, Paulo e Maria – que abre um campo dinâmico de beleza, de alegria, de leveza, de vibrante entusiasmo pela vida, dentro do conto. 
O outro, escrito em letras redondas em linguagem seca e contida, é um  espaço fechado, noturno, estático, restrito ao quarto de um casal – Quim e Lisa - que, nele, sustenta um estéril diálogo.
Quim e Lisa, marido e mulher, estão deitados em sua cama, preparados para dormir: ela, com insônia, carente e agastada, insiste em desviar o marido da leitura, tagarelando sobre assuntos corriqueiros, fazendo perguntas desnecessárias ou queixas com o intuito de fazê-lo voltar-se para ela. Ele, engolfado na leitura de um livro e desinteressado em relação à conversa superficial de Lisa, trata de responder laconicamente aos seus reiterados apelos, mostrando-se mais interessado em fruir, na leitura do livro, as sedutoras peripécias de um casal romanticamente enleado numa relação amorosa perfeita. Tal atitude de indiferença denota a impossibilidade de comunicação, de diálogo e de sintonia entre Quim e Lisa. 
Temos, portanto, uma história fictícia lida pela personagem masculina – Quim-, que se alterna com a história real que este vive com a mulher Lisa, através de sucessivos cortes nos dois fios narrativos em alternância. A partir daí, é inevitável a comparação entre os dois casais, ensejada pela técnica de encaixe de uma segunda história dentro da história principal.
A atitude alheada dele deve-se à história que está lendo, na medida em que esta lhe proporciona uma fuga, uma espécie de “parênteses” na realidade, capaz de isolá-lo da mesmice do mundo opaco em que vive. Na ficção, ele encontra o desafogo, a leveza, a chance de escapar por momentos da realidade tediosa que o rodeia, mergulhando noutra história palpitante de vida, de emoções e de sonhos que a leitura lhe oferece.A história que tanto despertou o interesse de Quim é muito simples: as personagens principais, Paulo e Maria, estão hospedados numa estalagem de praia, num final de inverno, ao entardecer, vivendo momentos deleitosos de cumplicidade, afeto, alegria, paz e entendimento. Os dois brincam, riem, correm pelo areal, saltam poças d´água, deliciam-se com cada minuto que fruem juntos, jantam à luz de uma vela e trocam gestos de afeto, descontraídos e felizes. Vivem, portanto, um tipo de relação cúmplice e permeada de alegrias, afeto e entendimento que, comparada com a mesmice da desgastada relação de Quim com a mulher, muito contribui para pôr em evidência a tediosa rotina do seu casamento, no qual faltam atrativos, sintonia e entendimento, enquanto sobejam o cansaço, a irritação e o aborrecimento, caracterizando o desencontro dos seus dissonantes mundos, agravado pela corrosiva rotina do dia-a-dia do casal.
Os casais das duas histórias vivem vidas opostas. A vida de Quim e Lisa configura-se como uma representação da vida real, enquanto a do outro casal tipifica a vida idealizada, traçada dentro das ilimitadas possibilidades da ficção, bem próxima dos sonhos. Os contrastes entre as duas formas de vida são fundamentais: A história do casal Quim e Lisa, transcorrida no mundo real, é racional, metódica, rotineira, tediosa, espartilhada em pressupostos sociais previsíveis e preestabelecidos. A história de Paulo e Maria é uma projeção dos desejos de muitas pessoas sonhadoras, de índole romântica, avessas à rotina e à mesmice do quotidiano, pessoas que ousam fruir a liberdade e as coisas simples da existência.   
Vale salientar que em todo o desenrolar da trama, fica bem evidenciada a solidão, a amargura, a carência e o conseqüente agastamento de Lisa, decorrente das próprias circunstâncias que cercam sua vida em um casamento em falência, no qual já não há troca de afeto. Todavia, ela não vislumbra fazer mudanças, tornou-se uma escrava das suas atividades rotineiras, vive presa ao seu estreito mundinho convencional. Em sua vida não há espaço aberto ao sonho, à aventura, à outra forma de vida.  Daí não admitir como normal a possibilidade de vivenciar outra realidade, como disse ao marido, após ouvir o relato da história de Paulo e Maria: "Mas isso é só nos filmes dos milionários". "Não me queres convencer que acreditas numa coisa dessas". 
O marido diz que acredita, ouvindo de Lisa o que não gostaria que ela dissesse: "Deu em maluquinho, não deu?" Como resposta, irritado  ele manda que ela “fique quieta”. Este casal, decerto, está muito próximo da separação. Vivem em mundos opostos. Todavia, o que mais interessa nesse conto não são as duas histórias em si mesmas, mas sim a condição existencial das personagens de cada história, as circunstâncias em que vivem e convivem, a denúncia do ser humano esvaziado, desgastado por seu cotidiano corrosivo e alienante.

27 de outubro de 2010

A Causa Secreta, conto de Machado de Assis.

Garcia, em pé, mirava e estalava as unhas; Fortunato, na cadeira de balanço, olhava para o teto; Maria Luísa, perto da janela, concluía um trabalho de agulha. Havia já cinco minutos que nenhum deles dizia nada. Tinham falado do dia, que estivera excelente, - de Catumbi, onde morava o casal Fortunato, e de uma casa de saúde, que adiante se explicará.
Como os três personagens aqui presentes estão agora mortos e enterrados, tempo é de contar a história sem rebuço. Tinham falado também de outra coisa, além daquelas três, coisa tão feia e grave, que não lhes deixou muito gosto para tratar do dia, do bairro e da casa de saúde. Toda a conversação a este respeito foi constrangida. Agora mesmo, os dedos de Maria Luísa parecem ainda trêmulos, ao passo que há no rosto de Garcia uma expressão de severidade, que lhe não é habitual. Em verdade, o que se passou foi de tal natureza, que para fazê-lo entender é preciso remontar à origem da situação. 
Garcia tinha-se formado em medicina, no ano anterior, 1861. No de 1860, estando ainda na Escola, encontrou-se com Fortunato, pela primeira vez, à porta da Santa Casa; entrava, quando o outro saía. Fez-lhe impressão a figura; mas, ainda assim, tê-la-ia esquecido, se não fosse o segundo encontro, poucos dias depois.
Morava na rua de D. Manoel. Uma de suas raras distrações era ir ao teatro de S. Januário, que ficava perto, entre essa rua e a praia; ia uma ou duas vezes por mês, e nunca achava acima de quarenta pessoas. Só os mais intrépidos ousavam estender os passos até aquele recanto da cidade.
Uma noite, estando nas cadeiras, apareceu ali Fortunato, e sentou-se ao pé dele. A peça era um dramalhão, cosido a facadas, ouriçado de imprecações e remorsos; mas Fortunato ouvia-a com singular interesse. Nos lances dolorosos, a atenção dele redobrava, os olhos iam avidamente de um personagem a outro, a tal ponto que o estudante suspeitou haver na peça reminiscências pessoais do vizinho. No fim do drama, veio uma farsa; mas Fortunato não esperou por ela e saiu; Garcia saiu atrás dele.
Fortunato foi pelo beco do Cotovelo, rua de S. José, até o largo da Carioca. Ia devagar, cabisbaixo, parando às vezes, para dar uma bengalada em algum cão que dormia; o cão ficava ganindo e ele ia andando. No largo da Carioca entrou num tílburi, e seguiu para os lados da praça da Constituição. Garcia voltou para casa sem saber mais nada.
Decorreram algumas semanas. Uma noite, eram nove horas, estava em casa, quando ouviu rumor de vozes na escada; desceu logo do sótão, onde morava, ao primeiro andar, onde vivia um empregado do arsenal de guerra. Era este que alguns homens conduziam, escada acima, ensangüentado. O preto que o servia acudiu a abrir a porta; o homem gemia, as vozes eram confusas, a luz pouca. Deposto o ferido na cama, Garcia disse que era preciso chamar um médico.- Já aí vem um, acudiu alguém.
Garcia olhou: era o próprio homem da Santa Casa e do teatro. Imaginou que seria parente ou amigo do ferido; mas rejeitou a suposição, desde que lhe ouvira perguntar se este tinha família ou pessoa próxima. Disse-lhe o preto que não, e ele assumiu a direção do serviço, pediu às pessoas estranhas que se retirassem, pagou aos carregadores, e deu as primeiras ordens.
Sabendo que o Garcia era vizinho e estudante de medicina pediu-lhe que ficasse para ajudar o médico. Em seguida contou o que se passara.
- Foi uma malta de capoeiras. Eu vinha do quartel de Moura, onde fui visitar um primo, quando ouvi um barulho muito grande, e logo depois um ajuntamento. Parece que eles feriram também a um sujeito que passava, e que entrou por um daqueles becos; mas eu só vi a este senhor, que atravessava a rua no momento em que um dos capoeiras, roçando por ele, meteu-lhe o punhal. Não caiu logo; disse onde morava e, como era a dois passos, achei melhor trazê-lo.
- Conhecia-o antes? perguntou Garcia.
- Não, nunca o vi. Quem é?
- É um bom homem, empregado no arsenal de guerra. Chama-se Gouvêa.
- Não sei quem é.
Médico e subdelegado vieram daí a pouco fez-se o curativo, e tomaram-se as informações. O desconhecido declarou chamar-se Fortunato Gomes da Silveira, ser capitalista, solteiro, morador em Catumbi. A ferida foi reconhecida grave. Durante o curativo ajudado pelo estudante, Fortunato serviu de criado, segurando a bacia, a vela, os panos, sem perturbar nada, olhando friamente para o ferido, que gemia muito. No fim, entendeu-se particularmente com o médico, acompanhou-o até o patamar da escada, e reiterou ao subdelegado a declaração de estar pronto a auxiliar as pesquisas da polícia. Os dois saíram, ele e o estudante ficaram no quarto. 



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Comentário de A Causa Secreta, conto de Machado de Assis

A Causa secreta é um dos melhores contos de Machado de Assis e, quiçá, um dos poucos em que faz incursões na área do Naturalismo, devassando as zonas tortuosas e aviltantes das perversões do homem, trazendo à luz a questão do sadismo, abordado com riqueza de detalhes.
Machado elabora uma observação profunda sobre o lado obscuro e abjeto dos sentimentos humanos, acompanhada por uma crítica mordaz à caridade hipócrita.
No conto podemos marcar algumas cenas bastante cruas que revelam o prazer de Fortunato ao presenciar a dor alheia ou ao infringir o sofrimento no outro, considerado por ele como um objeto: o gosto do protagonista pelas cenas sangrentas no teatro, retirando-se nas farsas e representações leves.
Duas outras cenas são marcantes: tinha prazer em dar bengalada em cães que dormiam na calçada, quando vinha dos espetáculos, além da frustração que sentia quando algum doente sobrevivia, como aconteceu com o Gouveia.
A desumana cena do rato sintetiza o alto grau de perversão de Fortunato. Este, ao descobrir que estava sendo observado por Garcia, passa a encenar um jogo do faz-de-conta, fingindo sentir ódio pelo animal, que lhe roubara um papel importante, para que o amigo não o considerasse frio e perverso.
Outra questão colocada no conto é que ao ver as cenas violentas no teatro, projetava nelas o mesmo comportamento perverso que costumava manifestar com os seus pacientes.
O mesmo comportamento é repetido no caso do rato: a simulação do sentimento de ódio pelo roedor equivale à indiferença com que tratou Gouveia, quando este o procurou para agradecer pela "dedicação".
No final da narrativa, a manifestação de sadismo é chocante. Fortunato, ao surpreender Garcia beijando Maria Luísa, assume, sem nenhum pudor, o torpe papel de observador ativo, postado à distância, apreciando a cena, sem o mínimo sentimento de ciúme ou de indignação com a possibilidade traição do amigo. Ao contrário disto, Fortunato fruiu prazerosamente aquela dor “deliciosamente longa”, gozando aquele momento de intenso prazer.
De todas as dores que havia testemunhado, ao longo dos anos como médico do hospital, nenhuma lhe dava mais prazer do que a dor da alma. Portanto, o motivo que o estimulava a fazer tanta caridade nunca foi o desejo de ser útil, o gosto em prestar ajuda aos seus semelhantes, mas sim o interesse em satisfazer o seu prazer perverso de presenciar o sofrimento dos outros. Esta era a “causa secreta” que movia as ações de Fortunato.
Vale ressaltar a forma hábil como Machado de Assis disseca um comportamento doentio, hipócrita, capaz de dar origem a ações altruístas que aparentam ser uma manifestação de imensa bondade e de abnegada dedicação aos que sofrem. Este é uma questionamento recorrente na obra do autor, empenhado em enfatizar um fato que, para ele, traduz uma verdade irretorquível: a absoluta oposição entre a aparência e a essência.