7 de setembro de 2011

Vergílio Ferreira: Uma esplanada sobre o mar.

 
A rapariga estava sentada a uma mesa numa esplanada sobre o mar. Vestia de branco e era loura, mas muito queimada do sol. Ao lado da mesa estava montado um guarda-sol giratório de pano azul que o criado veio regular, para acertar bem a sombra.O criado não perguntou nada e inclinou-se apenas e a rapariga pediu um refresco. Era a meio da tarde e o sol batia em cheio no mar, que se espelhava aqui e além em placas rebrilhantes. O céu estava muito azul e o ar era muito límpido, mas no limite do mar havia uma leve neblina e os barcos que aí passavam tinham os traços imprecisos, como se fossem feitos também de névoa. Na praia que ficava em baixo não havia quase ninguém e o mar batia em pequenas ondas na areia. A espuma era mais branca,iluminada do sol, e o ruído do mar era quase contínuo e espalhado por toda a extensão das águas.
A rapariga de vez em quando olhava ao lado a porta que dava para a esplanada e depois olhava o relógio. Voltava então a olhar o mar e ficava assim sem se mover. Tinha os olhos azuis muito brilhantes, contra a pele morena e o traço negro que os contornava. Foi num desses momentos de alheamento que o rapaz entrou. À porta da esplanada deteve-se um momento a orientar-se por entre as mesas ocupadas, mas logo localizou a rapariga sob o guarda-sol azul. Vestia calça branca e uma camisola amarelada manga curta. E era louro como a rapariga. Quando ela o reconheceu, fez-lhe sinal, mas ele já a tinha visto. Sentou-se-lhe ao pé e olhou em volta como se procurasse alguém. As mesas estavam quase todas ocupadas sob guarda-sóis coloridos e uma ou outra ao sol. Era quase tudo gente jovem, vestida de cores claras de praia.
– Desculpa, fiz-te esperar – disse ele.
– Cheguei há pouco, o criado nem trouxe ainda o que lhe pedi. E que é que me querias dizer?
O criado, com efeito, trazia o refresco para a rapariga, voltou-se para o rapaz a perguntar se tomava alguma coisa.
– Pode ser o mesmo – disse o rapaz.
O sol caía em cheio sobre a praia, iluminava o mar até ao limite do horizonte.
– Que é que me querias dizer? – perguntou de novo a rapariga. Ele sorriu-lhe e tomou-lhe uma das mãos que tinha sobre a mesa.
– Gosto de te ver – disse depois. – Gosto de te ver como nunca. Fica-te bem o vestido branco.
– Já mo viste tanta vez.
– Nunca to vi como hoje. Deve ser do sol e do mar. – Que é que querias?
– Deve ser dos olhos limpos com que to vejo hoje. O criado trouxe o novo refresco e ambos se calaram, tomando as bebidas.
– Não sei para que são tantos mistérios – disse a rapariga. –O melhor é dizeres logo tudo de uma vez.
– Não se trata de mistérios. Trata-se de estar certo o que te disser.
– Porque é que não há-de estar certo? – perguntou a rapariga. – Por tanta coisa – disse o rapaz. – Eu achei que te ficava bem o vestido e tu estranhaste que eu o dissesse.
– Já me tinhas visto o vestido muita vez. Foi só por isso.
– Nunca reparaste que há certas coisas que nós já vimos muitas vezes e que de vez em quando é como se fosse a primeira? – Nunca reparei – disse a rapariga.
– Nunca ficaste a olhar o mar muito tempo?
– Sim, já fiquei.
– Ou o lume de um fogão? – disse o rapaz.
– E que queres dizer com isso?
– Ou uma flor. Ou ouvir um pássaro cantar.
– Sim, sim.
– Não há nada mais igual do que o mar ou o lume ou uma flor. Ou um pássaro. E a gente não se cansa de os ver ou ouvir. Só é preciso que se esteja disposto para achar diferença nessa igualdade. Posso olhar o mar e não reparar nele, porque já o vi. Mas posso estar horas a olhar e não me cansar da sua monotonia.
O rapaz tinha o olhar absorto na extensão das águas e permaneceu calado algum tempo. As águas brilhavam com o reflexo do sol na agitação breve das ondas. A rapariga calava-se também, fitando o rapaz, porque percebia que ele não acabara de falar. Mas o rapaz calou-se como se não tivesse mais nada a dizer e ela perguntou:
– Mas que é que querias dizer-me?
– Mesmo as coisas mais banais são diferentes se alguma coisa importante se passou em nós.
– Se alguma coisa importante se passou em nós, não reparamos nas coisas – disse a rapariga, acendendo um cigarro.
– Se é coisa mesmo importante, tudo se nos transfigura – disse o rapaz, de olhar alheado no horizonte.
– Que coisa importante? – perguntou a rapariga.
Mas ele não respondeu e ela perguntou outra vez:
– Que coisa importante?
– Não sei. Uma coisa importante. Se te morresse o pai e a mãe e ficasses subitamente sozinha, o mundo transfigurava-se.
Se tivesses tentado o suicídio e te salvassem, mesmo as pedras e os cães começavam a ser diferentes. Estavas farta de conhecer os cães e as pedras, mas eles eram diferentes porque os olhavas com outros olhos.
E de novo se calou. Mas agora também a rapariga se calava na indistinta ameaça de não sabia o quê. O sol rodara um pouco,apanhava agora a cabeça do rapaz, incendiando-lhe o cabelo tombado para a testa. Levantou-se, tentou ela fazer girar o guarda-sol azul no pé de ferro articulado, seguro com um gancho recurvo e uma pequena corrente. Sentou-se de novo mas verificou que ficava ela agora com uma mancha de sol que lhe apanhava um ombro e o braço e uma pequena zona da face. Bebeu um pouco de refresco, olhou distraidamente a linha longínqua do limite do mar. Havia no rapaz uma notícia a dar, mas a rapariga não sabia como fazer a pergunta certa para estar certa com a resposta que queria ouvir. E de súbito disse:
– Pediste-me para estar aqui às quatro horas. Telefonaste-me duas vezes. Vieste à praia para isso. Porque é que afinal vieste?
– Mas tenho estado a explicar-te porque vim.
– Tens estado a explicar porque vieste. Mas falta o mais importante. Falta dizeres por exemplo que tudo está acabado entre nós. Falta dizer que essa tal tua amiga sempre conseguiu o que queria. Falta dizer que nunca me achaste tão bela como hoje,mas que já me não podes amar. Falta dizer isso, mas tens de preparar o terreno, porque a coragem nunca foi o teu forte e julgas que não é o meu.
Falava devagar mas com uma grande intensidade interior, e ficou assim ruborizada, os olhos brilhantes de violência. Orapaz ouviu-a e não respondeu. Pensou primeiro concordar com a rapariga e dizer-lhe talvez que já a não amava. E evitava assim ter de lhe dizer a verdade. Quando ela depois a soubesse, talvez já não sofresse, talvez o esquecesse mais depressa. Mas sofreria ele por aceitar uma mentira que ia contra o que sentia. Julgava ser mais fácil dizer tudo e via agora que não.
– Nada disso é verdade – disse por fim.
O mar brilhava cada vez mais. As placas incandescentes tremeluziam nas águas e faziam semicerrar os olhos ao rapaz. Vergou-se para a mesa e bebeu um gole de refresco.
– Há coisas que é difícil dizerem-se – continuou. – É preciso que tudo esteja de acordo. Com esta luz e esta alegria de Verão e este bem-estar de uma esplanada, eu não podia dizer-te, por exemplo, que me vou matar.
– Que estupidez. Mas não tentes desconversar.
– Seria estúpido – disse o rapaz. – Não vou de facto matar-me. Mas não tinha outra maneira de to dizer, se fosse. E seria estúpido, porque tudo estava em desacordo. Não era coisa que se dissesse a uma hora de praia e de sol. A rapariga ficou a olhá-lo algum tempo intensamente, a tentar ouvir-lhe o que já não dizia.
– Nunca está certa, aliás, seja a que hora for – continuou o rapaz. – Tudo pode estar certo talvez a qualquer hora. Menos essa banalidade ridícula da morte. De tudo se pode falar, menos dela. Nem falar, nem filosofar, nem fazer seja o que for que a tenha a ela em conta. Há uma aliança contra ela como contra uma infâmia. Ou como se o não falar a excluísse. E é a única verdade perfeita.
– Mas é uma conversa idiota – disse a rapariga fitando o companheiro de lado, a entender.
– Tudo é erro e ludíbrio: o triunfo, o poder, as ideias, mesmo as matemáticas. Tu pensa no que quiseres e verás que tudo erra. Há só uma coisa que não. E é do que se não pode falar.
O sol baixara um pouco e estendia agora uma estrada de lume pelas águas. Um barco à vela atravessou-a e um momento foi como se as chamas o envolvessem. O rapaz calou-se e a rapariga não sabia que perguntar. Ou tinha várias perguntas, mas não sabia qual estaria certa.
– Sempre fazes exame em Outubro? – disse ela por fim. Tentava contorná-lo ou distraí-lo, para depois o surpreender onde ele não esperasse.
– Não devo fazer – disse o rapaz. – E mesmo não seria nunca em Outubro. Os exames de Outubro são sempre em Novembro ou Dezembro. Às vezes vão mesmo até ao segundo período.
– Por que é que não deves fazer? – perguntou a rapariga.
O rapaz olhou-a no seu vestido de praia, na cor morena da pele, nos cabelos claros que lhe caíam sobre os ombros, e outra vez sentiu que não sabia como responder. Na praia havia já alguns veraneantes à sombra dos toldos ou estendidos ao sol. Um ou outro mergulhava mesmo nas ondas cheias de luz.
– Por que não deves fazer? – insistiu a rapariga. – Tens ainda uns meses para te preparares.
– Creio que um mês chegava-me – respondeu o rapaz. – Mas não adiantava nada.
– Por que não adiantava? – perguntou a rapariga.
Ele ficou em silêncio outra vez, olhando o mar. Tinha uma resposta certa, mas tinha medo dela como se ele próprio a não soubesse.
Depois disse:
– O médico foi claro. Havia um relógio na secretária e olhei as horas. Eram cinco precisas. Estava calmo e reparei. Tenho dois ou três meses no máximo. O tempo contado dia-a-dia. E é extraordinário como tudo agora me parece diferente. Mais belo talvez. Creio que vou viver agora mais intensamente. Dia-a-dia. E três meses no máximo.
– Espera! Três meses como? – disse a rapariga, subitamente iluminada.
Pôs-lhe a mão no braço e olhava-o fixamente. Ele olhou-a também e ambos ficaram a tentar entender-se em silêncio. Depois ela tirou a mão do braço do rapaz e acendeu novo cigarro. O sol escorria do alto e inundava-lhes agora toda a mesa. O rapaz tomou o copo e bebeu um gole devagar.
– Diz outra vez – repetiu a rapariga. – Deixa-me entender. Diz outra vez, para entender tudo muito bem.
– Tu vais dizer que tudo isto é estúpido e eu sei bem que é. Mas se a gente pensar bem, a estupidez é só nossa.
– Sim. Mas explica tudo muito bem. Desde o princípio. Devagarinho.
– A estupidez é só nossa, porque a vida não é verdade. Mas é a única coisa em que se acredita – disse o rapaz.
– Sim – repetiu a rapariga. – Mas era bom que explicasses desde o princípio. Devagarinho. Para eu não acreditar também. Está um dia cheio de sol.
– Mas a explicação é simples – disse ele, balouçando o líquido no fundo do copo. – Eu vou explicar tudo. Eu vou.
Estava uma tarde cheia de sol. As águas brilhavam até ao limite do horizonte, um barco à vela ia passando pela estrada de lume. O ar estava quente. E a brisa do mar quase não chegava ali.

(in Contos, 6.a ed., pp. 243-250, Bertrand Editora, Lisboa, 1995, 256

 

Comentário do conto "Uma esplanada sobre o mar".


O conto, Uma esplanada sobre o mar, é um dos melhores e mais poéticos de Virgílio Ferreira e, também, um dos que mais se abrem a uma reflexão acerca do eterno drama da incomunicabilidade humana. No caso específico deste conto, tal problema tem a sua gênese nas diferenças fundamentais na forma como cada um dos dois únicos personagens, um casal de namorados, encara a realidade, a vida, o que tem e o que não tem importância e, principalmente, na forma como cada um percebe as coisas que o rodeiam.
A incomunicabilidade entre o rapaz e a moça, que tentam se entender, é evidenciada pela dificuldade em sustentarem um diálogo, dificultado pelas diferenças fundamentais que caracterizam a natureza de cada um e, consequentemente, levam-nos a falarem uma linguagem em tudo oposta a do outro.
Ela é superficial e tem uma percepção limitada, não aprendeu a “VER”, com “olhos de ver”, apenas “olha” o mundo que a rodeia, com um olhar que não ultrapassa a realidade imediata. Ele tem uma percepção abrangente e profunda que o torna capaz de “VER” bem além do se consegue com um simples “olhar”, distinguindo os dois planos da realidade – a objetiva e a subjetiva-, ultrapassando o meramente visível. Assim, no conto, é bem significativa a dicotomia olhar/ver, dois verbos que, apesar de indicarem ações semelhantes, têm significados distintos.
Nestes termos, podemos “OLHAR” sem, no entanto, conseguirmos realmente “VER”. O ato de olhar é superficial, o ver é profundo. Daí, a impossibilidade dos dois jovens de sustentarem um diálogo que signifique um autêntico encontro de consciências que se percebem e se entendem com profundidade. Ele, sabendo que tem pouco tempo de vida, não se desespera. Ao contrário disso, passa a ver o mundo com outros olhos, passa a dar uma importância maior às pequenas coisas da vida, da natureza, de tudo quanto sabe que em pouco tempo irá perder. A revelação do seu médico sobre a sua inevitável morte dentro de, no máximo, três meses, desperta-o para a beleza da vida, leva-o a perceber coisas que antes não percebia ou para as quais não dava importância.
Durante as tentativas frustradas de diálogo entre eles, a expressão que se repete é “coisa importante”. Todavia, a expressão não tem o mesmo valor para o rapaz e para a moça. Ele tem uma visão alargada e profunda, sobre o que é, realmente, importante, enquanto ela tem uma visão limitada e superficial sobre a mesma coisa. O fato de não encararem a importância das coisas com a mesma intensidade provoca distanciamento, incompreensão e dúvidas, que resultam no agravamento da ausência de comunicação entre eles.
O rapaz tem uma atitude constante de observação e de reflexão. Enfim, o fato de saber que a sua vida está se esvaindo, impulsiona-o a ver o mundo como se o visse pela primeira vez, como se tudo fosse uma novidade não percebida antes, mais bela, mais luminosa e mais viva. Ele expressa para a jovem as razões que o levam a adotar esta forma de ver e sentir. Ela não o compreende e fica em dúvida acerca das reflexões do namorado, interpretando sua atitude, inclusive o convite para se encontrarem na esplanada por ter algo importante para revelar, como uma forma de ir ganhando tempo para ter coragem de dizer que quer terminar o namoro.
Se, por um lado, ela não compreende as reflexões dele, por outro lado, ele não responde diretamente às suas perguntas, aumentando a sua ansiedade e as suas dúvidas. Somente no final o rapaz revela que está com os dias contados.“Estava uma tarde cheia de sol. As águas brilhavam até ao limite do horizonte, um barco à vela ia passando pela estrada de lume. O ar estava quente. E a brisa do mar quase não chegava ali”. Com essas palavras, a narrativa é encerrada, remetendo para a simbologia do mar, do sol e do barco, elementos várias vezes referidos no decurso da ação.
Segundo a definição do Dicionário dos símbolos, de Jean Chevalier: “a barca é o símbolo da viagem, de uma travessia efetuada seja pelos vivos, seja pelos mortos”. No conto, o barco representa a travessia do rapaz da vida para a morte. A posição do sol é de declínio no horizonte. É o ocaso, significando a morte metafórica do sol. Há uma referência à estrada de lume que vai até o horizonte, apontando para um caminho de luz para o pôr-do-sol, para o infinito, para o fim da vida, enfim: para a morte. As simbologias do sol e do barco mostram, poeticamente, de que forma os elementos da natureza – o mar e o sol – se identificam com a situação vivida pelo rapaz.

Zenóbia Collares Moreira Cunha 

27 de julho de 2011

José Gomes Ferreira : A Reportagem do Medo



Quero lá saber de Lisboa de pedra histórica, com ortigas nos pátios, nespereiras nos balcões e palácios de bafio como museus de silêncio podre.
Nas cidades – e nos rios – interessa-me menos o leito pedregoso do que a corrente de pessoas vivas a rolarem Poe essas calçadas de manhã até à noite, cada qual pegada à sua sombra: esta a chorar porque lhe apareceu morto o canário na gaiola; aquele com olhos de letra a vencer amanhã; outra com o filho moribundo embrulhado no xaile roto; outra, ainda desventurosa porque lhe fugiu uma malha da meia, e todos com a morte marcada para depois de amanhã.
Descobrir as tragédias e as farsas dessa multidão diária que cobre de carne humana e de tumulto os rossios, as janelas, as igrejas, os elétricos, os cafés e as tabernas, eis uma das mais deleitosas ocupações do meu destino de espectador das ruas, espectador sui generis aliás, pois não me limito a assistir à vida do camarote do meu segundo andar, mas a saltar, de vez em quando, a pés juntos, para o palco e a representar também algumas “rábulas”.
Rábulas, por sinal, nem sempre felizes, como a que o Fado me distribuiu no último dramazinho colectivo levado inconscientemente à cena por todos nós (título: A parada dos lívidos ou Ó medricas, compra um cão) e em que interpretei, e continuo a interpretar com heroísmo p papel de 1º Pálido.
Por infortúnio, só muito tarde, talvez meses depois da primeira representação, tomei consciência da linda figura que andava a fazer por essas travessas e avenidas.
Ao princípio, confesso, o papel não me desagradou.
Nada de grave, aparentemente. Prudência, apenas. Um evitar mole de sarilhos. A aceitação quotidiana de pequenas injustiças à minha roda. (Oh, só as pequeninas injustiças sem importância. Lá as grandes, não. Nisso de grandes injustiças sou simplesmente feroz, acreditem.)
E assim, pouco a pouco, resvalei até este cômodo estado de admitir sem indignação todas as mesquinhas infâmias do dia-a-dia que, em tempos anteriores, segundo garantem os poucos cavaleiros andantes sobreviventes, provocavam, por via de regra, embates, socos e mãos de polícias a apartar.
Hoje não. Ainda esta manhã vi um brutamontes, com olheiras de tanguista e ombros de moço de recados, atirar um encontrão a uma velhota para lhe roubar o lugar no eléctrico, e ninguém soltou pio.
A pobre senhora, meio tonta, alheada do que se passava em redor, escancarou os olhos numa fixidez de assombro diante do burburinho do mundo.
Pois da plataforma apinhada de homens válidos, como eu, não saiu um único protesto.
Alguns empalideceram. Oh, sim, alguns ficaram brancos de cal e cravaram unhas enfurecidas nas palmas das mãos.
Mas o grito não se ouviu.
Bico calado. Ausência completa de dons-quixotes. Todos a pensarem nas vidinhas, nos destinos exíguos ao molde da alma de cada um.
Que lhes importavam o atropelo, a prepotência, o pontapé nas canelas do vizinho, o insulto, a calúnia, o apalpão impotente, o abuso do mais forte, as rasteiras e os pinhões nos velhos?
Alguns – coitados -, os derradeiros quixotes pusilânimes, empalideceram. Outros tornaram-se verdes, a expelir as clássicas labaredas de ira pelos olhos.
Mas todos acabaram por engolir o grito e passar adiante...
Porque os portugueses de hoje, infelizmente, passam sempre adiante.
Vejam, vejam: agora mesmo, no meio da rua, aquela mulher, esfericamente gorda, desatou a espancar o filho de 6 anos e olhos enormes do tamanho de todas as lágrimas dos homens.
Porquê? Ninguém percebeu.
Bateu-lhe, pronto. Talvez para se vingar de qualquer pensamento humilhante. Talvez – quem sabe? – apenas para desenvolver os músculos dos braços.
Bateu-lhe. Pregou-lhe uma coça. Fez a ginástica do desespero. Rasgou-lhe os lábios com unhas maternais. Humilhou-o diante do sol. Esbofeteou-o.
E eu como reagi?
Claro, o meu primeiro instinto foi este: dar um pulo, fincar-lhe as mãos no pescoço e intimá-la a pedir perdão ao filho, ali mesmo, de joelhos.
Mas com grande espanto meu – cheio de comícios por dentro e de impassibilidade por fora – prossegui friamente o meu caminho, a fumar um cigarro abstrato, com a voz de D. Quixote entalada na garganta.
Há dias, o mesmo vexame.
Uma multidão de palermas desnecessários escarnecia dum doido, e eu passei adiante, sem sequer esboçar a raiva de me insurgir.
Como de costume, tornei-me muito pequenino, meti-me dentro do meu coração parvo, e o pobre maluco lá continuou a deixar-se esquartejar pelas feras.
Vocês conhecem-no, com certeza.
É um homem alto e gordo, de cara redonda, cabeleira à poeta, olhos infantis, fraque sebento, que aos domingos aparece por essas encruzilhadas a dirigir, com as mãos e um apito, o trânsito dos carros.
A história da sua vida... até apetece fazer literatura. E, no entanto, pode relatar-se em meia dúzia de palavras irônicas.
Um dia, um automóvel qualquer atropelou-lhe o filho, e ele, muito naturalmente, endoideceu.
De facto, que queriam que ele fizesse senão endoidecer?
Em lugar de sofrer em voz alta, de representar mais uma vez a comédia da dor humana aos soluços sobre o cadáver do filho, numa tentativa inútil de ressurreição, pôs-se a rir de mansinho. E comprou um fraque. E deixou crescer o cabelo. E veio para a rua vestido de polícia sinaleiro voluntário. E, por fim, começou a freqüentar os jardins públicos para tomar conta dos garotelhos, defende-los dos automóveis e dançar, com grande agitação desarticulada, o giroflé-giroflá.
Nos primeiros tempos, as mães, mal o divisavam, advertiam os meninos por precaução:
-Ó José! Ó Raul! Ó António! Venham para o pé da mamã!
Mas agora já lhe entregam os filhos, confiantes. Até lhe sorriem. E os fedelhos, por sua vez, agarram-se ao pobre bobo, despenteiam-no, desfazem-lhe o laço da gravata, como se se tratasse dum espantalho público, enviado para os jardins pela Câmara Municipal com o intuito de divertir as crianças – e não dum homem verdadeiro com coração de carne e dor autêntica na alma.
Pois eu vi a multidão alarve achincalhar este homem – e não me revoltei.
Vi, “claramente visto”, um rapaz com cara de estupidez inchada pregar-lhe um pontapé nas abas – e não tirei as mãos dos bolsos.
Não protestei. E tu também não. Nem tu que és sócio da Liga dos Direitos do Homem. Nem mesmo tu, da Sociedade Protectora dos Animais. Ninguém protestou.
Sorrimos todos, pingamos todos, sofremos todos teoricamente, e passamos adiante, curvos de vergonha da nossa raça de dons-quixotes covardes e sem emenda.
Sim, e sem emenda, porque ainda ontem... ah! Ontem...
Digam-me uma coisa: porque não fui às ventas daquele miserável que, por mera reinação, derrubou, com uma palmada imprevista, a caixa de charutos cheia de sinas que um miúdo estava a tentar impingir aos transeuntes, ali na esquina da Avenida?
O catraio, sujo de miséria, ergueu a voz, a barafustar num choro fundo contra a injustiça do universo. Várias pessoas rodearam-no logo. Homens e mulheres. Damas de seios altos. Senhores de chapéus de chuva enrolados. E os tais eternos lívidos com as unhas enterradas na carne.
Mas não. Ainda não foi dessa vez que se ouviu o grito.
Só o choramingar vão do garoto a procurar reunir os papeluchos das sinas, dispersos pelo vento...

*
*   *         
Subi lentamente a Avenida e parei na ponte dum dos lagos, a olhar para os peixes. Em baixo, na água, a minha imagem...
Desfi-la com cuspo.
Há momentos em que os homens não têm direito às suas imagens!

(De O mundo dos outros, Portugália Ed.)



COMENTÁRIO


Poeta e ficcionista já falecido, José Gomes Ferreira é o escritor do homem social. Ele tem uma consciência social e uma atitude humana vigorosamente assumidas. Como filiado ao Partido Comunista e participante do Neorealismo portugueses, critica vigorosamente a sociedade burguesa à qual pertence, dentro dela própria, fazendo a sua desconstrução, a sua crítica e o desmascaramento das suas mazelas.
Em “A Reportagem do Medo” o autor discorre sobre fatos do cotidiano em uma cidade grande, no caso Lisboa. O narrador, inicia o relato numa posição privilegiada: do alto de uma janela do 2º andar de um prédio. Dali, observa a rua e tudo vê com aguçada consciência crítica e auto-crítica (notar que o narrador é impiedoso consigo próprio por se saber um omisso).
A narrativa tem um narrador homodiegético (narrador e personagem testemunha dos fatos narrados) que execra severamente a decadência dos valores sociais e humanos da sociedade burguesa sua contemporânea. A presença do narratário é marcante no texto: ouvintes, testemunhas dos fatos narrados, leitores virtuais da “reportagem”, trazidos à narrativa como testemunhas daquilo que decerto para eles não é novidade: a derrocada dos valores sociais dos habitantes da cidade.
O texto começa fazendo um paralelo entre duas realidades: Portugal do passado e Portugal do presente. Todavia, o olhar do narrador para o passado não significa uma valorização dos seus aspectos históricos, mas sim os que dizem respeito à mudança nas atitudes e nos comportamentos humanos, verificados no transcorrer do tempo, extinguindo o cavalheirismo, a gentileza, a boa educação, o respeito pelo outro e a probidade que existiam no Portugal do passado.  No lugar desses valores sociais e humanos, o que impera no Portugal contemporâneo ao autor são outros atributos bem opostos aos que eram cultivados outrora: a opressora covardia, a brutalidade e a irreverência dos mais fortes sobre os mais fracos (os oprimidos e impotentes) e os que, motivados pelo medo, se colocam como meros espectadores das injustiças e atos de selvageria que testemunha, sem esboçar o mínimo gesto para defender aqueles que sofrem a ação da força bruta. Estes são os eternos omissos, dentre os quais o narrador, ele próprio, se coloca.
  O contexto social é retratado como um conjunto de injustiças, violências, covardias, omissões e, especialmente, de intenso medo. É como se as pessoas houvessem perdido todo o sentido de atos como a coragem, a bondade, a solidariedade, a ética e a noção do respeito pelos seus semelhantes.
Trata-se, portanto, de um texto típico do Neo-Realismo, caracterizado pelos posicionamentos críticos do autor em relação à sociedade portuguesa do seu tempo.