15 de junho de 2011

Machado de Assis: "O Relógio de Ouro".

Agora contarei a história do relógio de ouro. Era um grande cronômetro, inteiramente novo, preso a uma elegante cadeia. Luís Negreiros tinha muita razão em ficar boquiaberto quando viu o relógio em casa, um relógio que não era dele, nem podia ser de sua mulher. Seria ilusão dos seus olhos? Não era; o relógio ali estava sobre uma mesa da alcova, a olhar para ele, talvez tão espantado, como ele, do lugar e da situação. 
Clarinha não estava na alcova quando Luís Negreiros ali entrou. Deixou-se ficar na sala, a folhear um romance, sem corresponder muito nem pouco ao ósculo com que o marido a cumprimentou logo à entrada. Era uma bonita moça esta Clarinha, ainda que um tanto pálida, ou por isso mesmo. Era pequena e delgada; de longe parecia uma criança; de perto, quem lhe examinasse os olhos, veria bem que era mulher como poucas. Estava molemente reclinada no sofá, com o livro aberto, e os 
olhos no livro, os olhos apenas, porque o pensamento, não tenho certeza se estava no livro, se em outra parte. Em todo o caso parecia alheia ao marido e ao relógio. 
Luís Negreiros lançou mão do relógio com uma expressão que eu não me atrevo a descrever. Nem o relógio, nem a corrente eram dele; também não eram de pessoas suas conhecidas. Tratava-se de uma charada. Luís Negreiros gostava de charadas, e passava por ser decifrador intrépido; mas gostava de charadas nas folhinhas ou nos jornais. Charadas palpáveis ou cronométricas, e sobretudo sem conceito, não as apreciava Luís Negreiros. 
Por este motivo, e outros que são óbvios, compreenderá o leitor que o esposo de Clarinha se atirasse sobre uma cadeira, puxasse raivosamente os cabelos, batesse com o pé no chão, e lançasse o relógio e a corrente para cima da mesa. Terminada esta primeira manifestação de furor, Luís Negreiros pegou de novo nos fatais objetos, e de novo os examinou. Ficou na mesma. Cruzou os braços durante algum tempo e refletiu sobre o caso, interrogou todas as suas recordações, e concluiu no fim de tudo que, sem uma explicação de Clarinha, qualquer procedimento fora baldado ou precipitado. 
Foi ter com ela. Clarinha acabava justamente de ler uma página e voltava a folha com o ar indiferente e tranqüilo de quem não pensa em decifrar charadas de cronômetro. Luís Negreiros encarou-a; seus olhos pareciam dous reluzentes punhais. 
— Que tens? perguntou a moça com a voz doce e meiga que toda a gente concordava em lhe achar. 
Luís Negreiros não respondeu à interrogação da mulher; olhou algum tempo para ela; depois deu duas voltas na sala, passando a mão pelos cabelos, por modo que a moça de novo lhe perguntou: 
— Que tens? Luís Negreiros parou defronte dela. 
— Que é isto? disse ele tirando do bolso o fatal relógio e apresentando-lho diante dos olhos. Que é isto? repetiu ele com voz de trovão. 
Clarinha mordeu os beiços e não respondeu. Luís Negreiros esteve algum tempo com o relógio na mão e os olhos na mulher, a qual tinha os seus olhos no livro. O silêncio era profundo. Luís Negreiros foi o primeiro que o rompeu, atirando estrepitosamente o relógio ao chão, e dizendo em seguida à esposa:
— Vamos, de quem é aquele relógio? 
Clarinha ergueu lentamente os olhos para ele, abaixou-os depois, e murmurou: — Não sei. 
Luís Negreiros fez um gesto como de quem queria esganá-la; conteve-se. A mulher levantou-se, apanhou o relógio e pô-lo sobre uma mesa pequena. Não se pôde conter Luís Negreiros. Caminhou para ela, e, segurando-lhe nos pulsos com força, lhe disse: — Não me responderás, demônio? Não me explicarás esse enigma? 
Clarinha fez um gesto de dor, e Luís Negreiros imediatamente lhe soltou os pulsos que estavam arrochados. Noutras circunstâncias é provável que Luís Negreiros lhe caísse aos pés e pedisse perdão de a haver machucado. Naquela, nem se lembrou disso; deixou-a no meio da sala e entrou a passear de novo, sempre agitado, parando de quando em quando, como se meditasse algum desfecho trágico. Clarinha saiu da sala. Pouco depois veio um escravo dizer que o jantar estava na mesa. 
— Onde está a senhora? 
— Não sei, não senhor. 
Luís Negreiros foi procurar a mulher; achou-a numa saleta de costura, sentada numa cadeira baixa, com a cabeça nas mãos a soluçar. Ao ruído que ele fez na ocasião de fechar a porta atrás de si, Clarinha levantou a cabeça, e Luís Negreiros pôde ver-lhe as faces úmidas de lágrimas. Esta situação foi ainda pior para ele que a da sala. Luís Negreiros não podia ver chorar uma mulher, sobretudo a dele. Ia enxugar-lhe as lágrimas com um beijo, mas reprimiu o gesto, e caminhou frio para ela; puxou uma cadeira e sentou-se em frente de Clarinha. 
— Estou tranqüilo, como vês, disse ele, responde-me ao que te perguntei com a franqueza que sempre usaste comigo. Eu não te acuso nem suspeito nada de ti. Quisera simplesmente saber como foi parar ali aquele relógio. Foi teu pai que o esqueceu cá? 
— Não. 
— Mas então... 
— Oh! não me perguntes nada! exclamou Clarinha; ignoro como esse relógio se acha ali... Não sei de quem é... deixa-me. 
— É demais! urrou Luís Negreiros, levantando-se e atirando a cadeira ao chão. 
Clarinha estremeceu, e deixou-se ficar aonde estava. A situação tornava-se cada vez mais grave; Luís Negreiros passeava cada vez mais agitado, revolvendo os olhos nas órbitas, e parecendo prestes a atirar-se sobre a infeliz esposa. Esta, com os cotovelos no regaço e a cabeça nas mãos, tinha os olhos encravados na parede. Correu assim cerca de um quarto de hora. Luís Negreiros ia de novo interrogar a esposa, quando ouviu a voz do sogro, que subia as escadas gritando: 
— Ó seu Luís! ó seu malandrim! 
— Aí vem teu pai! disse Luís Negreiros; logo me pagarás. Saiu da sala de costura e foi receber o sogro, que já estava no meio da sala, fazendo vira-voltas com o chapéu de sol, com grande risco das jarras e do candelabro.
— Vocês estavam dormindo? perguntou o Sr. Meireles tirando o chapéu e limpando a testa com um grande lenço encarnado. 
— Não, senhor, estávamos conversando... 
— Conversando?... repetiu Meireles. E acrescentou consigo: "Estavam de arrufos... é o que há de ser". 
— Vamos justamente jantar, disse Luís Negreiros. Janta conosco?
— Não vim cá para outra coisa, acudiu Meireles; janto hoje e amanhã também. Não me convidaste, mas é o mesmo. 
— Não o convidei?... 
— Sim, não fazes anos amanhã? — Ah! é verdade... Não havia razão aparente para que, depois destas palavras ditas com um tom lúgubre, Luís Negreiros repetisse, mas desta vez com um tom descomunalmente alegre: — Ah! é verdade!... 
 Meireles, que já ia pôr o chapéu num cabide do corredor, voltou-se espantado para o genro, em cujo rosto leu a mais franca, súbita e inexplicável alegria. — Está maluco! disse baixinho Meireles. 
 — Vamos jantar, bradou o genro, indo logo para dentro, enquanto Meireles seguindo pelo corredor ia ter à sala de jantar. Luís Negreiros foi ter com a mulher na sala de costura, e achou-a de pé, compondo os cabelos diante de um espelho: — Obrigado, disse. 
A moça olhou para ele admirada. 
— Obrigado, repetiu Luís Negreiros; obrigado e perdoa-me. Dizendo isto, procurou Luís Negreiros abraçá-la; mas a moça, com um gesto nobre, repeliu o afago do marido e foi para a sala de jantar. 
 — Tem razão! murmurou Luís Negreiros. Daí a pouco achavam-se todos três à mesa do jantar, e foi servida a sopa, que Meireles achou, como era natural, de gelo. Ia já fazer um discurso a respeito da incúria dos criados, quando Luís Negreiros confessou que toda a culpa era dele, porque o jantar estava há muito na mesa. A declaração apenas mudou o assunto do discurso, que versou então sobre a terrível coisa que era um jantar requentado, — qui ne valut jamais rien. 
 Meireles era um homem alegre, pilhérico, talvez frívolo demais para a idade, mas em todo o caso interessante pessoa. Luís Negreiros gostava muito dele, e via correspondida essa afeição de parente e de amigo, tanto mais sincera quanto que Meireles só tarde e de má vontade lhe dera a filha. 
Durou o namoro cerca de quatro anos, gastando o pai de Clarinha mais de dous em meditar e resolver o assunto do casamento. Afinal deu a sua decisão, levado antes das lágrimas da filha que dos predicados do genro, dizia ele. A causa da longa hesitação eram os costumes pouco austeros de Luís Negreiros, não os que ele tinha durante o namoro, mas os que tivera antes e os que poderia vir a ter depois. 
Meireles confessava ingenuamente que fora marido pouco exemplar, e achava que por isso mesmo devia dar à filha melhor esposo do que ele. Luís Negreiros desmentiu as apreensões do sogro; o leão impetuoso dos outros dias, tornou-se um pacato cordeiro. A amizade nasceu franca entre o sogro e o genro, e Clarinha passou a ser uma das mais invejadas moças da cidade. E era tanto maior o mérito de Luís Negreiros quanto que não lhe faltavam tentações. O diabo metia-se às vezes na pele de um amigo e ia convidá-lo a uma recordação dos antigos tempos. Mas Luís Negreiros dizia que se recolhera a bom porto e não queria arriscar-se outra vez às tormentas do alto mar. 
 Clarinha amava ternamente o marido, e era a mais dócil e afável criatura que por aqueles tempos respirava o ar fluminense. Nunca entre ambos se dera o menor arrufo; a limpidez do céu conjugal era sempre a mesma e parecia vir a ser duradoura. Que mau destino lhe soprou ali a primeira nuvem? 
Durante o jantar Clarinha não disse palavra, — ou poucas dissera, ainda assim as mais breves e em tom seco. 
"Estão de arrufo, não há dúvida, pensou Meireles ao ver a pertinaz mudez da filha. 
"Ou a arrufada é só ela, porque ele parece-me lépido." 
 Luís Negreiros efetivamente desfazia-se todo em agrados, mimos e cortesias com a mulher, que nem sequer olhava em cheio para ele. 
O marido já dava o sogro a todos os diabos, desejoso de ficar a sós com a esposa, para a explicação última, que reconciliaria os ânimos. Clarinha não parecia desejá-lo; comeu pouco e duas ou três vezes soltou-se-lhe do peito um suspiro. Já se vê que o jantar, por maiores que fossem os esforços, não podia ser como nos outros dias. Meireles sobretudo achava-se acanhado. Não era que receasse algum grande acontecimento em casa; sua idéia é que sem arrufos não se aprecia a felicidade, como sem tempestade não se aprecia o bom tempo. Contudo, a tristeza da filha sempre lhe punha água na fervura. 
 Quando veio o café, Meireles propôs que fossem todos três ao teatro; Luís Negreiros aceitou a idéia com entusiasmo. Clarinha recusou secamente. 
 — Não te entendo hoje, Clarinha, disse o pai com um modo impaciente. Teu marido está alegre e tu pareces-me abatida e preocupada. Que tens? 
 Clarinha não respondeu; Luís Negreiros, sem saber o que havia de dizer, tomou a resolução de fazer bolinhas de miolo de pão. Meireles levantou os ombros. 
 — Vocês lá se entendem, disse ele. Se amanhã, apesar de ser o dia que é, vocês estiverem do mesmo modo, prometo-lhes que nem a sombra me verão. 
 — Oh! há de vir, ia dizendo Luís Negreiros, mas foi interrompido pela mulher, que desatou a chorar. O jantar acabou assim triste e aborrecido. Meireles pediu ao genro que lhe explicasse o que aquilo era, e este prometeu que lhe diria tudo em ocasião oportuna. 
 Pouco depois saía o pai de Clarinha protestando de novo que, se no dia seguinte os achasse do mesmo modo, nunca mais voltaria a casa deles, e que se havia coisa pior que um jantar frio ou requentado, era um jantar mal digerido. Este axioma valia o de Boileau, mas ninguém lhe prestou atenção. 
 Clarinha fora para o quarto; o marido, apenas se despediu do sogro, foi ter com ela. Achou-a sentada na cama, com a cabeça sobre uma almofada, e soluçando. Luís Negreiros ajoelhou-se diante dela e pegou-lhe numa das mãos. 
 — Clarinha, disse ele, perdoa-me tudo. Já tenho a explicação do relógio; se teu pai não me fala em vir jantar amanhã, eu não era capaz de adivinhar que o relógio era um presente de anos que tu me fazias. 
 Não me atrevo a descrever o soberbo gesto de indignação com que a moça se pôs de pé quando ouviu estas palavras do marido. Luís Negreiros olhou para ela sem compreender nada. A moça não disse uma nem duas; saiu do quarto, e deixou o infeliz consorte mais admirado que nunca. 
 "Mas que enigma é este? perguntava a si mesmo Luís Negreiros. Se não era um mimo de anos, que explicação pode ter o tal relógio?" 
 A situação era a mesma que antes do jantar. Luís Negreiros assentou de descobrir tudo naquela noite. Achou, entretanto, que era conveniente refletir maduramente no caso e assentar numa resolução que fosse decisiva. Com este propósito recolheu-se ao seu gabinete, e ali recordou tudo o que se havia passado desde que chegara a casa. Pesou friamente todas as razões, todos os incidentes, e buscou reproduzir na memória a expressão do rosto da moça, em toda aquela tarde. O gesto de indignação e a repulsa quando ele a foi abraçar na sala de costura, eram a favor dela; mas o movimento com que mordera os lábios no momento em que ele lhe apresentou o relógio, as lágrimas que lhe rebentaram à mesa, e mais que tudo o silêncio que ela conservava a respeito da procedência do fatal objeto, tudo isso falava contra a moça. 
 Luís Negreiros, depois de muito cogitar, inclinou-se à mais triste e deplorável das hipóteses. Uma idéia má começou a enterrar-se-lhe no espírito, à maneira de verruma, e tão fundo penetrou, que se apoderou dele em poucos instantes. Luís Negreiros era homem assomado quando a ocasião o pedia. Proferiu duas ou três ameaças, saiu do gabinete e foi ter com a mulher. 
 Clarinha recolhera-se de novo ao quarto. A porta estava apenas cerrada. Eram nove horas da noite. Uma pequena lamparina alumiava escassamente o aposento. A moça estava outra vez assentada na cama, mas já não chorava; tinha os olhos fitos no chão. Nem os levantou quando sentiu entrar o marido. Houve um momento de silêncio. Luís Negreiros foi o primeiro que falou.
 — Clarinha, disse ele, este momento é solene. Responde-me ao que te pergunto desde esta tarde? 
 A moça não respondeu. 
 — Reflete bem, Clarinha, continuou o marido. Podes arriscar a tua vida. 
 A moça levantou os ombros. Uma nuvem passou pelos olhos de Luís Negreiros. O infeliz marido lançou as mãos ao colo da esposa e rugiu: 
 — Responde, demônio, ou morres! 
 Clarinha soltou um grito. — Espera! disse ela. 
 Luís Negreiros recuou. 
— Mata-me, disse ela, mas lê isto primeiro. Quando esta carta foi ao teu escritório já te não achou lá: foi o que o portador me disse. Luís Negreiros recebeu a carta, chegou-se à lamparina e leu estupefato estas linhas:

"Meu nhonhô. Sei que amanhã fazes anos; mando-te esta lembrança Tua Iaiá." 


A SEGUIR, O COMENTÁRIO DO CONTO.

Comentário do conto "O relógio de ouro".

Da mesma forma que Machado de Assis transitou do romantismo para o realismo em seus romances, também nos seus contos ele realizou a mesma mudança: de romântico ele passou a realista. 
Como adepto do realismo literário, o escritor revelou uma notória preocupação com a análise das personagens, mais do que com a ação, como pode ser observado no conto “O relógio de ouro”, no qual, alia o humor à ironia para criticar o ser humano e suas fraquezas, suas idiossincrasias, suas mesquinharias e complexidade psicológica.
“O relógio de ouro” tem como núcleo narrativo o drama conjugal vivido por Clara e Luís Negreiros, tumultuados pela recíproca desconfiança de adultério provocada por um relógio de ouro masculino, encontrado pelo marido na alcova do casal. A partir daí, instaura-se o suspense e a dúvida que se prolongará até o surpreendente final do dramático conflito. 
A situação ambígua e tensa vivida pelo casal é nutrida pelo próprio narrador que prodigaliza indícios capazes de levar o leitor a supor que Clarinha é, de fato, adúltera. Seus gestos, seu laconismo, sua recusa em responder aos insistentes questionamentos do marido, indignado e beirando um ataque de nervos, que exige que ela confesse uma culpa, sem desconfiar que está equivocado, pois é ele o verdadeiro adúltero, e a esposa tem as provas de sua infidelidade.
O próprio narrador fortalece a ambigüidade resultante do comportamento silencioso e esquivo de Clarinha, na medida em que este, mesmo fruindo o estatuto da heterodiegese e da onisciência que lhe é adstrita, jamais se revela conhecedor dos sentimentos e pensamentos da protagonista, enquanto tem conhecimento pleno do que sentem e pensam Luís Negreiros e Meireles (pai de Clara).
As atitudes ambíguas de Clarinha derivadas dos seus silêncios, seus choros, sua tristeza, sua sistemática recusa aos afagos do marido, sua insistência em não explicar a origem do relógio, abre espaço alargado para reforçar as suposições que pesam contra ela. Nestes termos, todo o suspense da narrativa concentra-se em Clarinha. Todavia, a chegada de Meireles, pai da protagonista, parece propiciar uma explicação lógica para o enigma em torno o nefasto relógio, ao lembrar o aniversário do genro no dia seguinte. Tal lembrete causa súbita alegria em Luís Negreiros, mas, por outro lado, o leva a um novo equívoco ao supor que o cronômetro seria um presente da esposa para ele. 
Parecia que o conflito chegaria ao fim. Ansioso pela saída do sogro, Luís Negreiros, logo que se desvencilha da visita, corre em busca da mulher, para penitenciar-se por ter duvidado dela. Neste ponto, leitor e marido já dão por encerrada a pendência entre os cônjuges. Ledo engano. Outra surpresa aguarda Luís Negreiros que, perplexo e indignado, ouve a recusa da esposa de fazer as pazes com ele e, mais uma vez, recusa-se a dar as respostas exigidas por ele, retirando-se do quarto, deixando-o atônito:“Não me atrevo a descrever o soberbo gesto de indignação com que Negreiros olhou para ela sem compreender nada. A moça não disse uma nem duas palavras; saiu do quarto e deixou o infeliz consorte mais admirado que nunca.
"- Mas que enigma é este? perguntava a si mesmo Luís Negreiros. Se não era um mimo de anos, que explicação pode ter o tal relógio? Novamente, os gestos da moça prevalecem e expõem a explicação frágil do aparecimento do relógio, instaurando mais uma vez a suspeita diante da mulher”.
O suspense que parecia resolvido, volta com mais força, trazendo em seu bojo todas as desconfianças que recaiam sobre Clara. Pela última vez, o marido que se julgava injuriado, interpela a mulher:
“— Clarinha, disse ele, este momento é solene. Responde-me ao que te pergunto desde esta tarde?  A moça não respondeu. 
— Reflete bem, Clarinha, continuou o marido. Podes arriscar a tua vida.  
A moça levantou os ombros.  
Uma nuvem passou pelos olhos de Luís Negreiros. O infeliz marido lançou as mãos ao colo da esposa e rugiu: 
— Responde, demônio, ou morres!  Clarinha soltou um grito. 
— Espera! disse ela.  Luís Negreiros recuou. 
— Mata-me, disse ela, mas lê isto primeiro. Quando esta carta foi ao teu escritório já te não achou lá: foi o que o portador me disse. " 
 Luís Negreiros recebeu a carta, chegou-se à lamparina e leu estupefato estas linhas: 
"Meu nhonhô. Sei que amanhã fazes anos; mando-te esta lembrança Tua Iaiá." 
Vale lembrar que, no século XIX, era comum e considerado legítima defesa à honra o assassinato da esposa adúltera pelo marido ultrajado. É neste ponto que sobrevem o surpreendente desfecho do drama com a revelação do mistério do relógio. A entrega ao furibundante marido que a ameaçava de morte, de um bilhete comprometedor, interceptado por ela, ao receber o relógio, na verdade enviado pela amante do marido. Ali estava a prova insofismável e desmoralizante da culpa de Luís Medeiros, bem como a causa motivadora das atitudes de Clarinha .
A situação dramática que se instaurou entre o casal, não deixa de ter certa dose de humor, bem ao estilo machadiano, desencadeada pelo equívoco e pela espalhafatosa atitude do marido traidor, exigindo da mulher inocente a confissão de uma torpe prevaricação que era praticada por ele.
O conto põe em questão o casamento burguês e a situação da mulher casada na sociedade patriarcalista novecentista, na qual o adultério da mulher era razão suficiente para justificar e deixar impune o marido, se este a matasse na defesa honra manchada.
Para finalizar, vêm as perguntas que não querem calar: O que motivou Clarinha a esconder o bilhete, ou, deixar de mostrá-lo ao marido no momento em que este começou a submetê-la a interrogatórios humilhantes e injuriosos? Por que optou pelo silêncio que lhe propiciou tantos vexames e tortura mental, impingidos por um marido infiel e hipócrita que, arrogantemente, lhe lançava em rosto uma acusação injuriosa e injusta, da qual ela era inocente?
Responder a tais indagações requer que façamos inferências na área da interpretação, sem compromisso de assegurar a certeza sobre o que opinamos. Porém, vários indícios textuais leva-nos a crer que Clara tinha objetivos bem definidos, julgados infalíveis, para obrigar Luís Negreiros a descobrir que era ele o infiel, era ele o hipócrita que levava uma vida dupla, já do conhecimento dela. Tal descoberta o levaria ao desmascaramento e à perda da fama de marido impecável, fiel e honesto que lhe era atribuída no meio social.  ______________________________
Zenóbia Collares Moreira

23 de maio de 2011

Miguel Torga: “Vicente”

Naquela tarde, à hora em que o céu se mostrava mais duro e mais sinistro, Vicente abriu as asas negras e partiu. Quarenta dias eram já decorridos desde que, integrado na leva dos escolhidos, dera entrada na Arca. Mas desde o primeiro instante que todos viram que no seu espírito não havia paz. Calado e carrancudo, andava de cá para lá numa agitação contínua, como se aquele grande navio onde o Senhor guardara a vida fosse um ultraje à criação. Em semelhante balbúrdia - lobos e cordeiros irmanados no mesmo destino -, apenas a sua figura negra e seca se mantinha inconformada com o procedimento de Deus. Numa indignação silenciosa, perguntava:- a que propósito estavam os animais metidos na confusa questão da torre de Babel? Que tinham que ver os bichos com as fornicações dos homens, que o Criador queria punir? Justos ou injustos, os altos desígnios que determinavam aquele dilúvio batiam de encontro a um sentimento fundo, de irreprimível repulsa. E, quanto mais inexorável se mostrava a prepotência, mais crescia a revolta de Vicente.
Quarenta dias, porém, a carne fraca o prendeu ali. Nem mesmo ele poderia dizer como descera do Líbano para o cais de embarque e, depois, na Arca, por tanto tempo recebera das mãos servis de Noé a ração quotidiana. Mas pudera vencer-se. Conseguira, enfim, superar o instinto da própria conservação, e abrir as asas de encontro à imensidão terrível do mar.
A insólita partida foi presenciada por grandes e pequenos num respeito calado e contido. Pasmados e deslumbrados, viram-no, temerário, de peito aberto, atravessar o primeiro muro de fogo com que Deus lhe quis impedir a fuga, sumir-se ao longe nos confins do espaço. Mas ninguém disse nada. O seu gesto foi naquele momento o símbolo da universal libertação. A consciência em protesto activo contra o arbítrio que dividia os seres em eleitos e condenados. Mas ainda no íntimo de todos aquele sabor de resgate, e já do alto, larga como um trovão, penetrante como um raio, terrível, a voz de Deus:
- Noé, onde está o meu servo Vicente?  
Bípedes e quadrúpedes ficaram petrificados. Sobre o tombadilho varrido de ilusões, desceu, pesada, uma mortalha de silêncio.
Novamente o Senhor paralisara as consciências e o instinto, e reduzia a uma pura passividade vegetativa o resíduo da matéria palpitante.
Noé, porém, era homem. E, como tal, aprestou as armas de defesa.
- Deve andar por aí...Vicente! Vicente! Que é do Vicente?!...
Nada.
- Vicente!...Ninguém o viu? Procurem-no!
Nem uma resposta. A criação inteira parecia muda.
- Vicente! Vicente! Em que sítio é que ele se meteu?
Até que alguém, compadecido da mísera pequenez daquela natureza, pôs fim à comédia.
- Vicente fugiu...
- Fugiu? Fugiu como?
- Fugiu...Voou...
Bagadas de suor frio alagaram as têmporas do desgraçado. De repente, bambearam-lhe as pernas e caiu redondo no chão.
Na luz pardacenta do céu houve um eclipse momentâneo. Pelas mãos invisíveis de quem comandava as fúrias, como que passou, rápido, um estremecimento de hesitação.
Mas a divina autoridade não podia continuar assim, indecisa, titubeante, à mercê da primeira subversão. O instante de perplexidade durou apenas um instante. Porque logo a voz de Deus ribombou de novo pelo céu imenso, numa severidade tonitruante.
- Noé, onde está o meu servo Vicente?
Acordado do desmaio poltrão, trémulo e confuso, Noé tentou justificar-se.
- Senhor, o teu servo Vicente evadiu-se. A mim não me pesa a consciência de o ter ofendido, ou de lhe haver negado a ração devida. Ninguém o maltratou aqui. Foi a sua pura insubmissão que o levou... Mas perdoa-lhe, e perdoa-me também a mim... E salva-o, que, como tu mandaste, só o guardei a ele...
- Noé!...Noé!...
E a palavra de Deus, medonha, toou de novo pelo deserto infinito do firmamento. Depois, seguiu-se um silêncio mais terrível ainda. E, no vácuo em que tudo parecia mergulhado, ouvia-se, infantil, o choro desesperado do Patriarca, que tinha então seiscentos anos de idade.

Entretanto, suavemente, a Arca ia virando de rumo. E a seguir, como que guiada por um piloto encoberto, como que movida por uma força misteriosa, apressada e firme - ela que até ali vogara indecisa e morosa ao sabor das ondas -, dirigiu-se para o sítio onde quarenta dias antes eram os montes da Arménia.

Na consciência de todos a mesma angústia e a mesma interrogação. A que represálias recorreria agora o Senhor? Qual seria o fim daquela rebelião?

Horas e horas a Arca navegou assim, carregada de incertezas e terror. Iria Deus obrigar o corvo a regressar à barca? Iria sacrificá-lo, pura e simplesmente, para exemplo? Ou que iria fazer? E teria Vicente resistido à fúria do vendaval, à escuridão da noite e ao dilúvio sem fim? E, se vencera tudo, a que paragens arribara? Em que sítio do universo havia ainda um retalho de esperança?

Ninguém dava resposta às próprias perguntas. Os olhos cravavam-se na distância, os corações apertavam-se num sentimento de revolta impotente, e o tempo passava.

Subitamente, um lince de visão mais penetrante viu terra. A palavra, gritada a medo, por parecer ou miragem ou blasfémia, correu a Arca de lés a lés como um perfume. E toda aquela fauna desiludida e humilhada subiu acima, ao convés, no alvoroço grato e alentador de haver ainda chão firme neste pobre universo.

Terra! Nem planaltos, nem veigas, nem desertos. Nem mesmo a macicez tranquilizadora dum monte... Mas bastava. Para quantos o viam, o pequeno penhasco resumia a grandeza do mundo. Encarnava a própria realidade deles, até ali transfigurados em meros fantasmas flutuantes. Terra! Uma minúscula ilha de solidez no meio dum abismo movediço, e nada mais importava e tinha sentido.

Terra! Desgraçadamente, a doçura do nome trazia em si um travor. Terra...Sim, existia ainda o ventre quente da mãe. Mas o filho? Mas Vicente, o legítimo fruto daquele seio?

Vicente, porém, vivia. À medida que a barca se aproximava, foi-se clarificando na lonjura a sua presença esguia, recortada no horizonte, linha severa que limitava um corpo, e era ao mesmo tempo um perfil de vontade.

Chegara! Conseguira vencer! E todos sentiram na alma a paz da humilhação vingada. Simplesmente, as águas cresciam sempre, e o pequeno outeiro, de segundo a segundo, ia diminuindo.

Terra! Mas uma porção de tal modo exígua, que até os mais confiados a fixavam ansiosamente, como a defendê-la da voragem. A defendê-la e a defender Vicente, cuja sorte se ligara inteiramente ao telúrico destino. Ah, mas estavam "rotas as fontes do grande abismo e abertas as cataratas do céu!" E homens e animais começaram a desesperar diante daquele submergir irremediável do último reduto da existência activa. Não, ninguém podia lutar contra a determinação de Deus. Era impossível resistir ao ímpeto dos elementos, comandados pela sua implacável tirania.

Transida, a turba sem fé fitava o reduzido cume e o corvo pousado em cima. Palmo a palmo, o cabeço fora devorado. Restava dele apenas o topo, sobre o qual, negro, sereno, único representante do que era raiz plantada no seu justo meio, impávido, permanecia Vicente. Como um espectador impessoal, seguia a Arca que vinha subindo com a maré. Escolhera a liberdade, e aceitara desde esse momento todas as consequências da opção. Olhava a barca, sim, mas para encarar de frente a degradação que recusara.

Noé e o resto dos animais assistiam mudos àquele duelo entre Vicente e Deus. E no espírito claro ou brumoso de cada um, este dilema, apenas: ou se salvava o pedestal que sustinha Vicente, e o Senhor preservava a grandeza do instante genesíaco - a total autonomia da criatura em relação ao criador -, ou, submerso o ponto de apoio, morria Vicente, e o seu aniquilamento invalidava essa hora suprema. A significação da vida ligara-se indissoluvelmente ao acto de insubordinação. Porque ninguém mais dentro da Arca se sentia vivo. Sangue, respiração, seiva de seiva, era aquele corvo negro, molhado da cabeça aos pés, que, calma e obstinadamente, pousado na derradeira possibilidade de sobrevivência natural, desafiava a omnipotência. Três vezes uma onda alta, num arranco de fim, lambeu as garras do corvo, mas três vezes recuou. A cada vaga, o coração frágil da Arca, dependente do coração resoluto de Vicente, estremeceu de terror. A morte temia a morte. Mas em breve se tornou evidente que o Senhor ia ceder. Que nada podia contra àquela vontade inabalável de ser livre. Que, para salvar a sua própria obra, fechava, melancolicamente, as comportas do céu.”


Conto de Miguel Torga. Os bichos, 1987.


Comentário do conto "Vicente" - M. Torga.

Para quem conhece a biografia de Torga, não é difícil fazer uma analogia entre Vicente e o autor, chegando à conclusão que o Corvo funciona como seu alter-ego, ou seja: esse ser rebelde, desobediente, ousado e corajoso, que ousa desafiar os deuses e cuja voz se ergue altiva, obstinada e rebelde em defesa da sua liberdade. Voz que se assume como a voz dos demais oprimidos que não possuem a coragem e a ousadia suficientes para se rebelarem contra seus opressores.
No conto, Torga intertextualizou o episódio bíblico do dilúvio, adaptando-o à mensagem que desejava comunicar. Assim, em lugar da pomba, fez do corvo o protagonista de sua história. Este, após quarenta dias preso na arca de Noé, estava extenuado, inquieto, tenso e tomado de indignação com Deus, que ordenara aquela prisão e punia os animais inocentes pelos pecados dos homens: «Que tinham que ver os bichos com as fornicações dos homens?» –, Vicente abriu as asas e partiu. Todos os outros animais ficaram pasmados com a ousadia do corvo. «O seu gesto foi naquele momento o símbolo da universal libertação».
Considerando o sentido alegórico deste conto, fica evidente a mensagem do seu autor, segundo a qual o homem não deve sentir medo quando batalha por uma causa ou por um ideal que acha pertinentes e legítimos. Na polaridade submissão/rebeldia, o corvo Vicente funciona como uma representação do homem rebelde, destemido, que não aceita a coação e a intimidação por parte de nenhum déspota que se julgue com o direito de subjugá-lo, daí defender até as últimas conseqüências seu direito de ser livre.
O conto, como não poderia deixar de ser, termina com a vitória de Vicente, o corvo rebelde que no dilúvio universal não teve medo e ousou abandonar a arca de Noé, tornando-se autônomo relativamente ao próprio Criador. Se este lhe dera o direito de nascer livre e de viver em liberdade, não tinha o direito de penalizá-lo por sua opção de evadir-se:
“Três vezes uma onda alta, num arranco de fim, lambeu as garras do corvo, mas três vezes recuou. A cada vaga, o coração frágil da Arca, dependente do coração resoluto de Vicente, estremeceu de terror. A morte temia a morte.
Mas em breve se tornou evidente que o Senhor ia ceder. Que nada podia contra aquela vontade inabalável de ser livre.
Que para salvar a sua própria obra, fechava, melancolicamente, as comportas do céu”. (Bichos, 1987 p. 133).

Torga viveu e sofreu durante os anos de ditadura e repressão em Portugal. Todavia, não deixou de ser um defensor da liberdade individual. Sua rebeldia, sua obstinação em seguir seus próprios valores ideológicos, sua intrepidez em relação à opressão por parte dos poderosos, estão evidentes em grande parte de sua obra. O desfecho da luta entre Vicente e o “Criador”, com a vitória do Corvo, reforça a idéia de que é válida toda luta pela liberdade, desde que seja sustentada por uma “vontade inabalável de ser livre”. 
Zenóbia Collares Moreira.