23 de maio de 2011

Comentário do conto "Vicente" - M. Torga.

Para quem conhece a biografia de Torga, não é difícil fazer uma analogia entre Vicente e o autor, chegando à conclusão que o Corvo funciona como seu alter-ego, ou seja: esse ser rebelde, desobediente, ousado e corajoso, que ousa desafiar os deuses e cuja voz se ergue altiva, obstinada e rebelde em defesa da sua liberdade. Voz que se assume como a voz dos demais oprimidos que não possuem a coragem e a ousadia suficientes para se rebelarem contra seus opressores.
No conto, Torga intertextualizou o episódio bíblico do dilúvio, adaptando-o à mensagem que desejava comunicar. Assim, em lugar da pomba, fez do corvo o protagonista de sua história. Este, após quarenta dias preso na arca de Noé, estava extenuado, inquieto, tenso e tomado de indignação com Deus, que ordenara aquela prisão e punia os animais inocentes pelos pecados dos homens: «Que tinham que ver os bichos com as fornicações dos homens?» –, Vicente abriu as asas e partiu. Todos os outros animais ficaram pasmados com a ousadia do corvo. «O seu gesto foi naquele momento o símbolo da universal libertação».
Considerando o sentido alegórico deste conto, fica evidente a mensagem do seu autor, segundo a qual o homem não deve sentir medo quando batalha por uma causa ou por um ideal que acha pertinentes e legítimos. Na polaridade submissão/rebeldia, o corvo Vicente funciona como uma representação do homem rebelde, destemido, que não aceita a coação e a intimidação por parte de nenhum déspota que se julgue com o direito de subjugá-lo, daí defender até as últimas conseqüências seu direito de ser livre.
O conto, como não poderia deixar de ser, termina com a vitória de Vicente, o corvo rebelde que no dilúvio universal não teve medo e ousou abandonar a arca de Noé, tornando-se autônomo relativamente ao próprio Criador. Se este lhe dera o direito de nascer livre e de viver em liberdade, não tinha o direito de penalizá-lo por sua opção de evadir-se:
“Três vezes uma onda alta, num arranco de fim, lambeu as garras do corvo, mas três vezes recuou. A cada vaga, o coração frágil da Arca, dependente do coração resoluto de Vicente, estremeceu de terror. A morte temia a morte.
Mas em breve se tornou evidente que o Senhor ia ceder. Que nada podia contra aquela vontade inabalável de ser livre.
Que para salvar a sua própria obra, fechava, melancolicamente, as comportas do céu”. (Bichos, 1987 p. 133).

Torga viveu e sofreu durante os anos de ditadura e repressão em Portugal. Todavia, não deixou de ser um defensor da liberdade individual. Sua rebeldia, sua obstinação em seguir seus próprios valores ideológicos, sua intrepidez em relação à opressão por parte dos poderosos, estão evidentes em grande parte de sua obra. O desfecho da luta entre Vicente e o “Criador”, com a vitória do Corvo, reforça a idéia de que é válida toda luta pela liberdade, desde que seja sustentada por uma “vontade inabalável de ser livre”. 
Zenóbia Collares Moreira.
 

2 de maio de 2011

Maria Judite de Carvalho- "A Noiva Inconsolável".


Ambas a tinham beijado, abraçado, lamentado sinceramente, com palavras trêmulas e lacrimejantes, muito sentidas: “Coitada, mas que pouca sorte a tua!” – “Oh filha, eu, quando soube, fiquei varada, nem queria acreditar...” – “Mas como é possível, como é possível?” Queriam saber pormenores. Como fora, afinal de contas? Que acontecera? O jornal explicava tão mal, a notícia era tão pouco clara... E Joana ia-se repetindo, incessantemente, no mesmo metal de voz cansado e igual. Ele telefonara-lhe na antevéspera, dissera-lhe que no dia seguinte – ontem- tencionava ir com amigos à praia, ao fim da tarde, quando saísse do escritório. “Vamos num pulo a Carcavelos dar um mergulho.” Ela parece que adivinhava, um pressentimento, não é? Tinha feito tudo para o dissuadir. Mas ele teimava: que estava combinado, e isto e aquilo. Tinha ido. Não sabia mais nada. Ninguém sabia mais nada.
“Era a morte a chamá-lo”
“Era...”
“O nosso destino está marcado, filha. Digam o que disserem. Se ele não tivesse ido nadar para Carcavelos, acontecia-lhe qualquer outra coisa. Ficava atropelado, por exemplo. O dia era ontem.”
“O dia era ontem. O nosso quando será?”
Houve um breve silêncio cheio de perguntas. A Inês, uma morena muito pintada, disse, levantando-se, com um suspiro:
“Tenho que ir indo. Não quis deixar de te dar um abraço, nas agora tenho que ir indo. O dentista marcou-me hora às cinco e meia. Já não tenho muito tempo”.
A outra, que estava sentada perto da janela, perguntou se o dentista ficava na Baixa. Então ia comprar botões. “Tu desculpas, sim? Mas é que me fazem tanta falta!”
Houve novamente beijos muito estalados e pedidos, melhor, exortações à resignação. Agora já não havia nada a fazer. Era preciso ter coragem, encarar as coisas de frente. A Inês ia ainda dizer que as lágrimas não serviam de nada, mas deteve-se a tempo quando verificou que Joana não chorava, olhava-as de frente com o rosto seco e a expressão de todos os dias. De todos os dias? Bem, talvez não fosse exatamente assim. A expressão dela não era a de todos os dias, era mesmo uma expressão nova, diferente de todas as suas expressões. A Guida, porém, e a Inês não compreenderam o seu significado. Eram raparigas simples, que mão viam muito para além das coisas.
A porta fechou-se devagar e as duas começaram a descer a escada. Um sol de fim de tarde, amarelado e sujo, atravessava com dificuldade a clarabóia.
“Coitada”, disse Guida abrindo a mala para se ver ao espelho, “não se pode dizer que tenha tidomuita sorte. Tanto se ralou para arranjar um homem e ele morre-lhe assim do pé para a mão. E logo afogado, que horror”!
Sempre tive um medo horrível de morrer afogada”, declarou Inês. “Bem, eu sei nadar... mas a verdade é que ele também sabia. Não sei porquê, mas o fundo do mar... Aqueles bichos horríveis, moréias, não é? Que parecem cobras. No aquário se Algés havia duas moréias, de olhos muito vivos, a olharem fixos para mim. Tinha pesadelos sempre que lá ia. Quando era miúda, claro. Depois nunca mais lá voltei. Já devem ter morrido. Quanto tempo durará uma moréia?”
A outra riu.
“Sei lá! Em todo o caso no mar de Carcavelos não deve haver moréias. Que... bem, tens razão...A gente não sabe onde ele está, por onde anda. Não apareceu... Ainda não deu à costa. Quandio isso acontecer, deve estar... Meu Deus, não vou comer peixe durante muito tempo.”
Teve um arrepio. “Coitada da Joana, nunca mais arranja outro. Com uma cara daquelas... Ouve cá, tu achas que ele casava mesmo?
“Levava-lhe jeito. Até tinham comprado uma mobília de quarto... Já vês...”
“Sim, claro, mas é esquisito, não achas?”
“É. Há muita coisa esquisita por esse mundo. Olha, eu, por exemplo, não tenho hora marcada no dentista. O Zé deve estar à minha espera na paragem do autocarro.”
A outra foi atacada de riso.
“Eu também não vou à Baixa comprar botões. Vou à segunda matinée do Tivoli. E tenho que me meter num táxi, senão chego tarde.”
Separaram-se alegremente. No fundo, eram excelentes raparigas. Não tinham querido falar em namoros e cinemas, porque tinham o sentido do apropósito.
***
Joana estava só. As amigas acabavam de sair e os pais e o irmão ainda não tinham chegado a casa. A mãe não se demorava com certeza, fora comprar-lhe uma blusa e meias pretas. Nem um beijo lhe dera nesse dia, nem uma plavra de ternura. Não agredia, isso não, sempre era uma vantagem que tinha sobre os outros, Ficava-se hirta e quieta, como que fechada por dentro no seu restrito mundo hermético. Era uma boa esposa, uma boa mãe; As noites que tinha perdido, as noites que continuava a perder sempre que alguém estava doente! Não lhe podiam pedir mais , não lhe pediam mais. O irmão, esseentrava e saia, nunca parava em casa. Rapazes, não é verdade? Agora é que era aproveitar... Quanto ao pai, chamava a todas as coisas que não fossem inteiramente transparentes, àquelas que lhe parecessem ligeiramente turvas, complicações de gente histérica. E falava sempre com ar definitivo de quem tudo pode julgar porque tudo sabe.
Filha deles? Irmã do irmão? Quando pensava nisso parecia-lhe ter nascido de si própria, sem laços que a unissem a ninguém. E, no entanto, como esses laços lhe faziam falta! Uma semente vinda sabe-se lá donde e que o vento por acaso ali tivesse largado. Sentia-se longe da família, das suas pequens ambições, das suas invejas mesquinhas. “Sou o homem de confiança do Rebelo”, dizia o irmão. “Vou fazer uma limpeza. O Rebelo, coitado, que é bom homem nas não deve nada à inteligência, tem sido ignobilmente enganado por aquela corja. Agora vai entrar tudo nos eixos, olá se vai. Eles conhecem-me, sabem que corto a direito”. O pai falava do cargo de sub-chefe que fora dado ao Silva, um incapaz, um analfabeto. “Era um lugar para mim, todos dizem que era um lugar para mim.” O irmão tinha um sorriso superior, que a mãe aplaudia em silêncio: “O pai é um ingênuo. Teve tudo na mão, mas não soube aproveitar. Agora é tarde, claro. Por isso eu...”
No foro íntimo, Joana tratava-os pelos nomes próprios, respondia-lhe com o seu silêncio, com o livro que lia durante as refeições para não ser obrigada a ouvi-los, para se recusar a ouvi-los. Não os detestava, nem isso, simplesmente eles não a interessavam. Sentia-se longe, sozinha no mundo, sozinha em parte nenhuma. Era tudo.
Ela e o seu pequeno rosto ingrato, de coelho, em seus óculos espessos, de muitas dioptrias, a silhuetas pesada e sem graça. Outras tantas grades a isolarem-na do mundo exterior, a taparem a entrada a quem viesse. Mas ninguém vinha. E ela tão só, coitada. Via-se no espelho, estudava o novo penteado à Farah Diba, experimentava um creme de que se diziam maravilhas, no último número da Elle. Mas a carinha de coelho era mais forte do que tudo. Estava sempre em primeiro plano.
Depois ele um dia aparecera. Bonito rapaz, simpático em todo o caso. Nunca se lhe pusera o problema de saber se o amava verdadeiramente. Mas havia aquele precisar dos olhos dele a olharem-na, de algumas palavras que nunca ouvira antes e ele lhe dizia, da promessa das suas mãos.
A mãe, quando soubera do namoro, sentira-se preocupada. Dir-se-ia que procurava em volta, sem a achar, a razão – porque alguma devia existir – para aquele homem, o primeiro, se interessar por Joana. O pai limitara-se a dizer, sem levantar os olhos do jornal, que já não era sem tempo, e tinha perguntado logo a seguir, na mesma emissão de voz, se sabia quando ele ganhava. Quanto ao irmão, olhava-a com um espanto quase insultuoso e dera-lhe de conselho que o agarrasse bem e fizesse por casar depressa.
De princípio ele queria casar já e tinham mesmo comprado aquela mobília com as economias de ambos. Depois começara a falar numa situação muito vantajosa que lhe tinham oferecido na África. Por fim deixara de se referir a ambas as coisas. Era raro aparecer e telefonava-lhe mais à pressa, tinha sempre trabalho urgente a fazer, “tu desculpas-me. Sim? Amanhã te explico”. Não explicava, porque nunca aparecia aamanhã, só dias depois e então tinha-me esquecido, era natural, com tanto em que pensar. E até parecia esquisito ela ir-lhe falar de coisas já tão passadas.
Mas, a pouco e pouco, as grades que havia meses tinham caído apareciam de novo à sua volta. Via outra vez coisas perdidas e reencontradas. A sua carinha de coelho, por exemplo, trinta anos, o seu corpo desengraçado, ouvia a sua foz a fazer a si própria perguntas a que se recusava a dar resposta. Tinha uma grande vontade de chorar e todas as manhãs pensava, aterrorizada, se seria nesse dia.
Na antevéspera ele telefonara-lhe a dizer aquilo. Joana pedira-lhe que não fosse. Porque não a vinha ver? Tinham tanto em que falar! Havia já quase uma semana que não aparecia. “Uma semana? Pode lá ser! Estás a brincar...” Não estava. Uma semana, “Meu Deus, como o tempo passa!” exclamava ele com convicção. Meu Deus, como o tempo é longo, pensava ela. Como o tempo custa a passar!
Depois, nessa manhã, lera a notícia no jornal. Vinha o retrato dele, um retrato antigo que ela não conhecia. Mas havia tantas coisas que ela não conhecia e tantas pessoas... Pessoas a falar e ela a ouvi-las e a responder, a ter opiniões. Quais? Que teria dito? O seu atual pensamento flutuava levemente numa atmosfera mansa, batia ao de leve as asas, aflorava as coisas. Toda a angústia desaparecera. Já não receava nada, já não ia acordar todas as manhãs a pensar que talvez tudo fosse terminar antes da noite. Sentia essa calma no rosto que não via, nas mãos quietas, na voz que lhe saía direta, quase rígida. A serenidade que ele lhe legara! Apetecia-lhe sorrir mesmo sem estar alegre, sorrir precisamente porque estava triste. Sorrir à mãe quando ela entrasse com os trapos pretos que nunca mais havia de despir, sorrir ao pai, ao irmão, às amigas que tinham acabado de descer a escada, sorrir a toda a gente. Era de súbito outra pessoa. A noiva inconsolável do homem que morrera.

Maria Judite de Carvalhio. As palavras poupadas, Ed. Seara Nova, 3ª. Edição, p. 120-127.

Comentário do conto a seguir.
 

Comentário do conto "A Noiva Inconsolável".

                                                                                                                   
Ao longo da sua obra Maria Judite denuncia a ausência de sentido, de significação do mundo, desenhado por ela, nunca como uma estância de felicidade e harmonia, mas sim como um lugar inóspito, pesado, no qual cada pessoa carrega o fardo da solidão, sempre subjugada às leis tirânicas estabelecidas pela engrenagem social, como se fossem uma prisão. Aquele que ousa recusar os valores sociais estabelecidos terá que arcar com as conseqüências dolorosas de ser ignorado ou aniquilado pelo grupo social.
É sob este ponto de vista que Maria Judite de Carvalho questiona, em  alguns valores da sociedade burguesa dos anos sessenta do século XX: o casamento, a família, os costumes sociais e a condição feminina.
Joana, a personagem central da narrativa já passou dos trinta anos, é uma moça solteira que, segundo os costumes da época, já passou da idade de se casar. Ela sofre a angústia de sua situação de solteirona e, como tal, sem um lugar definido no grupo social, condizente com as expectativas de todos em relação a sua pessoa.
Para as mulheres da classe média que viveram até a década de sessenta do século XX, como Joana, a opção que lhe era dada reduzia-se ao casamento, considerado o único destino digno para a mulher, no qual exerceria seu papel de esposa, mãe e dona de casa, realizando o que a família esperava da mulher solteira. O casamento significava segurança e a chance de ter uma posição definida e prestigiada. Assim sendo, ficar solteira era a máxima infelicidade para as mulheres. A sociedade era cruel com as solteironas a quem dispensava uma espécie de disfarçada marginalização, quando não eram o alvo de zombarias ou dos olhares de piedade.. Seu destino era a solidão.

Joana, personagem deste conto, é uma mulher feia, que já passou da idade de arranjar marido e tem poucas chances de encontrar um noivo. Ela sabe não tem beleza nem atrativos e decide levar uma vida reclusa na casa dos pais que a sustentam. O pai é arrogante e autoritário, a mãe é submissa e cumpre o seu papel de esposa e dona de casa à risca. O irmão, diferentemente de Joana, tem direito a todos os privilégios que a sociedade permite aos filhos do sexo masculino, cuja educação especial assegurar-lhe exibir um ar superioridade em relação às mulheres.
Joana, na estreiteza de seu pequeno mundo, sente-se distante de cada um deles, de suas pequenas ambições e invejas mesquinhas, emparedada na sua solidão, relegada a segundo plano no seio da família por sua condição de moça solteira, já não muito jovem, a quem nenhum papel, nenhum rótulo coubera até então:
"Filha deles? Irmã do irmão? Quando pensava nisso parecia-lhe ter nascido de si própria, sem laços que a unissem a ninguém (...)
Não os detestava, nem isso, simplesmente eles não a interessavam. Sentia-se longe, sozinha no mundo, sozinha em parte alguma".

O surgimento de um pretendente à mão de Joana vem abalar a mesmice, a aparente tranqüilidade desse lar burguês. Abre-se para Joana a possibilidade de conquistar um lugar definido, de tornar-se, ela também, “boa esposa, boa mãe”, assumindo, assim, o papel que lhe cabe representar, ocupando o seu “lugar marcado”. Tanto que ela nunca se pusera o problema de saber se o amava verdadeiramente. Daí o terror de perdê-lo por um rompimento e recair na situação anterior, na indefinição e no vazio:


"Mas a pouco e pouco, as grades que havia meses tinham caído apareciam de novo à sua volta. Via outra vez coisas perdidas e reencontradas. A sua carinha de coelho, por exemplo, já com trinta anos, o seu corpo desengraçado, ouvia a sua voz fazer a si própria perguntas a que se recusava a dar resposta. Tinha uma grande vontade de chorar, e todas as manhãs pensava, aterrorizada, se seria neste dia".


A morte súbita do noivo, vítima de afogamento, proporciona à Joana uma súbita revelação de que estava no limiar de sua sonhada libertação. Após ler a notícia da morte do noivo no jornal, Joana foi invadida por uma profunda serenidade:


"Toda a angústia desapareceu. Já não receava nada, já não ia acordar todas as manhãs a pensar que talvez tudo fosse terminar antes da noite. Sentia essa calma no rosto que não via, nas mãos quietas, na voz que lhe saía direta, quase rígida. A serenidade que ele lhe negara! Apetecia-lhe sorrir mesmo sem estar alegre, sorrir precisamente porque estava triste. Sorrir à mãe quando ela entrasse com os trapos pretos que nunca mais havia de despir. Sorrir ao pai, ao irmão, às amigas que tinham acabado de descer a escada, sorrir a toda gente. Era de súbito outra pessoa. A noiva inconsolável do homem que morrera".


Após essa experiência reveladora, Joana começa a experienciar uma profunda transformação interior que a torna uma pessoa segura, determinada, firme, confiante e serena: nada mais lhe resta da Joana anterior, insegura, arredia, entregue à solidão. Depois da morte do noivo ela é outra pessoa, completamente diferente da que fora. Ela passa a fazer parte do mesmo mundo de sua mãe, do seu pai, do seu irmão e das suas amigas. Ela, enfim encontrou o seu lugar marcado: o lugar de Noiva Inconsolável do homem que morrera.

A morte do noivo traz um novo sentido à vida de Joana, na medida em que lhe ensejou uma radical inversão de valores que a leva a assumir a máscara da “noiva inconsolável”, depois da morte do noivo. Paradoxalmente, a morte do noivo conduziu Joana à tranqüilidade, ao equilíbrio e à recriação da realidade, que tornou possível a felicidade

O ponto forte da crítica de Maria Judite de Carvalho é alicerçado pela IRONIA, usada com muita habilidade pela autora como questionamento acerca de um sistema de valores da época (anos 60), caracterizado pela vulgaridade e falsidade das pessoas. Através de Joana, a autora vai apontando a falsidade e a hipocrisia prevalescentes nas relações sociais com a família, com as amigas, com o noivo.
A ironia se estende ao próprio título do conto, pois apenas fingia que sentira a morte do noivo, na verdade a noiva não estava inconsolável. Ela se faz de inconsolável, mas o rótulo é pura encenação, é a máscara dolorosa para dar foro de autenticidade à saudade fingida do noivo e para um amor que não havia.
Joana substituiu o vestido branco de noiva pelo traje preto de viúva que vestiria até o fim da vida, voluntariamente, incorporando a personagem de si mesma que criou para representar no palco da vida social o romântico papel que lhe daria enorme visibilidade, prestigio e respeito. 

10 de abril de 2011

Vergílio Ferreira: "A Palavra Mágica".


Nunca o Silvestre tinha tido uma pega com ninguém. Se às vezes guerreava, com palavras azedas para cá e para lá, era apenas com os fundos da própria consciência. Viúvo, sem filhos, dono de umas leiras herdadas, o que mais parecia inquietá-lo era a maneira de alijar bem depressa o dinheiro das rendas. Semeava tão facilmente as economias, que ninguém via naquilo um sintoma de pena ou de justiça — mesmo da velha —, mas apenas um desejo urgente de comodidade. Dar aliviava. Pregavam-lhe que o Paulino ia logo de casa dele derretê-lo em vinho, que o Carmelo não comprava nada, livros ou cadernos ao filho, que andava na instrução primária. As moedas rolavam-lhe para dentro da algibeira e com o mesmo impulso fatal rolavam para fora, deixando-lhe, no sítio, a paz.
Ora um domingo, o Silvestre ensarilhou-se, sem querer, numa disputa colérica com o Ramos da loja. Fora o caso que ao falar-lhe, no correr da conversa, em trabalhadores e salários, Silvestre deixou cair que, no seu entender, dada a carestia da vida, o trabalho de um homem de enxada não era de forma alguma bem pago. Mas disse-o sem um desejo de discórdia, facilmente, abertamente, com a mesma fatalidade clara de quem inspira e expira. Todavia, o Ramos, ferido de espora, atacou de cabeça baixa:
— Que autoridade tem você para falar? Quem lhe encomendou o sermão?
— Homem! — clama o Silvestre, de mão pacífica no ar. — Calma aí, se faz favor. Falei por falar.
— E a dar-lhe. Burro sou eu em ligar-lhe importância. Sabe lá você o que é a vida, sabe lá nada. Não tem filhos em casa, não tem quebreiras de cabeça. Assim, também eu.
— Faço o que posso — desabafou o outro.
— E eu a ligar-lhe. Realmente você é um pobre diabo, Silvestre. Quem é parvo é quem o ouve. Você é um bom, afinal. Anda no mundo por ver andar os outros. Quem é você, Silvestre amigo? Um inócuo, no fim de contas. Um inócuo é o que você é.
Silvestre já se dispusera a ouvir tudo com resignação. Mas, à palavra “inócuo”, estranha ao seu ouvido montanhês, tremeu. E à cautela, não o codilhassem por parvo, disse:
— «inoque» será você.
Também o Ramos não via o fundo ao significado de inócuo. Topara por acaso a palavra, num diálogo aceso de folhetim, e gostara logo dela, por aquele sabor redondo a moca grossa de ferros, cravada de puas. Dois homens que assistiam ao barulho partiram logo dali, com o vocábulo ainda quente da refrega, a comunicá-lo à freguesia:
— Chamou-lhe tudo, o patife. Só porque o pobre entendia que a jorna de um homem é fraca. Que era um paz-de-alma. E um «inoque».
— Que é isso de «inoque»?
— Coisa boa não é. Queria ele dizer na sua que o Silvestre não trabalhava, que era um lombeiro, um vadio.
Como nesse dia, que era domingo, Paulino entrara em casa com a bebedeira do seu descanso, a mulher praguejou, como estava previsto, e cobriu o homem de insultos como não estava inteiramente previsto:
— Seu bêbado ordinário. Seu «inoque» reles.
Quando a palavra caiu da boca da mulher, vinha já tinta de carrascão. E desde aí, «inoque» significou, como é de ver, vadio e bêbado.
Ora tempos depois apareceu na aldeia um sujeito de gabardina, a vender drogas para todas as moléstias dos pobres. Pedra de queimar carbúnculos, unguentos de encoirar, solda para costelas quebradas. Vendeu todo o sortido. Mas logo às primeiras experiências, as drogas falharam. Houve pois necessidade de marcar a ferro aquela roubalheira de gabardina e unhas polidas. E como o vocabulário dos pobres era curto, alguém se lembrou da palavra milagrosa do Ramos. Pelo que, «inoque» significou trampolineiro ou ladrão dos finos. Mas como havia ainda os ladrões dos “grossos”, não foi difícil meter dentro da palavra mais um veneno.
Como, porém, as desgraças e a cólera do povo pediam cada dia termos novos para se exprimirem, “inócuo” foi inchando de mais significações. Quando a Rainha deu um tiro de caçadeira, num dia de arraial, ao homem da amante, chamaram-lhe, evidentemente, «inoque», por ser um devasso e um assassino de caçadeira. Daí que fosse fácil meter também no «inoque» o assassino de faca e a cróia de porta aberta.
“Inócuo” dera a volta à aldeia, secara todo o fel das discórdias, escoara todo o ódio da população. A moca grossa de ferro, seteada de puas, era agora uma arma terrível, quase desleal, que só se usava quando se tinha despejado já toda a cartucheira de insultos. Até que o Perdigão dos Cabritos entrou pela ponte norte da aldeia, com o cavalo carregado de reses, num dia de feira, e se azedou com o taberneiro, quando trocava um borrego por vinho. De olhos chamejantes, perdido, já no quente da refrega, o taberneiro atirou-lhe o verbo da maldição. Houve quem achasse desmedida a vingança do homem. Perdigão arriou:
— «Inoque» será você.
Também ele não sabia que veneno tinham despejado na palavra, mas, pelo sim pelo não, aliviou. E pela tarde, enfardelou o termo infame com as peles da matança, e abalou com ele pela ponte sul. Longos meses a palavra maldita andou por lá a descarregar o ódio das gentes. Até que um dia voltou a entrar na aldeia, não já pela ponte sul que dava para a Vila, mas pela ponte norte que levava a terras sem nome. Vinha em farrapos, na boca de um caldeireiro, mais estropiada, coberta da baba de todos os rancores e de todos os crimes. Quando deitava um pingo num caneco de folha, o caldeireiro pegou-se de razões com o freguês. O dono do caneco correu uma mão amiga pelas costas do vagabundo:
— Lá ver isso, velhinho. O combinado foram cinco tostões.
— Não me faça festas que eu não sou mulher, seu «inoque» reles.
E “inócuo” significou um nome feio para um homem. Então o ajudante, ou o que era, do caldeireiro, tentou deitar água na fogueira.
— Cale-se também você, seu «inoque» ordinário. A mim não me mata você à fome como fez a seu pai.
Porque “inócuo” também queria dizer parricida. Então o Ramos, que passava perto, tomou a palavra excomungada nas mãos e pediu ao velho que a abrisse, para ver tudo o que já lá tinha dentro. Um cheiro pútrido a fezes, a pus, a vinagre, alastrou pelo espanto de todos em redor. Com os dedos da memória, o caldeireiro foi tirando do ventre do vocábulo restos de velhos significados, maldições, ódios, desesperos. “Inócuo” era “bêbado”, ‘ladrão”, “incendiário’, ‘pederasta’, e, uma que outra vez, um desabafo ligeiro como “poça” ou “bolas”. Para o calão da gente fina, que topara a palavra na cozinha, nos trabalhos do campo, soube-se um dia que significava ainda 'escroque', «souteneur», e mais.
A aldeia em peso tremeu. Era possível a qualquer apanhar com o palavrão na cara e ficar coberto de peste. Eis porém que uma vez o filho do Gomes, que andava no colégio da Vila, insultado de «inoque» por um colega, numa partida de bilhar, lembrou-se à noite de ver no dicionário a fundura vernácula da ofensa. Procurou «inoque». Não vinha. Procurou «noque». Também não vinha. Furioso, buscou à toa, «quinoque», «moque», «soque». Nada. Quando a mãe o procurou, para ver se estudava, encontrou-o às marradas no dicionário. Choroso, o rapaz declarou:
— O meu «pagnon» chamou-me «inoque», mãe. Queria saber o que era. Mas não vem no dicionário.
— Não vejas! — clamou a mulher, de braços no ar. — Deixa lá! Não te importes.
— Mas que quer dizer?
— Coisas ruins, meu filho. Herege, homem sem religião e mais coisas más. Não vejas!
Começaram então a aparecer as primeiras queixas no tribunal da Vila, contra a injúria de «noque», «inoque» e, finalmente, de “inócuo”, consoante a instrução de cada um. Como a palavra estropiada era um termo bárbaro nos seus ouvidos cultos, o juiz pedia a versão da injúria em linguagem correcta, sendo essa versão que instruía os autos.
— Chamou-me «noque».
— Absolutamente. Mas que queria ele dizer na sua?
— Pois queria dizer que eu era ladrão.
E escrevia-se “ladrão”. Pelo mesmo motivo, gravava-se a ofensa, de outras vezes, nos termos de “assassino”, “devasso”, ou “bêbedo”.
Ora um dia foi o próprio Bernardino da Fábrica que moveu um processo ao guarda-livros pela injúria de «inócuo». Metida a questão nos trilhos legais, o Bernardino procurou o juiz, para ver se podia ajustar, previamente, uma bordoada firme no agressor. Mas aí, o juiz atirou uma palmada à coxa curta, clamou:
— Homem! Agora entendo eu. «Noque» era ‘inócuo’!
E admitindo que o vocábulo contivesse um veneno insuspeito, pegou num dicionário recente, o último modelo de ortografia e significados. Então pasmou de assombro, perante o escuro mistério que carregara de pólvora o termo mais benigno da língua: “inocuo’ significa apenas «que não faz dano, inofensivo”. E pôs o dicionário aberto diante da ofensa de Bernardino. O industrial carregou a luneta, e longo tempo, colérico, exigiu do livro insultos que lá não estavam.
— Nada feito — repetia o juiz. — O homem chamou-lhe, correctamente, “pessoa incapaz de fazer mal a alguém”.
— Mas há a intenção — opôs o advogado, mais tarde, quando se voltou ao assunto. — Há o sentido que toda a gente liga à palavra.
— Nada feito — insistia o juiz. — “Inócuo” é ‘inofensivo’ até nova ordem.
Então o advogado desabafou. Também ele sabia, como toda a gente culta, que “inócuo” era um pobre diabo dum termo que não fazia mal a ninguém. Sabia-o, com um saber analítico, desde as aulas de Latim do seu Padre Mestre. Mas não ignorava também que o ódio humano nem sempre conseguia razões para se justificar. E nesse caso, qualquer palavra, mesmo inofensiva, era um pendão desfraldado no pau alto da vingança. Bernardino fora ofendido. Mas podia querer amanhã ofender e as razões serem curtas para o seu rancor. Uma palavra informe, soprada de todos os furores, seria então a melhor arma. Despir o mastro da bandeira seria desnudar-se na dureza bárbara do pau. ‘Inócuo’ era uma maravilha para a última defesa da racionalidade humana, pelos ocos esconderijos onde podiam ocultar-se todos os rancores e maldições. “Inócuo” era um benefício social. Não havia que emendar-se a vida pelo dicionário. Havia que forçar-se o dicionário a meter a vida na pele.
— Cultive-se o “inócuo”. Salvemo-lo, para nos salvarmos.
Desgraçadamente, porém, os receios do advogado eram vãos. A vida, de facto, emendara o dicionário. Como bola de neve, “inócuo” rolara do ódio alto dos homens e longo tempo levaria a derreter o calor da compreensão e da justiça. Foi assim que o filho do Gomes, depois de ter encontrado a correspondência vernácula da injúria do «pagnon», tentou reabilitar a palavra excomungada. Esbaforido, foi com o dicionário aberto no sítio maldito, da mãe para o pai, do pai para os amigos. Mas ninguém o entendeu. «Noque» ou “inócuo” era um anátema verde de pus.
— Que importa o que dizem? — clamou o heroísmo do rapaz. — Podem chamar-me «inoque» ou “inócuo”, que não ligo. Agora sei o que quer dizer.
Dias depois, porém, um colega precisou de o insultar, e arremessou-lhe outra vez com o termo nefando. Toda a gente conhecia já a opinião do dicionário. Mas o furor era sempre mais forte do que o simples livro impresso.
Pelo que, nessa noite, o filho do Gomes não dormiu, preocupado apenas com descobrir uma maneira profícua de sovar bem o colega, para desforra integral.